Galeria Boavista

My Favourite Things

João Gabriel
Artistas João Gabriel
Curadoria Sara Antónia Matos / Pedro Faro
Data De 01/08/2018 a 01/07/2018
Folha de Sala

A exposição “My favourite things”, de João Gabriel, mostra uma selecção de pinturas sobre tela e sobre papel, realizadas nos últimos três anos pelo artista, quase todas inéditas, onde se desenvolve, em várias frentes, uma investigação no âmbito da pintura. A sua obra tem incidido sobre diferentes aspectos e situações retiradas de filmes pornográficos homossexuais, sobretudo da década de 1970 e 1980, investindo sobre as qualidades plásticas e pictóricas dos contextos paisagísticos, domésticos, arquitectónicos, mundanos ou boémios, líricos e obscuros, anatómicos e humanos, íntimos, que habitam este polémico e interdito universo produtor de imagens contemporâneas. Pretextos oportunos para uma nova crítica da vida quotidiana? Para uma nova crítica da imagem?

Cada pintura de João Gabriel configura assim um acontecimento, um instante privilegiado, a maior parte das vezes fortuito ou conjuntural – uma erótica de consumo rápido? – que traz para o domínio da pintura e da tactilidade uma reflexão sobre a própria pintura, o seu tempo, o quotidiano. E fá-lo a partir de uma perspectiva muito particular: questionando as qualidades das imagens provenientes da pornografia homossexual na definição de uma cultura visual mais alargada. Sendo a História da Arte ela mesma uma narrativa feita de desejo e erotismo, como é que as imagens deste artista nos trazem, e colocam em jogo, hoje, novas dimensões e possibilidades do sentir e do ver? De que forma alteram a nossa relação com os corpos?

Num recente texto sobre o artista, publicado no Jornal Público, num suplemento dedicado a futuras promessas do universo artístico português, Nuno Crespo refere que João Gabriel “nos filmes porno encontra corpos que se desejam e se entregam na tentativa de preencher o seu desejo – mas também aí encontra elementos de narratividade e composição visual importantes para o modo como aborda a pintura”. Sublinhando, ainda, que o trabalho de João Gabriel “é um imenso contributo para a cultura gay e, neste aspecto, quer [se] goste ou não, as suas pinturas servem-nos como elementos importantes da renovação dos museus e das galerias de exposição, no caminho político de integração e de reconhecimento das comunidades reais e das suas posições de diferença contrárias à normatividade corrente.”

https://www.publico.pt/2018/03/02/culturaipsilon/noticia/joao-gabrieluma-questao-de-desejo-1804456
in
Público, Ípsilon, 2 de março de 2018, por Nuno Crespo

Nome de uma conhecida música, uma das preferidas de João Gabriel, na versão interpretada por John Coltrane, “My favourite things” é um título que dá conta, justamente, das primeiras obsessões do artista, onde se conjugam a riqueza do simbólico com a precariedade do material original, resultante do encontro da cultura erudita com aspectos da chamada cultura de massas.

João Gabriel estudou pintura na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, mostrou o seu trabalho na exposição “Paul & Bobby”, no âmbito do Sexto Grandioso Fim-de-semana no Bregas, em Lisboa, participou na última edição dos Prémios EDP Novos artistas e fez o cartaz do filme O Ornitólogo (2016) de João Pedro Rodrigues, entre outros projectos.

* Os textos não foram escritos segundo o Acordo Ortográfico.

Biografia

João Gabriel Pereira, 1992, Leiria. Vive e trabalha nas Caldas da Rainha. Formou-se em Artes Plásticas (2016), nas ESAD Caldas da Rainha.  Nesse mesmo ano, mostrou o seu trabalho na exposição “Paul & Bobby”, no âmbito do Sexto Grandioso Fim de Semana no Bregas, em Lisboa. Foi nomeado para o Prémio EDP Novos Artistas (2017) e tem participado em várias exposições colectivas, nomeadamente, “Género na Arte. Corpo, Sexualidade, Identidade e Resistência”, com curadoria de Aida Rechena e Teresa Furtado, no MNAC, Lisboa (2017); “Pau Duro, Coração Mole” com curadoria de Thomas Mendonça, FOCO, Lisboa (2017); “Que farei eu com esta espada?”, com curadoria de António Caramelo, Zaratan, Lisboa (2017); “Quatro Elementos. (Fogo)”, com curadoria de Pedro Faro, Galeria Municipal do Porto; “Panorama”, com curadoria de Adelaide Ginga, Le Consulat, Lisboa (2016); “Cave + Do rio das pérolas ao rio ave”, Galeria solar, Vila do conde (2016); “A meio de qualquer coisa”, com curadoria de Nuno Ramalho, na Galeria Graça Brandão, Lisboa (2016); “O lugar de alguém é fundamentalmente o olhar”, com curadoria de José Maia, no Espaço MIRA A4, Porto (2015); “Múltiplas Perspectivas e Não Menos Contradições e Sonhos”, Bienal da Maia (2015); “O que um Livro Pode ’15”, Atelier Real, Lisboa (2015); “21 Artistas”, Teatro da Politécnica, Lisboa (2014), entre outras.