Conversa / Palestra

Conversa

Marta Frade e Paula Pinto
Conservadora da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa Marta Frade
Curadora da exposição Paula Pinto
Data 2019-05-11 às 16:00
Sinopse

A curadora PAULA PINTO convida a conservadora da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, MARTA FRADE, para uma conversa a propósito da exposição “Arte em Estado de Guerra, de Stefano Serafin”, sobre a necessidade de restaurar as obras de arte e o consequente apagamento das respetivas memórias e/ou historiografias.

Após o bombardeamento da Gipsoteca Canova durante a Primeira Guerra Mundial (1917) e antes de dar início ao processo de restauro das obras do museu, o conservador Stefano Serafin (Possagno, Veneto, 1862-1944) registou fotograficamente a destruição dos gessos neoclássicos de Antonio Canova (Possagno, 1757-1822). Embora as fotografias documentais sejam geralmente considerada como um meio de preservação da destruição das obras de arte, as fotografias de Serafin já não são representativas das respetivas esculturas. As fotografias de Stefano Serafin representam o limite da destruição a que os gessos de Antonio Canova foram sujeitos. Tal como no retrato de Dorian Gray, elas mostram a devastação dos gessos enquanto estes mantêm a sua aparência “original” através de sucessivos restauros.
Representantes do paralelismo entre processo produtivo e reprodutivo na obra do escultor neoclássico, mas também testemunhos das políticas culturais dos últimos dois séculos e das atrocidades da Primeira Guerra Mundial, estes gessos foram e continuam a ser restaurados à luz de critérios mecânicos (ou não interpretativos), o último dos quais a tecnologia 3D. Embora a ideia de facsimile seja primordial para o entendimento da tecnologia reprodutiva em gesso, os restauros de Serafin provaram identificar melhor os processos transformativos pelos quais estas obras de arte passaram. Efetivamente, Canova explorou as técnicas reprodutivas do gesso utilizadas por copistas romanos no final do séc.XVIII, mas fê-lo com o intuito de produzir obras de arte originais. Não obstante, a reconstrução dos modelos originais de Canova implicou, pelo contrário, a transformação de obras originais em cópias.

Desconsiderada como “não-interpretativa”, a fotografia reprodutiva de obras de arte, tal como os calcos de gesso de obras tridimensionais foram ironicamente apropriados pela História da Arte e pelos museus de cópias (bem como pelas Academias de Belas Artes), precisamente por se tratarem de meios transparentes (“self-effacing”). Foi a suposta inexistência de condição visual e até material que permitiu aos objetos reprodutivos serem utilizados como “genuínos”. Foi contudo a invisibilidade da historiografia e o apagamento da memória que inversamente os acabaria por condenar ao desaparecimento.

Não tendo prevalecido a ideia de preservação material da memória, as fotografias de Serafin acabam por se tornar num testemunho da historiografia que continuamente vai sendo apagada nas obras. Como consequência do seu valor documental, o museu tem condenado estas fotografias à invisibilidade.

Biografias:
MARTA FRADE iniciou a sua formação na Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra (EPRPS) em 1997, onde despertou o seu interesse pelo património executado em gesso. Considerado como arte menor revelou-se na matéria com máxima importância no seu estudo académico. Concluiu o Bacharelato em Conservação e Restauro no Instituto Politécnico de Tomar em 2003 e a Licenciatura, na mesma área em 2005. Desde 2007 que leciona na EPRPS e desde 2011 que leciona como Assistente Convidada da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Em 2018 conclui o seu Doutoramento dedicado à área da Conservação e Restauro de Escultura em gesso – Valorização, Metodologia e Ensino.

PAULA PARENTE PINTO concluiu o seu Doutoramento na Universidade de Rochester (NY, USA), com a tese “Condemned to Invisibility? Antonio Canova and the Impact of Photographic Reproduction on the History of Art” (2016). Desde 2010 tem trabalhado como investigadora e curadora independente. Na área da fotografia cocomissariou, com Joaquim Moreno, a exposição “Carlo Scarpa – Túmulo Brion – Guido Guidi” na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém (2015), comissariou a exposição “Ernesto de Sousa: A mão direita não sabe o que a esquerda anda a fazer” para a XIX Bienal de Cerveira (2017) e cocomissariou com Sofia Castro a exposição “Carlos Nogueira: fotografias de trabalho e outros desenhos”, no Arquivo Municipal de Lisboa (2018). A exposição “Stefano Serafin: Arte em Estado de Guerra”, foi comissariada para o Centro Internacional de Artes José de Guimarães (2017) e atualmente expandida para a Galeria da Avenida da Índia.