Conversa em torno da exposição “Topografias Rurais” – Parte II/II

Claire de Santa Coloma e Catarina Rosendo

Galeria Quadrum, 11 de janeiro de 2020

[Tobi]
As obras muitas vezes aparecem sem título e, nesse sentido, pergunto se você se deixa também guiar pela materialidade da madeira até à forma que a obra eventualmente tomar.

[Claire]
Sim.

[Tobi]
A obra que apresentamos no pedestal (Sem título, 2017) remete para Trajecto de um corpo (1976-77), na exposição individual de Alberto Carneiro na Galeria Quadrum em 1977. Mas não só.

[Claire]
Aquela explica-se muito bem: o tronco tinha uma racha muito grande e o que eu fiz foi integrar a racha dentro da forma; depois tinha um buraco feito por um bicho e eu integrei aquele buraco. Lembro-me de uma altura, quando a estava a fazer, sentir esse medo de fazer uma escultura fálica. E nesse momento disse: “Vou lá, não interessa, este pedaço me está a pedir, esta racha, este buraco, vou fazer e pronto, que seja, não é a minha responsabilidade, estou só a seguir”.

[Catarina]
A madeira oferece-te a forma.

[Claire]
Mas no final tenho sempre um aspeto de escultura abstrata, uma forma sintética, digamos. E geralmente aí vou ao encontro de Brancusi. Este ovo, as formas assim mais cheias, são as que procuro. São mais cheias porque tenho de tirar a menor quantidade possível de madeira, e então acabam sendo formas mais ovoides. Aquele foi o início do meu caminho pela sensualidade, digamos.

[Catarina]
Às vezes, no trabalho da madeira há uma sensualidade implícita pelas próprias qualidades que a madeira tem. É uma matéria inerte, mas simultaneamente quente, tátil – consoante as superfícies são trabalhadas, ela pode ser mais apelativa ou não. Nos teus trabalhos nos últimos tempos, trabalhas as superfícies de modo a elas ficarem lisas e táteis, podendo deste modo captar melhor a luz. Eu gostava de perceber como é que funciona a tua relação com essa dimensão erótica e sensual que às vezes a tua escultura tem. Há um texto muito conhecido do Georges Bataille em que ele refere que o erotismo é aquilo que nos liga ao que está fora de nós. É essa pulsão que existe sempre e que é inerente a todos os humanos, de querer ultrapassar a distância inultrapassável que existe entre nós e as coisas e os outros. No caso do Alberto Carneiro é muito óbvia essa ligação muito sensual à matéria, porque há ali um trânsito de energias que ele gostava muito; gostava, numa forma muito imaginária e simbólica, de se fundir com a própria matéria. Qual é a relação que estabeleces com essa dimensão mais sensual e erótica?

[Claire]
No meu trabalho, namorar com o erotismo ou com a sensualidade começou com aquela peça e com a outra que depois podem ver (está ali no meu atelier). Era um tronco e eu tirei o mínimo e indispensável; acabou sendo como uma curgete enorme ou o que vocês quiserem. Fazer arte, fazer obras, é uma pulsão de vida – e uma pulsão de vida, no fundo, também é sexo. São coisas primitivas e complexas. Acho que está inerente, que há um desejo ligado à obra de arte na experiência e eu sempre estou a defender a ideia de prazer no fazer e na experiência da obra.

[Catarina]
É um ato de resistência também.

[Claire]
Nunca sei qual vai ser o resultado, nunca. Eu vou fazendo e vai acontecendo, e depois vemos o que fazemos com aquilo que eu fiz.

[Tobi]
E o espectador pode interagir com essas sensibilidades fisicamente?

[Claire]
Sim, claro. Que o espectador toque ou não toque, no fundo, é um pouco mais irrelevante; o que me interessa é que o espectador sinta, que lhe surja quase a necessidade de querer tocar. Depois se o espectador toca ou não, é com ele, mas quero conseguir suscitar aquele desejo. Interessa-me ligar o desejo com a obra.

[Tobi]
Achei interessante a analogia entre as suas obras em papel de 2009 e os desenhos a lápis do Alberto Carneiro criados no final da sua carreira, por volta de 2015. Essas árvores, esses labirintos, são pouco conhecidos. Você pensa neles como desenhos preparatórios ou são obras independentes? Como se ligam as obras em papel com as esculturas?

[Claire]
Os desenhos nasceram da crise. Quando eu estava em Madrid, durante 2 anos tive uma crise com a escultura: o facto de fazer escultura e trazer mais objetos ao mundo não tinha sentido. Os meus desenhos são um pouco como as minhas esculturas: são abstratos. O que me interessava era fazer só um ponto ou uma linha que já podiam ser um desenho. Eram desenhos um pouco meditativos, abstrações de paisagens ou árvores. Já há uns anos que não faço, mas não eram desenhos preparatórios – os meus desenhos preparatórios sempre são eu a desenhar as minhas esculturas, são desenhos mais figurativos.

[Tobi]
Enquanto os desenhos preparatórios não são considerados obra.

[Claire]
Não, ainda não.

[Tobi]
Catarina, você que acompanhou o Alberto nessa época em que ele estava produzindo uma vasta quantidade de desenhos, se lembra como foram esses momentos em que o Alberto deixou de esculpir, de trabalhar a madeira?

[Catarina]
De forma muito pragmática, nos últimos anos da vida e por causa da doença que o acometeu, o Alberto teve de deixar de esculpir. Parte desses desenhos recentes estão expostos na Galeria Diferença. O Alberto sempre desenhou e a sua primeira exposição individual, em 1967, no Porto, incluiu desenhos, tal como muitas, se não todas, as suas exposições individuais. Aqui na Galeria Quadrum, onde o Alberto expôs várias vezes nos anos 70, mostrou umas das suas séries mais interessantes de desenho. Portanto, ele produziu muito desenho, sempre autónomo da escultura. Há alguns desenhos que são projetos para fazer instalações, outros que são instruções detalhadas para algumas esculturas suas, mas de resto tratou-se sempre de um desenho independente da escultura. Eu dizia-lhe a brincar que os desenhos dele eram surrealistas, o que à primeira vista é um pouco surpreendente, mas a verdade é que o seu processo de trabalho, no desenho, era todo proveniente das entranhas. Ele foi professor de desenho na atual Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e a grande ideia subjacente à maneira como ele ensinou desenho aos futuros arquitetos era justamente essa: o desenho como algo que reflita a experiência vivida, que reflita a maneira como nós estamos no mundo e nos relacionamos com as coisas, com os espaços. Os desenhos do Alberto partem das sensações mais fugazes, dos sentimentos mais díspares, dos sabores, das cores, do que quer que seja, e transformam-se em forma. Acontece o mesmo com estes mais recentes: são desenhos que misturam vários planos e não sabemos se estamos a olhar para coisas figurativas, se estamos a olhar para árvores, para nuvens, para rochas, para relevos de horizonte, para terra, para relvinhas, para frutos. É tudo isso ao mesmo tempo.

[Tobi]
E o performativo? Ele se considerou também como um performer? Eu estava pensando mais sobre isso em relação a Operação Estética em Vilar do Paraíso (1973). Esse momento de ação está também muito presente quando visito a Claire. Nesse sentido, a exposição na Galeria Quadrum é mais sobre esses atos performáticos, movimentais, relacionais. Também na Ana Lupas, que trabalhou com comunidades, algo que não está muito explícito quando se fala das obras em si destes artistas.

[Catarina]
Tanto no caso da Claire como no caso do Alberto, a ideia de um corpo performativo que dá origem àquelas obras é muito percetível. Acho que o espectador percebe isso ou, se não percebe ou se não consegue conceptualizar esta ideia, acho que a sente.

[Claire]
Porque existe o traço da ferramenta.

[Catarina]
Eu vi as ferramentas da Claire em Coimbra, há 2 anos, e vejo as ferramentas que existem ainda hoje no atelier do Alberto. Há este lado também muito interessante de ver as ferramentas com as quais os artistas trabalham e, por mais que nós sejamos todos contemporâneos e pós-medium, persiste uma associação da escultura à criação de formas. Podemos pensar em escopos e goivas, sim, mas vamos acrescentar serras elétricas, rebarbadoras, lixas elétricas. Trabalho pesado, na verdade. Portanto, há uma performatividade do corpo, claro que sim. Eu acho que ela é sugerida nesta escultura do Alberto, as Metáforas da água ou as naus a haver por mares nunca de antes navegados (1993-1994) e teve um momento muito importante em trabalhos como a Operação Estética em Vilar do Paraíso (1973) porque, aí, é manifesta a presença de um corpo que cria a obra. Nunca ouvi o Alberto dizer que era um performer, nem acho que ele alguma vez se tenha entendido como tal. Tratava-se antes de uma relação muito física dele próprio com a matéria, que é sobretudo evidente em outras séries fotográficas dos anos 70, em que o Alberto surge nu abraçado a árvores ou submerso num ribeiro, rodeado de água e rochas.

[Claire]
E a escolha de mostrar o seu corpo na obra.

[Catarina]
Sim, o corpo faz parte da obra.

[Claire]
A sua ação. Ele está sempre a querer mostrar que há ali uma ação por parte dele.

[Catarina]
No caso do Trajecto dum corpo (1976-77), por exemplo, do qual aquela fotografia ali faz parte. A pedra que ali é mostrada está perfurada no meio pelo próprio Alberto. É um grande seixo encontrado na praia onde o Alberto ia desde a infância. Ele fez uma ação performativa com aquela pedra, percorrendo com ela várias paisagens que lhe eram caras e às quais estava ligado por várias memórias. A seguir, expôs a pedra aqui na Galeria Quadrum – aquela fotografia é a vista da exposição, que consistiu unicamente na pedra pousada no chão. Quando a exposição terminou, o Alberto percorreu mais umas quantas paisagens com a mesma pedra, até que a deixou na Serra de Fafe, metida no meio de umas grandes rochas, e ela ficou lá até desaparecer. A obra que hoje existe, e que pertence à Fundação de Serralves, é constituída por várias fotografias que registam o que acabei de descrever. A obra não é a pedra, mas o registo fotográfico e a montagem de imagens que o Alberto fez no seu atelier. Vale a pena referir uma coisa: apesar desta componente performativa das obras do Alberto, eu não diria que elas resultam de performances, porque o sentido clássico do termo implica um público, uma audiência, um “ao vivo”, um corpo a corpo, um “estou aqui com uma audiência” que reage ao que estou a fazer. Neste caso nunca houve; o que há são esta espécie de rituais de um corpo com a paisagem e com as matérias naturais.

[A transcrição da conversa foi escrita segundo o novo acordo ortográfico.]

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Data
Título
Autor
20.04.2020
Conversa em torno da exposição “Topografias Rurais” – Parte I/II
Claire de Santa Coloma e Catarina Rosendo

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Data
Título
Artistas
Curadoria
Galeria
08.12.2019
– 23.02.2020
Topografias Rurais
Alberto Carneiro, Ana Lupas, Lala Meredith-Vula, Claire de Santa Coloma
Tobi Maier
Galeria Quadrum