Galeria Avenida da Índia

Arte em Estado de Guerra

Stefano Serafin
Artistas Stefano Serafin
Curadoria Paula Pinto
Inauguração 07/03/2019 18:00
Data De 08/03/2019 a 12/05/2019
Folha de Sala

As Galerias Municipais / EGEAC inauguram no próximo dia 7 de março, às 18h, na GALERIA AV. DA ÍNDIA, a exposição Arte em Estado de Guerra, de STEFANO SERAFIN com curadoria de Paula Pinto.

A exposição apresenta um conjunto de fotografias de Stefano Serafin (Possagno, Veneto, 1862-1944) que retratam a destruição das esculturas de Antonio Canova (Possagno, Veneto, 1757-1822) durante a Primeira Guerra Mundial.

Após a morte de Antonio Canova em 1822 e o encerramento do seu estúdio romano, cerca de 186 gessos foram transportados para Possagno, a vila natal do escultor. A Gipsoteca Canoviana abriria ao público em 1844 e Stefano Serafin foi nomeado seu conservador a partir de 1891. O acervo dos gessos Canovianos seria brutalmente danificado por uma série de granadas de mão, quando em 1917 a cordilheira dos Alpes se transformou numa das frentes de batalha da Primeira Guerra Mundial. Foi precisamente há cem anos, que o conservador da Gipsoteca Canova, Stefano Serafin, deu início à documentação fotográfica dos gessos e à sua reconstrução.

Depois de ter sido parcialmente comissariada para o Centro Internacional de Artes José de Guimarães em 2017, esta exposição chega agora à Galeria da Avenida da Índia, através das Galerias Municipais/ EGEAC, com um núcleo de 70 novas fotografias, encontradas recentemente em Possagno e agora mostradas pela primeira vez ao público.

Nas palavras da curadora, estas fotografias “representam o limite da destruição a que as obras de arte estão sujeitas. Elas já não representam as esculturas de António Canova. A reconstrução das obras por Stefano Serafin, o conservador da Gipsoteca desde 1891, levou à assunção destes objetos não como artefactos únicos, mas antes enquanto objetos sujeitos a transformações. Invocando as várias fases do processo criativo de Canova que originaram os diversos artefactos em gesso existentes na Gipsoteca de Possagno (Veneto), Serafin reconstruiu a maior parte dos gessos (incluindo calcos e modelos) a partir das correspondentes esculturas em mármore. Ao fazer moldes das obras de mármore para recuperar os gessos, o conservador reverteu a hierarquia de alguns destes objetos, uma vez que transformou alguns dos modelos originais, em cópias. Contudo, estas inversões permitem chamar a atenção para a complexidade dos processos reprodutivos utilizados por Antonio Canova, e que se mantêm omissos na moderna perceção dos objetos de arte enquanto objetos únicos e originais.  Os restauros de Serafin ajudaram a recuperar o domínio da tradição da escultura, anunciadamente perdido no acesso às obras de arte através de reproduções fotográficas. Desconsiderada como reprodução “não-interpretativa”, a fotografia de obras de arte, tal como os calcos de gesso de obras tridimensionais foram ironicamente apropriados pela História da Arte e pelos museus de cópias, precisamente por se tratarem de meios transparentes (“self-effacing”); foi a suposta inexistência de condição visual e até material que permitiu aos objetos reprodutivos serem utilizados como “genuínos”.

Estas imagens que revelam a tortura da guerra e a dedicação com que Stefano Serafin restaurou a beleza neoclássica da arte de Antonio Canova, evidenciam as ruínas através das quais procuramos dar sentido à vida, num desequilíbrio entre a obrigação de reconstruir a memória e a expectativa de que a arte, ao contrário de tudo o resto, sobreviva intacta para sempre.”

 

Esta exposição teve a colaboração de:

FAST – Foto Archivio Storico Trevigiano (Treviso, Itália)

Museo – Istituto per la Storia del Risorgimento Italiano (Roma, Itália)

CIAJG – Centro Internacional de Arte José de Guimarães (Guimarães, Portugal)

Henry Moore Foundation (Hertfordshire, Reino Unido)

Biografia

STEFANO SERAFIN (1862-1944) nasceu em Possagno (Itália) e formou-se na Academia de Belas Artes de Veneza. Tornou-se o conservador da Gipsoteca Canova em 1891. Após o bombardeamento de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, o seu trabalho de restauro permitiu a reabertura do museu em 1922 (centenário da morte de António Canova). Stefano Serafin dedicou a sua vida à preservação e restauro dos gessos de Canova, tendo sido denominado na imprensa de guerra como o “cirurgião de obras de arte”.

Stefano Serafin não era um fotografo profissional e as suas reproduções raramente circularam publicamente. Na ausência de prévia documentação visual e perante a destruição dos gessos por uma granada de mão, Serafin viu-se obrigado a registar o estado da arte. Se o papel da reprodução fotográfica de obras de arte é entendido como uma forma de preservação da imagem de obras de arte que vão desaparecendo com o tempo, os negativos de Serafin documentam, pelo contrário, a ruína dos gessos antes do seu restauro. As fotografias de Serafin não foram realizadas para serem percecionadas depois do restauro dos objetos, mas representam hoje o limite físico do acesso a parte do trabalho original de Antonio Canova e o último testemunho das feridas que, por decisões político-culturais, se tornaram invisíveis.

 

PAULA PARENTE PINTO (Porto, 1971) é licenciada em Artes Plásticas – Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Mestra em Cultura Urbana pela Escola Técnica Superior de Arquitetura da Universidade Politécnica da Catalunha. Especializou a sua área de estudo em História da Fotografia no Programa de Estudos Visuais e Culturais da Universidade de Rochester (NY, USA), onde concluiu o Doutoramento com a tese “Condemned to Invisibility? Antonio Canova and the Impact of Photographic Reproduction on the History of Art” (2016).

Trabalhou como investigadora e produtora de exposições no Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (1998-2000) e no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves (2000-2002).

Fundou e coeditou com Pedro Bandeira e Joaquim Moreno a revista de Cultura Urbana In Si(s)tu (2000-2005). É editora do álbum fotográfico “Ernesto de Sousa: O Meu Corpo é o Teu Corpo” (2014).

Desde 2010 tem trabalhado como investigadora e curadora independente. Destacam-se: “João Dixo (1941‐2012): Exposição Cancelada” no Museu da Vila Velha (Vila Real 2018), “Albuquerque Mendes: Nunca fiz uma exposição de desenhos”, Centro para os Assuntos da Arquitetura e das Artes (Guimarães, 2016), “Ângelo de Sousa: Uma escultura (S.N.B.A.), 1972”, CAAA (Guimarães, 2012). “Ângelo de Sousa [1938‐2011]: Ainda as Esculturas”, Galeria do Teatro Municipal da Guarda (2012), “Grupo Puzzle (1976‐1981): Pintura coletiva = pintura individual”, Centro de Artes e Espetáculos (Figueira da Foz, 2011), entre outras. Na área da fotografia, cocomissariou com Joaquim Moreno a exposição “Carlo Scarpa – Túmulo Brion – Guido Guidi” na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém (2015), comissariou a exposição “Ernesto de Sousa: A mão direita não sabe o que a esquerda anda a fazer” para a XIX Bienal de Cerveira (2017) e cocomissariou com Sofia Castro a exposição “Carlos Nogueira: fotografias de trabalho e outros desenhos”, no Arquivo Municipal de Lisboa (2018). Sob a égide do concurso público “Criatório”, prepara com Joaquim Moreno o levantamento fotográfico de Guido Guidi “Um itinerário entre bairros: viagem aos limites do Porto”, para a Câmara Municipal do Porto.

A exposição “Stefano Serafin: Arte em Estado de Guerra”, foi comissariada para o Centro Internacional de Artes José de Guimarães (2017) e atualmente expandida para a Galeria da Avenida da Índia, onde pode ser vista de terça feira a domingo, das 10h às 13h e das 14h às 18h.

 

ANTONIO CANOVA (1757-1822) nasceu em Possagno (Itália). Escultor neoclássico, a sua obra é conhecida histórica e internacionalmente. Depois de se ter transferido para Roma em 1780 e de aí ter aberto um estúdio no Vicolo dele Colonnette, Canova começou a utilizar um processo escultórico aditivo, ou seja, em vez de esculpir as suas esculturas diretamente em pedra (processo subtrativo), modelava-as primeiro em barro, mas já na sua escala definitiva. Sendo o barro uma matéria orgânica e suscetível de transformações num curto espaço de tempo, Canova realizava moldes de gesso a partir dos modelos de barro que ia finalizando, passando-os de imediato a positivos em gesso. Era a partir destes modelos em gesso, anotados com um mecanismo de cópia – inserção de pontos metálicos na superfície dos modelos de gesso que permitiam a medição e respetiva transferência das distâncias entre diversos pontos – que as suas criações eram transferidas, com a ajuda de colaboradores, para os blocos de mármore. Antonio Canova esculpiu várias estátuas e grupos escultóricos similares em mármore e antes de os enviar para os respetivos colecionadores (dispersos internacionalmente), tirava novos moldes de gesso, desta vez, a partir da pedra. A sistematicidade deste processo, deu origem a uma coleção única de gessos, conservada por Canova num mesmo sítio – o seu estúdio romano –, como um catálogo tridimensional de toda a sua obra. Depois da sua morte, o seu meio-irmão, Gianbattista Sartori Canova, transferiu grande parte desta coleção de gessos para Possagno, a cidade natal de Canova.

A coleção de gessos de Canova foi tornada pública em 1836, passando a representar uma oportunidade excecional para o estudo do processo de trabalho deste escultor, mas acabou por ser brutalmente destruída durante a Primeira Guerra Mundial (1917). A técnica de produção de moldes de gesso generalizou-se no final do século XVIII, com a reprodução de esculturas greco-romanas encontradas em escavações arqueológicas. O seu objetivo era fazer chegar as cópias de baixo custo a coleções e escolas de Belas Artes, mas o recurso a esta técnica não é conhecido no processo criativo de escultores contemporâneos.

 

 

Visita Guiada

AUDIO

 

Para ouvir a apresentação da curadora Paula Pinto e do diretor das Galerias Municipais, Tobi Maier, na inauguração da exposição clique aqui.

Click here and listen to the introduction from the curator Paula Pinto in conversation with the director of the Municipal Galleries Tobi Maier recorded during the opening of the exhibition.