Your Money and Your Life

Claire Fontaine

claire fontaine your money and your life galerias municipais capa
1/10

Your Money and Your Life, de Claire Fontaine, é a reiteração de uma exposição anterior com o mesmo título, realizada no Palazzo Ducale, em Génova, no início de 2019. Obras novas e antigas, que giram em torno de valor, do lucro, da propriedade privada e da objetificação de seres humanos, mantêm um diálogo vivo entre si. “O dinheiro ou a vida” era, no passado, o clamor dos bandidos; hoje, o capitalismo exige ambos: o nosso dinheiro e o nosso tempo, a mobilização constante da nossa capacidade relacional e da nossa adaptabilidade para suportar condições de vida cada vez mais precárias. Partindo da perspetiva de que a violência política contemporânea requer respostas criativas, Claire Fontaine propõe maneiras de resistir ao nosso ambiente tóxico e mercantilizado. Nesta exposição é exibida a obra Newsfloor (Público), 2019, cuja função é alterar o “cubo branco”, cobrindo o chão com exemplares recentes de um jornal diário nacional. A presença do material impresso no espaço da galeria força as obras de arte a aproximarem-se e a dialogarem com imagens e palavras das quais são desconectadas, criando ao mesmo tempo um ambiente de aparência precária que evoca um estaleiro de obras ou uma instalação inacabada.

O vídeo Situations (2012) apropria uma aula existente de autodefesa, onde proteger-se se vai transformando gradualmente em atacar e destruir o outro. Pretendendo-se como uma metáfora do equilíbrio da luta na sociedade contemporânea e na América em particular, o vídeo também funciona, a nível instrutivo, como uma catadupa de informações sobre técnicas de luta de rua que podem ser aplicadas potencialmente por qualquer pessoa.

As quatro Estátuas Vivas apresentadas na exposição são “objetos de performance”: objetos que fingem ser sujeitos, fingindo ser objetos. Inspirados pelas ações dos artistas de rua em locais urbanos turísticos, eles retratam mendigos criativos que se tornam objetos para serem notados, competindo com uma paisagem de artefactos arquitetónicos nobres. Ao obliterar a sua humanidade, transformando-se em “coisas”, revelam-se numa metonímia cujo significado simbólico ainda não foi totalmente explorado – o mal-estar que nos possui quando estamos na sua presença pode vir disso. Para conseguir um artifício mais espetacular, alguns desses artistas de rua suspendem-se em armaduras invisíveis e parecem flutuar. Um deles enfia-se na sua camisa, ficando perturbadoramente sem cabeça.

A estratégia criativa de Claire Fontaine, a meio caminho entre pirataria e apropriação, é concebida pela artista como uma forma de restituição, de atribuição de um valor de uso diferente às obras de arte que ela cita e transforma. As duas caixas de luz intituladas Untitled (pubblicità pubblicità!), 2015, exibem no lado direito a versão italiana do icónico poster do artista Philippe Thomas para a sua agência, intitulado “ready-mades pertencem a todos”, cujo objetivo era vender aos colecionadores a própria autoria das obras que eles adquiriam. No lado esquerdo da caixa de luz, um texto de Claire Fontaine, colocado sob uma prateleira de catálogos fictícios de artistas femininas, apela à rebelião criativa feminista que nos capacitará e nos transformará, reduzindo o fosso entre artistas e não artistas. Os cartões postais, Untitled (L.G.B.T.Q./L.G.B.T.Q. shaved)#MeToo (Déjeuner sur l ́herbe)#MeToo (Olympia) (2018) são críticas irónicas à história da arte e seus critérios; questionam os nossos próprios desejos e a maneira como os autores e a sua autoridade os influenciam.

Untitled (Naked after beating) e Untitled (They sexually harass and torture, then photograph and publish) (2018) exibem duas obras-primas obscuras desenhadas por prisioneiros do Iémen, desesperados por compartilhar os pormenores da sua perseguição, fotografados e revelados por um iPhone com o ecrã partido, em que as rachas se tornam parte integrante da imagem. O cerne dessas obras é a sua irreparabilidade e o negrume que envolve a vividez dos desenhos, um lembrete de que quem os criou sofre longe dos nossos olhos, dos nossos ecrãs de telefone partidos e dos nossos dedos rolantes.

ler mais
ler menos

Programa Público

Data
Título
Com/de
Categoria
Local
20191108
08.11.2019
“Your Money and Your Life” no Museu do Dinheiro
Fábio Colaço, José Pardal Pina e Tobi Maier
Conversa
Museu do Dinheiro

Jornal

Data
Título
Autor
25.04.2020
O luxo de fazer sentido
Claire Fontaine