Passado

2019

2018

 

Arte em Estado de Guerra

Stefano Serafin
Artistas Stefano Serafin
Curadoria Paula Pinto
Inauguração 07/03/2019 18:00
Data De 08/03/2019 a 26/05/2019
Folha de Sala

As Galerias Municipais / EGEAC inauguram no próximo dia 7 de março, às 18h, na GALERIA AV. DA ÍNDIA, a exposição Arte em Estado de Guerra, de STEFANO SERAFIN com curadoria de Paula Pinto.

A exposição apresenta um conjunto de fotografias de Stefano Serafin (Possagno, Veneto, 1862-1944) que retratam a destruição das esculturas de Antonio Canova (Possagno, Veneto, 1757-1822) durante a Primeira Guerra Mundial.

Após a morte de Antonio Canova em 1822 e o encerramento do seu estúdio romano, cerca de 186 gessos foram transportados para Possagno, a vila natal do escultor. A Gipsoteca Canoviana abriria ao público em 1844 e Stefano Serafin foi nomeado seu conservador a partir de 1891. O acervo dos gessos Canovianos seria brutalmente danificado por uma série de granadas de mão, quando em 1917 a cordilheira dos Alpes se transformou numa das frentes de batalha da Primeira Guerra Mundial. Foi precisamente há cem anos, que o conservador da Gipsoteca Canova, Stefano Serafin, deu início à documentação fotográfica dos gessos e à sua reconstrução.

Depois de ter sido parcialmente comissariada para o Centro Internacional de Artes José de Guimarães em 2017, esta exposição chega agora à Galeria da Avenida da Índia, através das Galerias Municipais/ EGEAC, com um núcleo de 70 novas fotografias, encontradas recentemente em Possagno e agora mostradas pela primeira vez ao público.

Nas palavras da curadora, estas fotografias “representam o limite da destruição a que as obras de arte estão sujeitas. Elas já não representam as esculturas de António Canova. A reconstrução das obras por Stefano Serafin, o conservador da Gipsoteca desde 1891, levou à assunção destes objetos não como artefactos únicos, mas antes enquanto objetos sujeitos a transformações. Invocando as várias fases do processo criativo de Canova que originaram os diversos artefactos em gesso existentes na Gipsoteca de Possagno (Veneto), Serafin reconstruiu a maior parte dos gessos (incluindo calcos e modelos) a partir das correspondentes esculturas em mármore. Ao fazer moldes das obras de mármore para recuperar os gessos, o conservador reverteu a hierarquia de alguns destes objetos, uma vez que transformou alguns dos modelos originais, em cópias. Contudo, estas inversões permitem chamar a atenção para a complexidade dos processos reprodutivos utilizados por Antonio Canova, e que se mantêm omissos na moderna perceção dos objetos de arte enquanto objetos únicos e originais.  Os restauros de Serafin ajudaram a recuperar o domínio da tradição da escultura, anunciadamente perdido no acesso às obras de arte através de reproduções fotográficas. Desconsiderada como reprodução “não-interpretativa”, a fotografia de obras de arte, tal como os calcos de gesso de obras tridimensionais foram ironicamente apropriados pela História da Arte e pelos museus de cópias, precisamente por se tratarem de meios transparentes (“self-effacing”); foi a suposta inexistência de condição visual e até material que permitiu aos objetos reprodutivos serem utilizados como “genuínos”.

Estas imagens que revelam a tortura da guerra e a dedicação com que Stefano Serafin restaurou a beleza neoclássica da arte de Antonio Canova, evidenciam as ruínas através das quais procuramos dar sentido à vida, num desequilíbrio entre a obrigação de reconstruir a memória e a expectativa de que a arte, ao contrário de tudo o resto, sobreviva intacta para sempre.”

 

Esta exposição teve a colaboração de:

FAST – Foto Archivio Storico Trevigiano (Treviso, Itália)

Museo – Istituto per la Storia del Risorgimento Italiano (Roma, Itália)

CIAJG – Centro Internacional de Arte José de Guimarães (Guimarães, Portugal)

Henry Moore Foundation (Hertfordshire, Reino Unido)

Biografia

STEFANO SERAFIN (1862-1944) nasceu em Possagno (Itália) e formou-se na Academia de Belas Artes de Veneza. Tornou-se o conservador da Gipsoteca Canova em 1891. Após o bombardeamento de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, o seu trabalho de restauro permitiu a reabertura do museu em 1922 (centenário da morte de António Canova). Stefano Serafin dedicou a sua vida à preservação e restauro dos gessos de Canova, tendo sido denominado na imprensa de guerra como o “cirurgião de obras de arte”.

Stefano Serafin não era um fotografo profissional e as suas reproduções raramente circularam publicamente. Na ausência de prévia documentação visual e perante a destruição dos gessos por uma granada de mão, Serafin viu-se obrigado a registar o estado da arte. Se o papel da reprodução fotográfica de obras de arte é entendido como uma forma de preservação da imagem de obras de arte que vão desaparecendo com o tempo, os negativos de Serafin documentam, pelo contrário, a ruína dos gessos antes do seu restauro. As fotografias de Serafin não foram realizadas para serem percecionadas depois do restauro dos objetos, mas representam hoje o limite físico do acesso a parte do trabalho original de Antonio Canova e o último testemunho das feridas que, por decisões político-culturais, se tornaram invisíveis.

 

PAULA PARENTE PINTO (Porto, 1971) é licenciada em Artes Plásticas – Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Mestra em Cultura Urbana pela Escola Técnica Superior de Arquitetura da Universidade Politécnica da Catalunha. Especializou a sua área de estudo em História da Fotografia no Programa de Estudos Visuais e Culturais da Universidade de Rochester (NY, USA), onde concluiu o Doutoramento com a tese “Condemned to Invisibility? Antonio Canova and the Impact of Photographic Reproduction on the History of Art” (2016).

Trabalhou como investigadora e produtora de exposições no Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (1998-2000) e no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves (2000-2002).

Fundou e coeditou com Pedro Bandeira e Joaquim Moreno a revista de Cultura Urbana In Si(s)tu (2000-2005). É editora do álbum fotográfico “Ernesto de Sousa: O Meu Corpo é o Teu Corpo” (2014).

Desde 2010 tem trabalhado como investigadora e curadora independente. Destacam-se: “João Dixo (1941‐2012): Exposição Cancelada” no Museu da Vila Velha (Vila Real 2018), “Albuquerque Mendes: Nunca fiz uma exposição de desenhos”, Centro para os Assuntos da Arquitetura e das Artes (Guimarães, 2016), “Ângelo de Sousa: Uma escultura (S.N.B.A.), 1972”, CAAA (Guimarães, 2012). “Ângelo de Sousa [1938‐2011]: Ainda as Esculturas”, Galeria do Teatro Municipal da Guarda (2012), “Grupo Puzzle (1976‐1981): Pintura coletiva = pintura individual”, Centro de Artes e Espetáculos (Figueira da Foz, 2011), entre outras. Na área da fotografia, cocomissariou com Joaquim Moreno a exposição “Carlo Scarpa – Túmulo Brion – Guido Guidi” na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém (2015), comissariou a exposição “Ernesto de Sousa: A mão direita não sabe o que a esquerda anda a fazer” para a XIX Bienal de Cerveira (2017) e cocomissariou com Sofia Castro a exposição “Carlos Nogueira: fotografias de trabalho e outros desenhos”, no Arquivo Municipal de Lisboa (2018). Sob a égide do concurso público “Criatório”, prepara com Joaquim Moreno o levantamento fotográfico de Guido Guidi “Um itinerário entre bairros: viagem aos limites do Porto”, para a Câmara Municipal do Porto.

A exposição “Stefano Serafin: Arte em Estado de Guerra”, foi comissariada para o Centro Internacional de Artes José de Guimarães (2017) e atualmente expandida para a Galeria da Avenida da Índia, onde pode ser vista de terça feira a domingo, das 10h às 13h e das 14h às 18h.

 

ANTONIO CANOVA (1757-1822) nasceu em Possagno (Itália). Escultor neoclássico, a sua obra é conhecida histórica e internacionalmente. Depois de se ter transferido para Roma em 1780 e de aí ter aberto um estúdio no Vicolo dele Colonnette, Canova começou a utilizar um processo escultórico aditivo, ou seja, em vez de esculpir as suas esculturas diretamente em pedra (processo subtrativo), modelava-as primeiro em barro, mas já na sua escala definitiva. Sendo o barro uma matéria orgânica e suscetível de transformações num curto espaço de tempo, Canova realizava moldes de gesso a partir dos modelos de barro que ia finalizando, passando-os de imediato a positivos em gesso. Era a partir destes modelos em gesso, anotados com um mecanismo de cópia – inserção de pontos metálicos na superfície dos modelos de gesso que permitiam a medição e respetiva transferência das distâncias entre diversos pontos – que as suas criações eram transferidas, com a ajuda de colaboradores, para os blocos de mármore. Antonio Canova esculpiu várias estátuas e grupos escultóricos similares em mármore e antes de os enviar para os respetivos colecionadores (dispersos internacionalmente), tirava novos moldes de gesso, desta vez, a partir da pedra. A sistematicidade deste processo, deu origem a uma coleção única de gessos, conservada por Canova num mesmo sítio – o seu estúdio romano –, como um catálogo tridimensional de toda a sua obra. Depois da sua morte, o seu meio-irmão, Gianbattista Sartori Canova, transferiu grande parte desta coleção de gessos para Possagno, a cidade natal de Canova.

A coleção de gessos de Canova foi tornada pública em 1836, passando a representar uma oportunidade excecional para o estudo do processo de trabalho deste escultor, mas acabou por ser brutalmente destruída durante a Primeira Guerra Mundial (1917). A técnica de produção de moldes de gesso generalizou-se no final do século XVIII, com a reprodução de esculturas greco-romanas encontradas em escavações arqueológicas. O seu objetivo era fazer chegar as cópias de baixo custo a coleções e escolas de Belas Artes, mas o recurso a esta técnica não é conhecido no processo criativo de escultores contemporâneos.

 

 

Visita Guiada

AUDIO

 

Para ouvir a apresentação da curadora Paula Pinto e do diretor das Galerias Municipais, Tobi Maier, na inauguração da exposição clique aqui.

Click here and listen to the introduction from the curator Paula Pinto in conversation with the director of the Municipal Galleries Tobi Maier recorded during the opening of the exhibition.

 

 

Visitas Mediadas Gratuitas

Abordagens e Processos na Arte Contemporânea

Escolas – Ensino Secundário e Superior – Atividade adaptável aos 1º, 2º e 3º ciclo

de terça a sexta-feira

Marcação Prévia: servicoeducativo@galeriasmunicipais.pt

 

 

 

 

CORPO FECHADO

Carlos Motta
Artistas Carlos Motta
Curadoria Sara Antónia Matos / Pedro Faro
Inauguração 30/10/2018 18:00
Data De 31/10/2018 a 10/02/2019
Folha de Sala

A EGEAC/Galerias Municipais, na Galeria Avenida da Índia tem o prazer de apresentar Carlos Motta: Corpo Fechado, uma exposição multidisciplinar de Carlos Motta, artista colombiano, residente em Nova Iorque, com curadoria de Pedro Faro e Sara Antónia Matos. Preparada ao longo de quase dois anos, esta exposição implicou Carlos Motta numa extensa investigação por diferentes documentos, fontes, arquivos e instituições portuguesas, incluindo processos da inquisição, visitas a coleções documentais de museus, instituições culturais, etc., procurado, como muitos outros trabalhos do artista, criar narrativas críticas alternativas à História / historiografia oficial. Ao focalizar-se sobre comunidades e identidades com pouca visibilidade,  a obra de Carlos Motta estabelece relações produtivas com histórias de cultura queer e de ativismo e permite a constituição de um produtivo entendimento sobre a oportunidade que as políticas de sexo e de género representam na articulação de posições contra a injustiça social e política dominante. Em Corpo Fechado, Carlos Motta desenvolve uma série de questões que já vem trabalhando desde a sua Trilogia Nefandus, e ressaltando, mais uma vez, a necessidade interseccional de formar uma perspetiva histórica queer com questões coloniais subjacentes.

Carlos Motta: Corpo Fechado apresenta trabalhos em filme, fotografia e escultura que estabelecem um diálogo com as histórias da expansão colonial portuguesa e espanhola nas Américas, entre o século XV e o século XVIII, focando-se nas formas como estes dois impérios, operando em conjunto com a Igreja Católica, propagaram conceitos repressivos da sodomia e do homoerotismo a partir de rígidas perspetivas legais e morais. As obras expostas abordam também histórias da escravatura ao interpretarem dois julgamentos por feitiçaria pela Inquisição de Lisboa e a sua profunda rejeição do sincretismo religioso e dos rituais africanos. Carlos Motta: Corpo Fechado analisa os modos como as subjetividades coloniais intersectoriais se formaram a partir da experiência da violência institucional corretiva. Através do olhar sobre arquivos históricos, a exposição contesta o poder da Igreja Católica na promoção de um modelo teológico único e na criação de formas e linguagens de opressão sexual que aquela perpetuou.

A peça central da exposição é o filme recentemente encomendado ao artista Corpo Fechado — The Devil’s Work (2018), um poema fílmico de 25 minutos que conta a história de José Francisco Pereira, interpretado pelo ator angolano Paulo Pascoal, um escravo de Judá, Costa da Mina, que foi julgado em 1731 pela Inquisição de Lisboa por feitiçaria e sodomia. Motta adaptou o julgamento de Pereira interligando-o com passagens da «Carta 31: O Livro de Gomorra» (1049), na qual o seu autor, São Pedro Damião, condena fervorosamente a sodomia como pecado imperdoável, e as elucidações icónicas de Walter Benjamin sobre o historicismo e o progresso em «Teses sobre a Filosofia da História» (1940). O filme revisita a figura moral e legalmente condenada do sodomita enquanto violenta construção histórica e expressão do patriarcado eclesiástico, institucional e colonial.

Corpo Fechado: Retrato de José Francisco Pedroso com a sua «bolsa de mandinga» (2018), um retrato fotográfico em quatro partes realizado em estreita colaboração com o ator luso-guineense Welket Bungué, aborda a história de José Francisco Pedroso, um companheiro de Pereira, usando uma das suas «bolsas de mandinga», amuletos rituais que o escravo fabricava e distribuía para proteger os outros escravos de lesões, razão pela qual foi acusado e julgado por feitiçaria pela Inquisição de Lisboa.

O tópico do sincretismo e ritual religiosos é também discutido nas esculturas Corpo Fechado: Exú (2018) e Sincretismo (2018), duas assemblagens de objetos ready- made que criticam a frequente representação das divindades e práticas religiosas africanas, pela imaginação católica, como exóticas, eróticas e demoníacas. Estas obras contrastam artefactos religiosos católicos e africanos, dando a ver os efeitos subtis que a imposição de uma única fé produziu no desenvolvimento de diferentes práticas espirituais durante a era colonial.

Lisboa e os Descobrimentos (2018) apresenta um tríptico fotográfico de pequenos monumentos em pedra semi-submersos em água, representando três exploradores portugueses que estiveram envolvidos na expansão imperial (Infante D. Henrique, Infante D. Pedro e Vasco da Gama), e um díptico fotográfico que mostra um monge católico e um explorador que jogam xadrez diante de um mapa das rotas navais do Império Português, ao lado de uma paisagem de terra «virgem». Estas séries, em conjunto com dois objetos históricos, o tabuleiro de xadrez Descobrimentos (1989), de Alberto Cutileiro, e a grande Esfera Armilar (1946) em ferro, emprestados, respetivamente, pelo Museu de Marinha e o Museu de Lisboa, põem a descoberto as narrativas, frequentemente indisputadas, de historicidade, força e durabilidade inscritas pela ubiquidade dos memoriais institucionais à descoberta dos «novos» territórios.

Dois fotogramas icónicos retirados dos filmes de Motta, Um Portal Estreito através do qual Deus Pode Entrar (2018) e A Obra do Diabo (2018), acham-se instalados dentro e fora da galeria, enquanto mural e outdoor, respetivamente, ilustrando duas interações íntimas entre as personagens dos filmes, o Monge e José Francisco Pereira. O primeiro ilustra uma proximidade entre as figuras que poderá ser interpretada como um encontro erótico, ou como um ato de devoração institucional, e o segundo mostra o escravo amparado pelo Monge diante de uma cruz, emulando a representação religiosa canónica da Pietá.

A exposição apresenta ainda a obra bem conhecida de Carlos Motta Trilogia Nefandus (2013), o primeiro dos trabalhos do artista tendo como tema as histórias homoeróticas pré-hispânicas e coloniais. Estes filmes procuram expor, revelar e documentar a imposição pela força das categorias epistemológicas europeias sobre as populações indígenas das Américas. Nefandus (13 min.), Naufrágios (12 min.) e A Visão dos Vencidos (7 min.) discutem o modo como a sexualidade é uma construção cultural com origens muito específicas, baseada em discursos morais e legais sobre o pecado e o crime.

Todos os trabalhos que constituem a exposição Carlos Motta: Corpo Fechado revisitam o passado a fim de reconsiderarem a genealogia das condições de opressão que as minorias sexuais e de género continuam a enfrentar hoje em dia. Através de uma investigação aprofundada e da articulação de leituras alternativas da história e das suas narrativas centrais, a exposição desafia a autoridade e o patriarcado institucionais e propõe uma ideia de «progresso» que passa pela dissidência crítica.

Por ocasião da exposição, as Galerias Municipais irão editar um catálogo, a ser lançado oportunamente, com textos dos curadores, de Denise Ferreira da Silva e de Miguel Vale de Almeida.

Biografia

A obra de Carlos Motta (n. 1978, Colômbia) foi objeto da exposição antológica Carlos Motta: Formas de libertad, no Museo de Arte Moderno de Medellín, Colômbia (2017), posteriormente exibida no Matucana 100, Santiago, Chile (2018). Entre as suas exposições individuais em museus internacionais, incluem-se The Crossing (2017), Stedelijk Museum, Amesterdão; Histories for the Future (2016), Pérez Art Museum (PAMM), Miami; Réquiem (2016), MALBA— Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (2016); For Democracy There Must Be Love (2015), Röda Sten Konsthall, Gotemburgo; Pariots, Citizens, Lovers (2015), PinchukArtCentre, Kiev; Gender Talents (2013), Tate Modern, Londres; La forma de la libertad (2013), Sala de Arte Público Siqueiros, México; We Who Feel Differently (2012), New Museum, Nova Iorque; Brief History (2009), MoMA/PS1, Nova Iorque; e The Good Life (2008), Institute of Contemporary Art, Filadélfia; entre outras. Motta participou em Incerteza Viva: 32ª Bienal de São Paulo (2016); Burning Down the House: 10ª Gwangju Biennale (2014); e Le spectacle du quotidian: 10ª Biennale de Lyon (2010). Os seus filmes foram exibidos no Rotterdam Film Festival (2016, 2010); Toronto International Film Festival (2013); e Internationale Kurzfilmtage Winterthur (2016); entre muitos outros. Motta recebeu o Prize for Creative Promise (2017) da Vilcek Foundation; Future Generation Art Prize (2014) do PinchukArtCentre; e uma bolsa Guggenheim Fellowship (2008).

O trabalho de Carlos Motta está representado nas coleções permanentes do The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque; The Museum of Modern Art, Nova Iorque; Guggenheim Museum, Nova Iorque; Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Madrid; Museo de Arte Contemporaneo de Barcelona; Museu da Fundação de Serralves, Porto; e Museo de Arte del Banco de la República, Bogotá; entre muitas outras coleções institucionais, de empresas e privadas por todo o mundo.

Visita Guiada

Visita Guiada ao Sábado
8, 15, 22 e 29 Dezembro / 5, 12, 19 e 26 Janeiro / 2 e 9 Fevereiro
15h30 às 16h30

Público Geral
Gratuita

Visitas Guiadas Escolas
Ensino Secundário e Ensino Superior
de terça a sexta-feira
Marcação Prévia: serviçoeducativo@galeriasmunicipais.pt

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La Neblina

Runo Logomarsino
Artistas Runo Lagomarsino
Curadoria Filipa Oliveira
Data De 06/07/2018 a 23/09/2018
Folha de Sala

Podemos pensar numa exposição como um território. Um território de transição onde são propostas novas possibilidades de restruturação social, económica, política e mesmo histórica. Um espaço singular, assistemático, fora da ordem global, onde uma imaginação transterritorial possibilita a produção de uma utopia efémera. Um lugar temporário que propõe perspetivas críticas. A exposição La Neblina, a primeira individual de Runo Lagomarsino em Portugal, pretende ser exatamente este transterritório onde as ordens geográfica e histórica são colocadas em questão.

Na sua obra, Lagomarsino investiga os modelos geopolíticos e históricos que determinaram a modernidade do ocidente colonizador. Revela essas estruturas com humor fino e perspicaz e sempre com uma ironia mordaz. Através de metáforas, abstrações e ficções, o artista desestabiliza a ideia da história geralmente entendida como um conjunto de narrativas lineares, propondo uma série de obras que questionam a forma como escrevemos e construímos a história, desfazendo o conceito dominante de ordem mundial baseado na dicotomia Norte/Sul.

Cristóvão Colombo e a Europa são duas figuras centrais na exposição. O primeiro terá iniciado uma nova ordem mundial, na qual ainda vivemos, onde o ocidente passa a denominar-se como o centro do mundo. Começamos, assim, a exposição com a representação padronizada de uma das suas Caravelas em papel de parede e terminamos no filme que documenta uma ação levada a cabo pelo artista e pelo seu pai, onde os dois atiram 12 ovos argentinos (transportados ilegalmente) contra a gigante estátua de Colombo erguida em Sevilha para celebrar os 500 anos da “descoberta” da América e o consequente nascimento do novo Homem. No papel de parede encontramos, ainda, a representação de um cavaleiro das cruzadas, fazendo referência a outro processo de “descoberta” do “novo mundo”. Numa grande economia de meios e imagens, representa-se a conquista, a evangelização e o domínio do mundo para Este e para Oeste.

Essa ideia de descoberta é ridicularizada pelo livro La Decouverte de la Terre, cuja capa se encontra carcomida pelo bicho do papel. Uma superfície que se transforma num mapa, desenhado por forças invisíveis e caóticas e que fragilizam a estrutura do próprio livro, ao ponto de, um dia, nada restar.

Em La Neblina, obra que dá título à exposição, encontramos novamente a imagem de um barco a navegar no mar, repetida vezes e vezes. Uma imagem a preto e branco, calma e silenciosa, que contrasta com o pequeno postal de 1947 onde a Europa é apresentada como um barco poderoso que rasga e cavalga o mar.

Americamnesia é uma instalação na qual dois carimbos, um com a palavra America e outro com Amnesia, se sobrepõem e preenchem a parede de forma ordenada, racional e linear. Cada vez que a parede é carimbada é como se ela fosse tatuada, num ato repetitivo, violento e de coerção. Diz o ditado que “aprendemos com a história”, mas toda a exposição, e em particular esta obra, fala-nos de uma recorrente e dominadora amnésia. Instalada em duas paredes face-a-face, esta obra enjaula o espetador confrontando-o com o seu próprio esquecimento, mas não sem nos rirmos, todos, de Cristóvão Colombo.

No artigo da Wikipedia sobre o Museu Pérgamo, o maior museu de Berlim e um dos maiores da Alemanha, a coleção é descrita como “arte e tesouros arqueológicos que eram escavados sob a supervisão alemã”. Arte da Antiguidade Clássica, Oriental e Islâmica constituem os três núcleos da coleção. Runo Lagormarsino pediu ao museu que lhe cedesse as suas lâmpadas fundidas, e em Pergamon dispõe-nas ordenadamente segundo os seus diferentes tamanhos. A lâmpada fundida é apresentada como uma poderosa metáfora sobre o poder invisível do ocidente, que traz até si os tesouros das outras civilizações e que os ilumina para os dar a ver ao mundo dito ‘civilizado’ com a luz, e geografia, corretas.

Apesar da exposição proporcionar um espaço de crítica e de questionamento, as paredes da Galeria Av. da Índia continuam a carregar dentro de si uma geografia (invisível), uma história que ainda permanece presente. Afinal estamos em frente à Torre de Belém, lugar simbólico de onde o Infante D. Henrique partiu na grande aventura dos “Descobrimentos”.

Aviso final à la Lagomarsino: estas páginas não têm imagens, mas contêm uma leitura crítica sobre a geografia e sobre a perpetuação dos mitos euro-centristas.

Biografia

Runo Lagomarsino (1977, Lund, Suécia) vive e trabalha entre Malmö e São Paulo. Os seus trabalhos têm sido incluídos em exposições coletivas como: A Universal History of Infamy, LACMA, Los Angeles (2017); The Restless Earth, Fondazione Trussardi, Milão (2017); Little lower layer, Museum Of Contemporary Art Chicago, Chicago (2017); Really Useful Knowledge, Museo Reina Sofia, Madrid (2015); Under the Same Sun, Guggenheim Museum, Nova Iorque (2014). Lagomarsino participou em: Prospect.4, Nova Orleães (2017); 56ª Biennale di Venezia, (2015); Gothenburg International Biennial (2015); 12ª Bienal de Cuenca (2014); 30ª Bienal de São Paulo (2012); 12ª Bienal de Istambul (2011), entre outras. As suas exposições individuais incluem: No element, however, has the final word in the construction of the future, Mendes Wood DM, São Paulo (2018); We have been called many names, Nils Stærk, Copenhaga (2017); West is everywhere you look, Francesca Minini, Milão (2016); They Watched Us for a Very Long Time, Centro de Arte Contemporânea La Criée, Rennes (2015); This Thing Called The State, Oslo Kunstförening, Oslo (2013); Even Heroes Grow Old, Index, The Swedish Contemporary Art Foundation, Estocolmo (2012).

Filipa Oliveira é curadora e crítica de arte. É desde janeiro de 2018 curadora do Prémio Navigator Art on Paper, e desde de maio 2018 programadora e curadora de Artes Visuais na Câmara Municipal de Almada. Entre janeiro 2015 e dezembro de 2017 foi diretora artística do Fórum Eugénio de Almeida, Évora, onde desenvolveu um programa de exposições, projetos educativos e colaborações institucionais nacionais e internacionais. Trabalhou como curadora independente desde 2002, comissariando várias exposições em instituições como: Centro Cultural de Belém (Lisboa), Kettle’s Yard (Inglaterra), John Hansards Gallery (Inglaterra), Tate Modern (Inglaterra), Fundação Calouste Gulbenkian/Centro de Arte Moderna (Lisboa), Fondation Calouste Gulbenkian (França), Crac Alsace (França), Kunstverein Springhornhof (Alemanha), Mead Gallery (Inglaterra), Frieze Projects (Inglaterra), Museu Berardo (Lisboa), Fundação EDP (Lisboa), entre outras. Foi guest curator em 2009/10 da série de exposições Portuguese Wave no Threshold Artspace, Escócia; curadora assistente na 28ª Bienal de São Paulo em 2010 e em 2012 foi curadora convidada do projeto Satellite no Jeu de Paume, Paris.