Passado

2019

2018

 

 

Murro no Estômago

Artistas Ana Rebordão, António Neves Nobre, Carla Filipe, Igor Jesus, Pedro Barateiro, Salomé Lamas
Curadoria Ana Cristina Cachola
Inauguração 07/02/2019 18:00
Data De 08/02/2019 a 21/04/2019
Folha de Sala

As Galerias Municipais/EGEAC apresentam Murro no Estômago, uma exposição com curadoria de Ana Cristina Cachola, que inaugura no próximo dia 7 de fevereiro, às 18h, na Galeria Boavista.

A Galeria da Boavista é um espaço para apresentação de propostas disciplinares com informalidade vincada. É vocacionada para exposições concebidas por jovens curadores ou para a mostra de artistas emergentes, sem percurso ainda estabelecido ou reconhecido no meio, que aí testam as suas primeiras apresentações ao público e realizam as primeiras publicações.

A exposição Murro no Estômago resulta de um conjunto de encontros entre a curadora, Ana Cristina Cachola, e os artistas Ana Rebordão, António Neves Nobre, Carla Filipe, Igor Jesus, Pedro Barateiro e Salomé Lamas, entre outras pessoas, obras, autores, textos, palavras.

Nas palavras da curadora, “a expressão murro no estômago multiplica-se em usos diferenciados, situações diversas e detém uma significação pessoal (dependendo até se já se levou ou não um murro no estômago e que tipo de murro foi esse), mas faz também parte de um léxico colectivo, podendo entrar facilmente em qualquer jogo de linguagem (desde que em português). Na sua acepção geral, murro no estômago remete para uma situação inesperada, muitas vezes dolorosa ou paralisante. Rude, brejeira, vernácula, poética, metafórica, violenta, agressiva. Esta corrente de adjectivos é ainda curta para a amplitude de significados que a expressão murro no estômago pode ter, no quadro semântico e pragmático da linguagem, e também no âmbito desta exposição na Galeria da Boavista.  Se por motivos heurísticos ou de economia discursiva fosse necessário escolher uma palavra para descrever quando uma obra de arte dá um murro no estômago, essa palavra seria ruptura.

A ruptura derivada desse murro no estômago acontece quando uma obra invade o sujeito e o confunde pela resistência simbólica a essa invasão: é esta intromissão na subjectividade que provoca uma espécie de momento traumático, ou seja, uma experiência indizível, visceral, muitas vezes pré-cognitiva. Na maior parte dos casos não lhe (re)conhecemos causa consciente ou racional, só efeito. É esse efeito intrusivo da obra de arte no espectador (que é sempre corpo que espera alguma coisa) – logo no meu corpo -, essa interpelação agressiva e inesperada, que se reconhece nos trabalhos aqui apresentados. Claro que as obras de Ana Rebordão, António Neves Nobre, Carla Filipe, Igor Jesus, Pedro Barateiro e Salomé Lamas que compõem esta exposição nos (aliás, me) acometem de modos diferentes, compósitos e complexos, convocando individualmente e no seu conjunto ora o excesso sensorial, ora a falência porque ainda persistência tanto de meta-narrativas como de taxonomias objectuais e ainda a expressão do visual pelo visual na ausência de referenciais directos.“

A exposição pode ser vista de terça a domingo das 10h às 13h e das 14h às 18h.

Biografia

(não disponível)

Visita Guiada

Visitas Guiadas – Escolas

terça a sexta-feira

Marcação Prévia: servicoeducativo@galeriasmunicipais.pt

 

Visitas Guiadas – Público Geral

9, 16 e 23 fev

2, 9, 16, 23 e 30 março

6, 13 e 20 abril

15h30 às 16h30

 

Almost Blue

Maria Trabulo
Artistas Maria Trabulo
Curadoria Sara Antónia Matos / Pedro Faro
Data De 26/10/2018 a 06/01/2019
Folha de Sala

As Galerias Municipais apresentam “Almost Blue”, exposição individual de Maria Trabulo, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, na Galeria da Boavista, continuando, neste espaço, um ciclo de várias exposições individuais de artistas emergentes no contexto da arte contemporânea portuguesa que se iniciou com João Gabriel, Alice dos Reis, e que continuará com Mariana Caló e Francisco Queimadela (Janeiro – Março 2019), Sara Chang Yan (Junho – Setembro 2019) e Adriana Proganó (Setembro – Dezembro 2019).

Mais do que uma canção de Chet Baker que Maria Trabulo ouviu infinitamente no decorrer do final de 2016, enquanto experimentava, no seu ateliê em Viena, as possibilidades de pintar com água do mar sobre tecido, Almost Blue, ou “quase azul” ou “fast Blau”, tem sido uma resposta recorrente quando a artista interroga diferentes pessoas acerca da cor do mar.

Nas palavras da artista, “Almost Blue” desenrola-se em torno de uma possibilidade de definição da cor do mar, não buscando necessariamente uma conclusão definitiva mas exclamando precisamente as suas diferenças e contrariedades a um consenso universal. Ir além do azul é pedir aos inquiridos que definam o mar para além da sua aparência formal, procurando alcançar a experiência pessoal de cada um com o mar o ou oceano, e deste modo, assuntos e acontecimentos do foro político e social da história e geopolítica mundial dos nossos dias. A acção, ou ponto de partida, de Maria Trabulo situa-se, assim, em zonas costeiras, onde hajam – por via das fragilidades dos limites estabelecidos – pontos de partida e chegada, fricções políticas e sociais, ou seja, zonas de contacto ou fricção, que servem como dispositivo à artista para criar novas formas de ver e de pensar as relações entre as pessoas e entre as pessoas e o território.

“Almost Blue” mostra-nos várias obras escultóricas, quase todas inéditas, que surgem de uma extensa investigação e trabalho de Maria Trabulo, realizada desde 2014, sobre uma possibilidade de definição do mar, elaborada a partir de contextos políticos tão diversos como as trágicas migrações no Mediterrâneo, a crise financeira dos últimos anos nos países do Sul da Europa, ou as mais recentes lutas activistas em torno das questões ambientais subjacentes à exploração de petróleo no território marítimo português, nomeadamente na zona de Aljezur.

ALMOST BLUE: notas sobre o projecto escritas por Maria Trabulo 2018

Os Gregos antigos não possuíam uma palavra referente a azul, pelo que Homero se referia à cor do Mar Mediterrâneo e do Mar Egeu como cor de vinho escuro ou cara de vinho (oinops pontos). O passado cultural e linguístico e a experiência pessoal de Homero com o mar influenciaram-no a escolher essas como sendo as palavras que melhor definiriam a cor do mar. “Almost Blue” parte desta presunção para assim traçar o significado do mar numa memória colectiva, através da recolha de relatos pessoais em zonas costeiras.

“Almost Blue” tem início em The Walk is easy with the feet on the Ground, uma obra em formato de jornal que publiquei em 2014 a partir de imagens que recolhi de webcams pertencentes a resorts situados em zonas do Mediterrâneo (Grécia, Itália, Sul de França, Sul de Espanha) com grande afluência migratória oriunda do Norte de África. Nesse período, vivia entre a Áustria e a Alemanha, e tive particular curiosidade pelas webcams desta região. A situação migratória estava longe de ser um assunto de primeira página; ninguém falava no assunto. Em contraste com esta situação, eu vivia na Europa, supostamente na outra margem.

O objectivo das várias webcams instaladas era o de permitir aos hóspedes dos hotéis e resorts consultar o estado do mar e da praia. Os planos de filmagem mostravam sempre uma vista do horizonte, sendo que as câmaras pareciam servir, ao mesmo tempo que propósitos de controlo das condições atmosféricas e do estado do mar, também para prevenir a chegada de barcos com refugiados. Sabe-se de vários casos de embarcações que, naufragando muito perto da costa, largam os seus ocupantes que nadam até à margem e chegam a praias plenas de turistas europeus: (ver aqui).

Nunca tinha estado no Mediterrâneo, nem visto esse mar antes. Fui atraída pela paisagem e pelos ângulos de filmagem que as webcams definiam e transmitiam. A cor deste mar variava de câmara para câmara, tornando-se difícil perceber qual era a sua cor exacta: quase azul, ou entre o azul e o verde, diferente da cor do Atlântico Norte que tão bem conhecia.

Um ano após a publicação de The Walk is easy with the feet on the ground fui à Calábria, região no sul de Itália, no âmbito de uma residência artística. Conheci Maristella, uma assistente social que trabalhava no centro Speranza, responsável por acolher jovens refugiados oriundos do Norte de África e da África Subsariana. Tomando conhecimento do meu trabalho, Maristella pediu-me que interagisse com os rapazes acolhidos pelo centro, pensando que isso os poderia ajudar a lidar melhor com a situação em que se encontravam, e com o trauma sofrido pela travessia do Mediterrâneo.

Preocupei-me em encontrar uma forma de os abordar e de falar com eles sem que a minha presença se tornasse invasiva ou desconfortável, sobre situações da vida de cada um que fossem mais memoráveis ou felizes. Apresentei-me então como sendo a Maria, uma artista natural de Portugal. Expliquei-lhes, um a um, em que consistia o meu trabalho enquanto artista e falei-lhes da publicação que tinha feito em 2014, e de como naquela altura, ao ver aquelas imagens de webcam, me lembrara de jovens como eles, da sua travessia daquele mar para chegar àquelas margens da Europa. Foi a partir dessas conversas iniciais que chegámos à tentativa de definir a cor do mar, que tanto me intrigara antes. Surgiram conversas e relatos, moderados e possibilitados pela Maristella, que ajudou como tradutora e intermediária, via e-mail, skype, telefone e carta. Aqueles jovens rapazes descreveram o que no seu entendimento pessoal seria a cor do mar que os levara até ali. Surgiram definições tão diversas como: a cor do luar, a cor de um grande peixe, a cor de uma enorme onda negra que quase virou o barco, ou, ainda, por distinção, que na Líbia é negro e em Itália azul, talvez por referência ao início da travessia durante noite e a chegada à costa europeia durante o dia. A luz do dia facilita os resgates em caso de SOS. Perguntar a cor do mar tornou-se uma forma de desbloquear conversas em situações desconhecidas, possibilitando o iniciar de uma – por vezes fugaz, por vezes duradoura – ligação e entendimento com os que habitam zonas costeiras, que muitas vezes presenciam tensões sociais ou políticas. Esta acção foi entretanto alargada a outros locais como Creta, onde a cor do mar assumiu o espectro cromático da crise económica, e Portugal, onde adquiriu a cor da resistência.

O começo habitual de cada conversa surge, primeiro, com uma reacção de espanto com a pergunta, levando a que normalmente o inquirido aponte para o mar e exclame: “Claro que é azul, não vês?”. Até ao momento em que lhes peço para que observem um pouco melhor e, depois, acabam por me dizer: “É quase azul”. Então a conversa aprofunda.

 

No Verão de 2018, numa extensão do projecto original, tendo contactado vários intervenientes envolvidos em questões ambientais, Maria Trabulo deslocou-se a Aljezur, mais precisamente a 25 milhas náuticas ao largo da praia da Arrifana, para realizar uma filmagem de 360º da localização prevista para a instalação da plataforma petrolífera de extracção offshore (furo de Aljezur), actualmente alvo de disputa entre os cidadãos, o governo português e empresas petrolíferas:

“Para além da questão ambiental, o que me motivou acima de tudo a alargar o projecto para o sul de Portugal, foi o facto de a exploração de combustíveis e minerais fósseis no país, e particularmente naquela região, colocar em questão os princípios e direitos democráticos dos cidadãos.

Em Aljezur, a expressão “ir à luta” soa diferente. As palavras guerra, batalha, frente, luta, sofrer, fazer frente, não desistir, derrubar, ecoavam nas conversas e reuniões entre activistas, ambientalistas e políticos. Ali, junto à ponta de Sagres, pensa-se a batalha ou resistência. E contam-me que há dias em que o vento é tão forte que é capaz de levantar as finas partículas de sal da água e da areia, que depois se espalham pela região e cobrem casas, carros, plantações, de pó branco”.

Biografia

Maria Trabulo (1989, Porto) é uma artista e investigadora multidisciplinar que vive entre o Porto e Viena.

Maria tem vindo a desenvolver uma carreira artística internacional, expondo frequentemente em instituições e espaços independentes tanto em Portugal como no estrangeiro. Contribui regularmente para seminários, publicações e projectos culturais, tendo apresentado o seu trabalho em diversos formatos e lugares, e participado em várias residências artísticas na Áustria, Alemanha, Itália, Grécia, Portugal e Irão. O seu trabalho tem sido reconhecido e premiado por diversas instituições.

Ao longo do seu percurso artístico, a artista tem vindo a desenvolver projectos em colaboração com profissionais das artes performativas, cénicas, arquitectura, música e curadoria.

A sua prática cultural distingue-se pela interdisciplinaridade. Para além da sua prática artística, Maria fundou a In Spite of, em 2018, uma iniciativa cultural gerida por artistas na cidade do Porto, com um programa de exposições focado na fixação e valorização de práticas artísticas locais, ao abrigo do apoio Criatório da CMP. Entre 2012-2015, foi membro fundador do Expedição, um projecto cultural focado na revitalização da cena artística na cidade do Porto durante a crise financeira.

Maria tem um mestrado em Arte&Ciência pela Academia de Artes Aplicadas de Viena e anteriormente licenciou-se em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e a Academia de Belas Artes da Islândia. Recebeu diversas bolsas e apoios pelo seu trabalho académico e artístico, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian, Criatório, DGArtes/Portugal; Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

Exposições colectivas e individuais seleccionadas: MAAT Lisboa; Teatro Rivoli, Porto; Quartier General, La Chaux-de-Fonds; Schneiderei, Viena; Galeria Municipal Almeida Garrett, Porto; Museu do Neo-realismo, V.F. Xira; Kluckyland, Viena; Ungart Gallery, Viena; Galeria Múrias Centeno, Porto; Cristina Guerra Contemporary Art Gallery, Lisboa; Pavilhão 31, Lisboa; Escritório Espaço Avenida, Lisboa; Karat, Colónia; Super Tokonoma, Kassel; A Ilha, Porto; Museu de Serralves, Porto;

*Os textos não foram escritos segundo o Acordo Ortográfico

Visita Guiada

Visitas Guiadas ao Sábado
8, 15, 22 e 29 Dezembro / 5 Janeiro
15h30 às 16h30

Público Geral
Gratuita

Visitas Guiadas Escolas
Ensino Secundário e Ensino Superior
de terça a sexta-feira
Marcação Prévia: serviçoeducativo@galeriasmunicipais.pt

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My Favourite Things

João Gabriel
Artistas João Gabriel
Curadoria Sara Antónia Matos / Pedro Faro
Data De 01/08/2018 a 01/07/2018
Folha de Sala

A exposição “My favourite things”, de João Gabriel, mostra uma selecção de pinturas sobre tela e sobre papel, realizadas nos últimos três anos pelo artista, quase todas inéditas, onde se desenvolve, em várias frentes, uma investigação no âmbito da pintura. A sua obra tem incidido sobre diferentes aspectos e situações retiradas de filmes pornográficos homossexuais, sobretudo da década de 1970 e 1980, investindo sobre as qualidades plásticas e pictóricas dos contextos paisagísticos, domésticos, arquitectónicos, mundanos ou boémios, líricos e obscuros, anatómicos e humanos, íntimos, que habitam este polémico e interdito universo produtor de imagens contemporâneas. Pretextos oportunos para uma nova crítica da vida quotidiana? Para uma nova crítica da imagem?

Cada pintura de João Gabriel configura assim um acontecimento, um instante privilegiado, a maior parte das vezes fortuito ou conjuntural – uma erótica de consumo rápido? – que traz para o domínio da pintura e da tactilidade uma reflexão sobre a própria pintura, o seu tempo, o quotidiano. E fá-lo a partir de uma perspectiva muito particular: questionando as qualidades das imagens provenientes da pornografia homossexual na definição de uma cultura visual mais alargada. Sendo a História da Arte ela mesma uma narrativa feita de desejo e erotismo, como é que as imagens deste artista nos trazem, e colocam em jogo, hoje, novas dimensões e possibilidades do sentir e do ver? De que forma alteram a nossa relação com os corpos?

Num recente texto sobre o artista, publicado no Jornal Público, num suplemento dedicado a futuras promessas do universo artístico português, Nuno Crespo refere que João Gabriel “nos filmes porno encontra corpos que se desejam e se entregam na tentativa de preencher o seu desejo – mas também aí encontra elementos de narratividade e composição visual importantes para o modo como aborda a pintura”. Sublinhando, ainda, que o trabalho de João Gabriel “é um imenso contributo para a cultura gay e, neste aspecto, quer [se] goste ou não, as suas pinturas servem-nos como elementos importantes da renovação dos museus e das galerias de exposição, no caminho político de integração e de reconhecimento das comunidades reais e das suas posições de diferença contrárias à normatividade corrente.”

https://www.publico.pt/2018/03/02/culturaipsilon/noticia/joao-gabrieluma-questao-de-desejo-1804456
in
Público, Ípsilon, 2 de março de 2018, por Nuno Crespo

Nome de uma conhecida música, uma das preferidas de João Gabriel, na versão interpretada por John Coltrane, “My favourite things” é um título que dá conta, justamente, das primeiras obsessões do artista, onde se conjugam a riqueza do simbólico com a precariedade do material original, resultante do encontro da cultura erudita com aspectos da chamada cultura de massas.

João Gabriel estudou pintura na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, mostrou o seu trabalho na exposição “Paul & Bobby”, no âmbito do Sexto Grandioso Fim-de-semana no Bregas, em Lisboa, participou na última edição dos Prémios EDP Novos artistas e fez o cartaz do filme O Ornitólogo (2016) de João Pedro Rodrigues, entre outros projectos.

* Os textos não foram escritos segundo o Acordo Ortográfico.

Biografia

João Gabriel Pereira, 1992, Leiria. Vive e trabalha nas Caldas da Rainha. Formou-se em Artes Plásticas (2016), nas ESAD Caldas da Rainha.  Nesse mesmo ano, mostrou o seu trabalho na exposição “Paul & Bobby”, no âmbito do Sexto Grandioso Fim de Semana no Bregas, em Lisboa. Foi nomeado para o Prémio EDP Novos Artistas (2017) e tem participado em várias exposições colectivas, nomeadamente, “Género na Arte. Corpo, Sexualidade, Identidade e Resistência”, com curadoria de Aida Rechena e Teresa Furtado, no MNAC, Lisboa (2017); “Pau Duro, Coração Mole” com curadoria de Thomas Mendonça, FOCO, Lisboa (2017); “Que farei eu com esta espada?”, com curadoria de António Caramelo, Zaratan, Lisboa (2017); “Quatro Elementos. (Fogo)”, com curadoria de Pedro Faro, Galeria Municipal do Porto; “Panorama”, com curadoria de Adelaide Ginga, Le Consulat, Lisboa (2016); “Cave + Do rio das pérolas ao rio ave”, Galeria solar, Vila do conde (2016); “A meio de qualquer coisa”, com curadoria de Nuno Ramalho, na Galeria Graça Brandão, Lisboa (2016); “O lugar de alguém é fundamentalmente o olhar”, com curadoria de José Maia, no Espaço MIRA A4, Porto (2015); “Múltiplas Perspectivas e Não Menos Contradições e Sonhos”, Bienal da Maia (2015); “O que um Livro Pode ’15”, Atelier Real, Lisboa (2015); “21 Artistas”, Teatro da Politécnica, Lisboa (2014), entre outras.

Pálpembrana

Alice dos Reis
Artistas Alice dos Reis
Curadoria Sara Antónia Matos / Pedro Faro
Data De 01/08/2018 a 23/09/2018
Folha de Sala

As Galerias Municipais apresentam a primeira exposição individual de Alice dos Reis, Pálpembrana, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, na Galeria da Boavista, continuando, neste espaço, um ciclo de várias exposições individuais de artistas emergentes no contexto da arte contemporânea portuguesa. Este ciclo começou com João Gabriel, no início de 2018, e continuará, depois de Alice dos Reis, com Maria Trabulo (Outubro – Dezembro 2018), Mariana Caló e Francisco Queimadela (Janeiro – Março 2019) e Sara Chang Yan (Junho – Setembro 2019).

Esta exposição de Alice dos Reis, onde se mostram várias esculturas, instalações e dois filmes, surge na linha de investigação e reflexão que a artista desenvolveu recentemente na sua tese de mestrado, “Slimy Fillings”, realizada na Holanda, e que é disponibilizada na exposição através de um booklet. Nessa investigação, a artista elabora sobre a crescente afirmação da estética do ‘cute’ – em português seria ‘fofinho’ ou ‘adorável’ -, na semiótica ocidental contemporânea. A tese de Alice dos Reis, bem como o trabalho que apresenta, procura analisar a relação entre o ‘cute’, ou coisas consideradas ‘cute’, com ideias de poder e opressão, investigando, deste modo, a intersecção da estética com as novas tecnologias, com as interacções online, com as políticas de género, a vigilância e o trabalho, propondo o ‘cuteness’, em última análise, como uma estética radical. Em grande medida, Alice dos Reis parte, conceptualmente, de um pensamento que procura actualizar a teoria estética em torno de novas categorias – alternativas às tradicionais análises do belo e do sublime -, que se relacionam com as actividades sociais, os objectos e produtos gerados pelo capitalismo tardio, que saturam o seu universo cultural – ver Our Aesthetic Categories. Zany, Cute, Interesting, de Sianne Ngai. Afecto e emoção, linguagem e comunicação, intimidade e atenção atravessam o modo como olhamos para a História, a trivialidade, o estilo, e o juízo que fazemos sobre as coisas. O filme Mood Keep, obra central desta exposição, é realizado em torno da figura do Axolotle mexicano (Ambystoma mexicanum), “batráquio urodelo neoténico, nativo do México, que pode atingir cerca de 30 centímetros de comprimento e apresenta três pares de brânquias externas situados nas zonas laterais da cabeça, sendo notável pela grande capacidade de regeneração de tecidos orgânicos”1. É muito ameaçada pelo comércio ilegal de espécies exóticas e pela constante destruição do seu habitat, pela cada vez maior ocupação humana, onde se destaca, por exemplo, a fatal drenagem do lago Xochimilco pelos colonos espanhóis, no século XVI. Com qualidades regenerativas muito particulares, o Axolotle não completa a metamorfose, sendo por isso, uma salamandra com aspecto larvar mesmo no estado adulto (neotenia). A pele do Axolotle é escura, muitas vezes com manchas. Os indivíduos albinos são comuns. É uma espécie exclusivamente aquática durante todo o seu ciclo de vida. Devido à sua grande capacidade de regeneração dos tecidos, esta espécie foi amplamente criada em cativeiro, sobretudo para a investigação científica.

O filme Mood Keep reflecte sobre as intersecções entre a história pós-colonial do Axolotle, a sua forma e existência biológica única – quase sobrenatural – e a sua recente popularidade online, sendo aqui considerada como uma das criaturas mais fofas do mundo. Para lá da sua aparência fofa, são ferozes predadores e, se deixados em espaços contidos com uma densidade populacional elevada, canibalizam-se uns aos outros. A figura do AxoIotle, segundo a artista, espoleta, assim, ideias de alteridade e práticas não patriarcais de empatia e de parentesco entre seres humanos e não-humanos. Na narrativa deste filme, estas criaturas fofas comunicam entre si através de ondas wi-fi e assistem a filmes de animação gerada digitalmente de forma telepática. Quase cego, o Axolotle só é capaz de discernir sombras de luz, sendo que o permanente brilho de tungsténio, nos aquários onde é criado, é desagradável e perturbador para as suas capacidades de comunicação. Colectivamente, nestes cativeiros, os Axolotles decidem desenvolver pálpebras, optando por fechar os olhos indefinidamente como forma de recuperar o poder sobre os seus corpos e de incentivar a comunicação empática de uns com os outros.

O título da exposição, Pálpembrana, é um jogo, por aglutinação, entre as palavras “pálpebra” e “membrana”. Uma das origens etimológicas da palavra portuguesa pálpebra provém do verbo em latim palpare, que significa “tocar” ou “bater docemente”. Anatomicamente, a pálpebra do olho é considerada uma membrana. Para membrana, os dicionários oferecem o seguinte significado: “camada fina de tecido que recobre uma superfície, divide um espaço ou órgão ou une estruturas adjacentes”. No filme Mood Keep, os Axolotles – criaturas revestidas de membranas – desenvolvem membranas-pálpebras que lhes permitem fechar os olhos.

Outras peças apresentadas na exposição, em látex – cuja textura poderia ser considerada “membranar” – e em acrílico, dialogam e brincam com a ideia e figura da pálpebra: é uma pálpebra ou um smile (emoticon)? Alice dos Reis procura relacionar este conjunto de ideias com a dimensão do olhar (gaze), e com o âmbito do ‘cute’, do toque e da carícia: palpare.

Podemos, finalmente, pensar a “pálpembrana” como a estrutura slimy, gelatinosa informe, que permite a relação entre todas estas coisas, que as aglutina, cobre, toca e as distribui de forma perturbadoramente divertida, idiossincrática e não convencional. “A ‘pálpembrana’ é como as formas em teia que se começam a ver quando fechamos os olhos à luz” – refere Alice dos Reis, que problematiza, deste modo, a função da arte na era da globalização digital, investindo sobre os seus actuais modos de contemplação e de produção, ao expor os paradoxos do estatuto da arte no seio de um contexto de globalização, tendo em conta as suas diferentes modalidades económicas, políticas, visuais e culturais. Pode a arte pensar aquilo que é giro, bizarro/estranho e divertido?

1 axolotle in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2018. [consult. 2018-07-06 10:56:32]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/axolotle

* Os textos não foram escritos segundo o Acordo Ortográfico

Biografia

Alice dos Reis (Lisboa, 1995) vive e trabalha em Amesterdão. Em 2018, completou o mestrado em Belas Artes no Instituto Sandberg, em Amesterdão, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

O seu trabalho, maioritariamente em filme, tem sido mostrado em vários museus e plataformas culturais em Portugal e na Europa, entre os quais: MAAT (PT), Centro Cultural de Belém (PT), EYE Filmmuseum (NL), Spektrum – Art Technology Community (DE), Rua das Gaivotas6 (PT), no projecto Old School, Galeria Zé dos Bois (PT) e Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas (PT).