Marc Blondeau

Marc Blondeau

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As Galerias Municipais de Lisboa têm o prazer de apresentar Lisbonne (1991), um trabalho de Marc Blondeau na feira de arte ARCOMadrid 2020. Em 1987, o artista francês Philippe Thomas (1951–1995) fundou a agência readymades belong to everyone® com a finalidade de possibilitar aos colecionadores tornarem-se nos autores das obras de arte por si adquiridas. Marc Blondeau foi uma das figuras que participaram neste gesto, e o presente projeto das Galerias Municipais apresenta uma das obras de arte que foi alvo desta transação.

Lisbonne (1991) é uma fotografia a cores que faz parte de uma série de 8 fotografias assinadas por Marc Blondeau (1990–1991), pertencente à coleção do MAMCO, em Genebra. A imagem invoca uma cena do quotidiano da cidade que lhe dá o título. Centra-se na superfície de uma mesa de esplanada manchada pelo sol, sobre a qual vemos um suporte de guardanapos, os restos de uma bebida acabada de consumir e algum dinheiro deixado como pagamento. Uma cadeira e o pavimento tradicional de calçada portuguesa ocupam o fundo da imagem. Um copo vazio e uma garrafa verde encontram-se ao lado de um pequeno prato sobre o qual várias notas, moedas e um recibo foram cuidadosamente colocados, indicando que o cliente deixou o pagamento e foi embora. A imagem retrata a era pré-Euro, quando Portugal ainda usava escudos como moeda. Em destaque, uma nota azul de cem escudos, agora descontinuada, com a efígie do ilustre poeta e escritor português Fernando Pessoa (1888–1935). Esta é uma representação arquetípica da cidade que evoca um sentimento de nostalgia relativamente a uma era passada e que evidencia contestados estrategas de marketing na era do turismo global.

As ideias que gravitam em torno de Philippe Thomas e da sua agência readymades belong to everyone® encontram-se inequivocamente ligadas a outros notáveis artistas e pensadores conceptuais, de Marcel Duchamp e Marcel Broodthaers ao próprio Pessoa, considerado uma das figuras literárias mais significativas do século XX. Pessoa não só assinou os seus escritos com o seu próprio nome, como também usou muitos outros pseudónimos, os quais descrevia como seus «heterónimos», numa abordagem que recorda o gesto artístico de autoapagamento de Thomas. Trabalhando nas décadas de 1980 e 1990, Thomas atualizou as estratégias destas figuras anteriores, respondendo às tendências da época relacionadas com a explosão do mercado da arte e a proeminência de artistas considerados estrelas. Redefiniu o valor da mercadoria que se encontrava a ser transacionada – substituindo o objeto de arte pela autoria – ao mesmo tempo que participava inteiramente no sistema de mercado em que a arte se encontrava em circulação.

A obra de Thomas também recorda a programação recente das Galerias Municipais, um grupo de cinco galerias de arte contemporânea distribuídas por vários bairros de Lisboa. Por exemplo, uma exposição recente de Claire Fontaine intitulada YOUR MONEY AND YOUR LIFE (Galeria Avenida da Índia, 25 de outubro de 2019–5 de janeiro de 2020), abordou igualmente temas relacionados com o capital, o valor e a autoria. Também convocou explicitamente Philippe Thomas na obra Untitled (pubblicità pubblicità!) (2015), na qual uma caixa de luz apresenta a versão italiana de um dos cartazes de Thomas publicitando os serviços da sua agência readymades belong to everyone®.

Organizado em colaboração com Claire Burrus (Paris), Jan Mot (Bruxelas), MAMCO (Genebra) e Ricardo Valentim.

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