Turbulências: Obras da Colecção “la Caixa” de Arte Contemporânea

Carlos Amorales, Bleda y Rosa, Walter Dahn, José Damasceno, Carlos Garaicoa, Cao Guimarães, José Antonio Hernández-Díez, Thomas Hirschhorn, Asier Mendizabal, Shirin Neshat, Marta Minujín, Paulo Nazareth, Gabriel Orozco, Damián Ortega, Adrian Paci, Walid Raad, Juan Ugalde, Apichatpong Weerasethakul

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A coleção de arte contemporânea “la Caixa” criou uma narrativa que relaciona obras de artistas de diferentes registos e vozes poéticas para constatar a pluralidade de critérios estéticos da arte contemporânea e descobrir outra forma de olhar e compreender o mundo em que vivemos. Na última década, este relato expandiu-se significativamente com uma arte comprometida com a realidade que ausculta a sociedade do nosso tempo, escavando nas suas profundidades espaciais e temporais a fim de distinguir as suas luzes e sombras.

A presente exposição reúne uma seleção destas obras no âmbito do quadro conceptual do programa de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura, que destaca essa diversidade de abordagens, estratégias e relatos da criação contemporânea, num mundo que já não se compreende através de pontos de vista únicos ou dominantes, e onde o eurocentrismo perdeu algum fulgor. Por este motivo, a exposição também apresenta um número considerável de obras de artistas latino-americanos que, por sua vez, deram uma forma que define a narrativa da crítica social desta coleção. Essas obras destacam a importância da consciência política dos seus autores, forjada na discussão dos constantes conflitos sociais. A exposição inclui também obras de artistas de outras realidades geopolíticas que influenciaram a criação da narrativa mais política da coleção. As ligações transnacionais permitidas pela globalização determinaram, sem dúvida, a composição da coleção, incorporando não só produções artísticas de outras latitudes, mas também reflexões sociológicas da arte sobre os problemas criados pelo capitalismo global. O fenómeno da globalização, que procurou suprimir as fronteiras, também agravou as desigualdades sociais, o racismo e os movimentos migratórios massivos de um número crescente de pessoas desfavorecidas que aspiram alcançar o modo de vida de bem-estar e consumo do Ocidente.

Turbulências, que vai buscar o título à obra de Shirin Neshat, é uma exposição que manifesta inquietação e evoca as sacudidelas que nos podem acordar e fazer abrir os olhos para as contradições e os absurdos deste presente globalizado. Os artistas que fazem parte da exposição projetam o seu olhar crítico perante a ameaça de um mundo corrompido (Carlos Amorales), que abandona os imigrantes à sua sorte (Adrian Paci) e os mais frágeis nas ruas das grandes cidades (José Antonio Hernández-Díez). Com uma enorme capacidade para processar de forma estética a sua denúncia, alguns artistas confrontam-nos com as desigualdades de género nas sociedades fundamentalistas (Shirin Neshat) e com as operações populistas do poder (Carlos Garaicoa), enquanto outros alertam com uma ironia saudável para a vulnerabilidade da economia global contemporânea (Damián Ortega) e para o desgaste dos ideais nacionalistas (Paulo Nazareth). A arte relembra que parte do mal-estar atual da Humanidade não é recente, pois provém de batalhas antigas, de quando a sociedade se expandiu para o Ultramar (Bleda y Rosa); mas também recorda outros desastres da guerra, reciclando e ressignificando imagens da arte imortalizadas pela História (Thomas Hirschhorn), questionando essa iconografia e especulando sobre a visualidade da violência (Walid Raad) ou ativando intrigantes ideias lúdicas de amotinação (José Damasceno). Algumas obras evocam a ideologia política articulando uma formulação estética (Asier Mendizabal), e outras reintroduzem-na criando novas ficções para aqueles povos cuja história foi suprimida pela violência (Apichatpong Weerasethakul). Apesar das sombras projetadas por estas obras, os artistas mostram um olhar solidário quando revelam a humanidade que se esconde por trás da marginalização (Juan Ugalde) e dos objetos esquecidos (Gabriel Orozco), e valorizam sem preconceitos sociais a criatividade humana da precariedade (Cao Guimarães), chegando a dar origem a ações que contribuem para restituir os valores democráticos (Marta Minujín).

A globalização turbulenta das últimas décadas não impede que o mundo continue aberto à ligação coletiva, aos diálogos interculturais e à liberdade de expressão. Talvez a arte possa contribuir para fortalecer laços e gerar uma maior consciência do ambiente social, atribuindo-lhe outra visibilidade, embora não pretenda apresentar soluções para os conflitos nem praticar exames de consciência. O olhar crítico do artista é exercido através do simbólico, do imaginário e do poético, mas cabe-nos a nós, os espetadores das suas obras, atribuir um sentido ao seu trabalho e às suas reflexões.

– Nimfa Bisbe, Curadora

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