Questões Celestiais 天問 Heavenly Questions

Mingyu Wu

Uma das relações entre elementos de um romance pode muito bem ser a do conflito, mas a redução da narrativa ao conflito é absurda.
Ursula K. Le Guin

O título da exposição, Questões Celestiais, é oriundo de um poema de Qu Yuan, poeta exilado e suicida do séc. IV e III a. c. que, segundo a artista, é constituído de perguntas filosóficas que vão desde a origem do universo a assuntos humanos.

Antes de entrar no domínio da exposição propriamente dito é importante lembrar que “Questões Celestiais”, em chinês “Tianwen”, é também o nome da série de missões do programa espacial chinês; âmbito dentro do qual, em 2025, foi lançada a sonda de exploração científica Tianwen-2.
Tendo em conta o âmbito científico e para-científico dos universos aqui evocados, surge a primeira série de obras produzida por Mingyu Wu para o desafio lançado pelas Galerias Municipais, com o nome de Axiomático.

Um axioma é uma verdade fundamental e autoevidente, uma proposição básica aceite como verdadeira, sem necessidade de demonstração, servindo como ponto de partida para construir sistemas de conhecimento, teorias e demonstrações em áreas como matemática, lógica e filosofia, a geometria. Comecemos por esta. Na geometria, o axioma “Por dois pontos passa uma única reta” é incontornável.

Porém, a definição de axioma surge em tudo contraditória no que se refere ao domínio das artes e, especificamente, ao trabalho em cerâmica desenvolvido por Mingyu Wu.

A cerâmica, e particularmente a porcelana e o grés, são domínios e matérias de trabalho imprevisíveis. Água a mais, matéria seca a menos, pasta deficientemente amassada, espessuras desiguais, secagem repentina, cozedura curta, temperatura desadequada, e todo o trabalho, as peças produzidas, pode perder-se. Estalar, rebentar ou estilhaçar, derreter, minguar, mudar de cor são efeitos indesejados consequentes do manejo ineficiente das matérias, técnicas e instrumentos.

Por que razão, então, a palavra axioma surge em conversa com Mingyu Wu, dando título a uma das sérias apresentadas pela artista, na Galeria da Boavista?
A artista parece lançar-se a um desafio infindo de vencer as improbabilidades da matéria e do trabalho com a cerâmica.
A série Axiomático, composta por 6 elementos modelados em grés, ergue-se hirta sobre bases, dispostas sequencialmente na galeria, criando um percurso angular ao longo desta para o espectador. Os elementos não são monumentos, melhor dizendo, maquetes que os representem ou que os ensaiem. Dispostos à altura do corpo, são corpos que conversam com os nossos, e nos transportam para uma paisagem despida, científica, sem tempo. Estas peças são resultado de um trabalho aturado e minucioso, de modelagem pausada. Assumindo a forma de monólitos, maciços, em matéria pesada, revestem-se das diferentes colorações das suas pastas ou dos óxidos que a artista lhes sobrepôs, tingindo-as. Segundo a artista, a ideia de “Axiomático” vem de um pequeno conto de ficção científica com o mesmo nome, de Greg Egan, de um homem que introduz um implante cerebral para obter a determinação necessária para levar a cabo a vingança relativa ao assassínio da mulher. A história passa-se num futuro indefinido em que é possível alterar artificial e temporariamente, a baixo custo, os padrões sinápticos que comandam a conduta humana. Através do tema da bio-engenharia, a história levanta questões sobre a natureza do “eu” e sobre o núcleo axiomático (inquestionável e indemonstrável) do nosso sistema de crenças, de valores, de saber e de poder. No coração da racionalidade está a noite insondável! Por isso, aquilo que é mais importante, para Mingyu Wu, nas peças desta série é invisível: o eixo [axiomático].
O conjunto de obras do piso superior, resultam, pelo contrário, de um gesto rápido e espontâneo, de “queima rápida”, que rejeita qualquer domínio ou controle na modelação e na cozedura. Nelas, a artista ensaia outro tipo de movimento, de relações com a matéria, esperando que a mesma lhe responda com um comportamento imponderável.

Remetendo para sacos e mantas enroladas – uma vida em deslocação? – as peças resultam de um processo de produção em nada canónico, que envolve a absorção de porcelana por uma matéria consumível, que no forno desaparece por efeito do calor. Da cozedura, rápida, restam as cascas, as membranas e poros destes mantos que foram preenchidos por matéria no seu estado cru. Esta série de peças feitas em porcelanas, com o título “Plataforma”, emprestado de uma música de um filme de Jia Zhangke com o mesmo nome, reflete sobre a espera, a pertença dúbia a um lugar e a ânsia por uma vida não vivida. Este corpo de trabalho fala da transição da matéria e da transitoriedade da vida, da precariedade existencial.
Cascas, fósseis, ossos. Podemos falar de ficção especulativa quando pensamos sobre estas experiências da artista em torno de conceitos como equilíbrio, densidade, arquétipo?

Do passado para um futuro?

De um tempo sem tempo, ou de uma síntese elementar, composta de um tempo cheio de tempos?

Se não sobrasse mais nada, o que daqui ficaria?

As obras de Mingyu Wu resultam de procedimentos complexos de auto-conhecimento, de deslocação, de choque e confronto cultural, de reconciliação e de silêncio. Cada obra parece funcionar como uma enigmática cápsula de dados encriptados, condensados, cristalizados, inacessível?
Com profundo conhecimento sobre a disciplina em que opera, sobre as suas inerentes materialidades, formas de expressão e possibilidades de figuração, e com interesses específicos sobre questões filosóficas, espirituais, culturais/literárias, Mingyu Wu estabelece, para cada série de trabalhos, um desafiante caderno de encargos, que lhe permite explorar as intrigantes (e obscuras por vezes) propriedades e possibilidades dos materiais, usando diferentes técnicas, dispositivos e temperaturas de “cozedura” – física e intelectual.

Daí, resulta a importância que é descobrir, refletir, questionar o que é evidente, incontestável, inquestionável, ou seja, o que é da ordem do axioma.

– Sara Antónia Matos e Pedro Faro

Descarregue aqui a Folha de Sala para Crianças.

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Programa Público

Data
Título
Com/de
Categoria
Local
20260208
08.02.2026
Visita Guiada “Questões Celestiais 天問 Heavenly Questions” com Interpretação em Língua Gestual Portuguesa
Mingyu Wu
Interpretação em Língua Gestual Portuguesa/Visita Guiada
Galeria da Boavista