Cortina

Bruno Cidra

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A Câmara Municipal de Lisboa promove anualmente um Programa de Intercâmbio de Artistas plásticos entre os municípios de Lisboa e Budapeste, no âmbito do acordo de geminação entre as duas cidades. Este programa possibilita a dois artistas portugueses a realização de um trabalho artístico em Budapeste, durante um mês, e a dois artistas húngaros a realização de um trabalho artístico em Lisboa, com igual duração. Desde 1992, data em que foi celebrado o acordo de geminação, o programa de residência artística já permitiu a cerca de 40 jovens artistas portugueses desenvolver um projeto de trabalho na cidade de Budapeste, e acolheu na cidade de Lisboa igual número de artistas húngaros com o mesmo propósito.
Esta exposição que se apresenta na Galeria Quadrum é resultado, direto ou indireto, do trabalho desenvolvido pelo artista durante a residência em 2014.

O conjunto de obras agora expostas na Galeria Quadrum estabelece uma relação de continuidade com duas exposições anteriores. Flecha e Corda foram os títulos tomados de empréstimo à geometria, termos que evocavam a definição da linha no espaço. No caso de Cortina, o artista aponta para o plano como referente principal, com particularidades e nuances que jogam com percepções de leveza, transparência e fragilidade.

Cidra propõe quatro peças dispostas ao longo da galeria, elementos híbridos que conjugam e operam na intercessão entre as disciplinas do desenho e da escultura. Utilizando o papel e o ferro como matérias-primas para dar corpo aos objectos, estabelece analogias entre os dois campos: a forma e força que o ferro impõe ao papel quando aglomerados; a capacidade do papel, quando seco, de congelar a escultura num lugar e momento; ou como “Sem título” 2014, onde o aceleramento do processo de oxidação do ferro é estimulado, propagando-se pelo papel através da cor e textura.

A exposição alude a possíveis estruturas. As obras são organizadas hierarquicamente no espaço por uma gradação que vai da composição à depuração, e vice-versa. Planos escultóricos que funcionam como dispositivos para mostrar outras peças. A linha pode assumir uma forma fechada ou apenas insinuar limites que possibilitam ao espectador concluir ou completar mentalmente o desenho.

O desenho atinge, portanto, vários níveis, parte fundamental também na reflexão sobre o espaço expositivo. É através de desenhos preparatórios que Cidra inicia o estudo das relações entre cheios e vazios, determinantes na percepção da ocupação da galeria, pondo em diálogo binómios como o visível e invisível, a materialidade e a imaterialidade, o peso e a leveza, o individual e o global.

Este mapeamento do local põe em evidência e activa uma noção de movimento que influência o espectador. Por outro lado, o movimento inerente às esculturas e à sua disposição apresenta um encadeamento entre o desenho das peças e o desenho do espaço, condicionantes que proporcionam diferentes aproximações do espectador às peças, ao espaço e à arquitectura.

– Flávia Violante (Galerias Municipais)

*Por opção da autora, o texto não foi escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

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