Passado

2018

La Neblina

Runo Logomarsino
Artistas Runo Lagomarsino
Curadoria Filipa Oliveira
Data De 06/07/2018 a 23/09/2018
Folha de Sala

Podemos pensar numa exposição como um território. Um território de transição onde são propostas novas possibilidades de restruturação social, económica, política e mesmo histórica. Um espaço singular, assistemático, fora da ordem global, onde uma imaginação transterritorial possibilita a produção de uma utopia efémera. Um lugar temporário que propõe perspetivas críticas. A exposição La Neblina, a primeira individual de Runo Lagomarsino em Portugal, pretende ser exatamente este transterritório onde as ordens geográfica e histórica são colocadas em questão.

Na sua obra, Lagomarsino investiga os modelos geopolíticos e históricos que determinaram a modernidade do ocidente colonizador. Revela essas estruturas com humor fino e perspicaz e sempre com uma ironia mordaz. Através de metáforas, abstrações e ficções, o artista desestabiliza a ideia da história geralmente entendida como um conjunto de narrativas lineares, propondo uma série de obras que questionam a forma como escrevemos e construímos a história, desfazendo o conceito dominante de ordem mundial baseado na dicotomia Norte/Sul.

Cristóvão Colombo e a Europa são duas figuras centrais na exposição. O primeiro terá iniciado uma nova ordem mundial, na qual ainda vivemos, onde o ocidente passa a denominar-se como o centro do mundo. Começamos, assim, a exposição com a representação padronizada de uma das suas Caravelas em papel de parede e terminamos no filme que documenta uma ação levada a cabo pelo artista e pelo seu pai, onde os dois atiram 12 ovos argentinos (transportados ilegalmente) contra a gigante estátua de Colombo erguida em Sevilha para celebrar os 500 anos da “descoberta” da América e o consequente nascimento do novo Homem. No papel de parede encontramos, ainda, a representação de um cavaleiro das cruzadas, fazendo referência a outro processo de “descoberta” do “novo mundo”. Numa grande economia de meios e imagens, representa-se a conquista, a evangelização e o domínio do mundo para Este e para Oeste.

Essa ideia de descoberta é ridicularizada pelo livro La Decouverte de la Terre, cuja capa se encontra carcomida pelo bicho do papel. Uma superfície que se transforma num mapa, desenhado por forças invisíveis e caóticas e que fragilizam a estrutura do próprio livro, ao ponto de, um dia, nada restar.

Em La Neblina, obra que dá título à exposição, encontramos novamente a imagem de um barco a navegar no mar, repetida vezes e vezes. Uma imagem a preto e branco, calma e silenciosa, que contrasta com o pequeno postal de 1947 onde a Europa é apresentada como um barco poderoso que rasga e cavalga o mar.

Americamnesia é uma instalação na qual dois carimbos, um com a palavra America e outro com Amnesia, se sobrepõem e preenchem a parede de forma ordenada, racional e linear. Cada vez que a parede é carimbada é como se ela fosse tatuada, num ato repetitivo, violento e de coerção. Diz o ditado que “aprendemos com a história”, mas toda a exposição, e em particular esta obra, fala-nos de uma recorrente e dominadora amnésia. Instalada em duas paredes face-a-face, esta obra enjaula o espetador confrontando-o com o seu próprio esquecimento, mas não sem nos rirmos, todos, de Cristóvão Colombo.

No artigo da Wikipedia sobre o Museu Pérgamo, o maior museu de Berlim e um dos maiores da Alemanha, a coleção é descrita como “arte e tesouros arqueológicos que eram escavados sob a supervisão alemã”. Arte da Antiguidade Clássica, Oriental e Islâmica constituem os três núcleos da coleção. Runo Lagormarsino pediu ao museu que lhe cedesse as suas lâmpadas fundidas, e em Pergamon dispõe-nas ordenadamente segundo os seus diferentes tamanhos. A lâmpada fundida é apresentada como uma poderosa metáfora sobre o poder invisível do ocidente, que traz até si os tesouros das outras civilizações e que os ilumina para os dar a ver ao mundo dito ‘civilizado’ com a luz, e geografia, corretas.

Apesar da exposição proporcionar um espaço de crítica e de questionamento, as paredes da Galeria Av. da Índia continuam a carregar dentro de si uma geografia (invisível), uma história que ainda permanece presente. Afinal estamos em frente à Torre de Belém, lugar simbólico de onde o Infante D. Henrique partiu na grande aventura dos “Descobrimentos”.

Aviso final à la Lagomarsino: estas páginas não têm imagens, mas contêm uma leitura crítica sobre a geografia e sobre a perpetuação dos mitos euro-centristas.

Biografia

Runo Lagomarsino (1977, Lund, Suécia) vive e trabalha entre Malmö e São Paulo. Os seus trabalhos têm sido incluídos em exposições coletivas como: A Universal History of Infamy, LACMA, Los Angeles (2017); The Restless Earth, Fondazione Trussardi, Milão (2017); Little lower layer, Museum Of Contemporary Art Chicago, Chicago (2017); Really Useful Knowledge, Museo Reina Sofia, Madrid (2015); Under the Same Sun, Guggenheim Museum, Nova Iorque (2014). Lagomarsino participou em: Prospect.4, Nova Orleães (2017); 56ª Biennale di Venezia, (2015); Gothenburg International Biennial (2015); 12ª Bienal de Cuenca (2014); 30ª Bienal de São Paulo (2012); 12ª Bienal de Istambul (2011), entre outras. As suas exposições individuais incluem: No element, however, has the final word in the construction of the future, Mendes Wood DM, São Paulo (2018); We have been called many names, Nils Stærk, Copenhaga (2017); West is everywhere you look, Francesca Minini, Milão (2016); They Watched Us for a Very Long Time, Centro de Arte Contemporânea La Criée, Rennes (2015); This Thing Called The State, Oslo Kunstförening, Oslo (2013); Even Heroes Grow Old, Index, The Swedish Contemporary Art Foundation, Estocolmo (2012).

Filipa Oliveira é curadora e crítica de arte. É desde janeiro de 2018 curadora do Prémio Navigator Art on Paper, e desde de maio 2018 programadora e curadora de Artes Visuais na Câmara Municipal de Almada. Entre janeiro 2015 e dezembro de 2017 foi diretora artística do Fórum Eugénio de Almeida, Évora, onde desenvolveu um programa de exposições, projetos educativos e colaborações institucionais nacionais e internacionais. Trabalhou como curadora independente desde 2002, comissariando várias exposições em instituições como: Centro Cultural de Belém (Lisboa), Kettle’s Yard (Inglaterra), John Hansards Gallery (Inglaterra), Tate Modern (Inglaterra), Fundação Calouste Gulbenkian/Centro de Arte Moderna (Lisboa), Fondation Calouste Gulbenkian (França), Crac Alsace (França), Kunstverein Springhornhof (Alemanha), Mead Gallery (Inglaterra), Frieze Projects (Inglaterra), Museu Berardo (Lisboa), Fundação EDP (Lisboa), entre outras. Foi guest curator em 2009/10 da série de exposições Portuguese Wave no Threshold Artspace, Escócia; curadora assistente na 28ª Bienal de São Paulo em 2010 e em 2012 foi curadora convidada do projeto Satellite no Jeu de Paume, Paris.