Todos os Títulos Estão Errados

Paulo Quintas

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Paulo Quintas (Ericeira, 1966) tem vindo a desenvolver, desde o final da década de oitenta, um percurso artístico sólido e radicalmente individual, impermeável a modismos ou tendências diáfanas e talvez seja por isso que a sua obra não tem tido a visibilidade merecida.

Com esta exposição que pela primeira vez dá a ver três décadas de trabalho, através de uma seleção de cerca de uma centena de obras, pretende-se colmatar essa falta e mostrar como, desde 1987, Quintas tem vindo a construir uma obra assente na rarefação da imagem, onde o “escavar” é tão importante como o colocar ou o acrescentar camadas, na incerteza do destino da interpretação e num regresso ao gesto primeiro da pintura. Pintura radical e insubmissa.

Nas suas várias séries, Quintas tem explorado registos como o Expressionismo abstrato, a paisagem, a sinalética, o signo, a geometria, através de técnicas muito diversas, mas sempre trabalhadas de um modo radicalmente experimental e pictórico.

No entanto, o primeiro registo que explorou, enquanto jovem, foi o fotográfico, ao qual regressa agora numa obra única feita a partir da digitalização e montagem de negativos do início da década de oitenta intitulada Dilúvio, 12 de novembro de 1983, Ericeira, título denotativo e informativo do que e quando captou: imagens quase abstratas da costa da Ericeira após um temporal.

Os títulos são, para o autor, uma espécie de mal necessário com que tem de lidar: “A vida é uma ação. Como a pintura. Os títulos são as legendas da vida. Palavras derivadas como titulares ou sinónimos como nomear não me interessam. O título é uma síntese e as sínteses hoje estão erradas. O Trump é muito bom em títulos. As sínteses são ambivalentes” (PQ).

Mas esta postura frente aos títulos, por parte de quem, não nos enganemos com as aparências, é um leitor compulsivo, encerra uma outra dimensão mais funda e estrutural perante a sua arte: a rejeição da interpretação:

“Considero que as minhas pinturas existem na fronteira da representação. Muitas são representações do processo: representações de árvores, céus, marinhas; outras são puro processo exposto ou apresentado de certo modo. As minhas pinturas não são objetos banais, pobres. São sempre objetos inacabados. Olhar para dentro e olhar para fora é a mesma coisa. Prefiro uma arte que me ponha a divagar mais do que a representar” (PQ).

A designação da exposição impôs-se, assim, com uma clareza tão luminosa quanto cortante: “Todos os títulos estão errados”, ou poderíamos dizer o seu contrário, todos os títulos estão certos. A intenção é propositadamente instalar uma espécie de desconforto com as afirmações, as nomeações, as sínteses, as grandes definições e os sistemas fechados.

– Isabel Carlos, curadora

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