Entre o atelier e a Loja/Galeria, a arte, e uma demanda por autonomia

Vera Gonçalves; Elisa Aragão (Galerias Municipais)

atelier VER.

Elisa Aragão: “Lagos tem sido o meu cenário e palco de vida: aqui conheci muitos europeus e deslumbrei-me com a generosidade da natureza que tanto tem participado no meu trabalho.” Encontramos esta frase sua no catálogo “A win win story” / O todo é superior à soma das partes, Obras de 1979 a 2007. Como foi essa experiência de se mudar de uma grande cidade para Lagos no início dos anos 80?

Vera Gonçalves: Venho de uma família Lisboeta, e nunca soube o que era ir passar “férias à terra”, no entanto a nossa casa secundária em Sintra sempre me ensinou onde estavam os grandes momentos de paz, de beleza e de pertença. Mudar-me para o Algarve, para um outro território, junto de um outro grupo de intelectuais, foi descobrir uma outra vivência; era uma natureza ensolarada, mais despovoada, cheia de mar, onde não havia tempo perdido, e por isso mais propícia ao meu trabalho criativo.

EA: No espaço expositivo encontramos diversas obras suas, sempre em relação com Lagos, com a praia, com aquilo que o mar traz, um estar disposta a receber e a dar, com a Natureza como par criativo. Como foi evoluindo esse processo criativo ao longo dos anos?

VG: É verdade que o meu processo criativo foi evoluindo ao longo dos anos, e vejo-o no sentido de se “ter desejado tornar autónomo”. Quero com isto dizer que, no início, o nosso percurso se apoia em materiais apresentados pela história de arte, e pelo mundo académico, o bronze, o mármore, os materiais nobres de uma história contada. Nos meus passeios pelo Parque Natural da Costa Vicentina, fui encontrando belos materiais que deveriam ser mostrados, que julguei tão nobres como aqueles que me tinham sido apresentados. Assim, a pouco e pouco tornei-me também mensageira deles.

EA: Quando olho para a instalação “As Pedras, as Madeiras e as Flores”, o primeiro pensamento que me ocorre são as mariolas que estão espalhadas pelas nossas serras que servem para orientar os pastores em tempo de nevoeiro e os caminhantes pelos diferentes trilhos. Encontramos mariolas no Parque Nacional da Peneda-Gerês, como também na Serra da Estrela. Dada toda a temática da sala relacionada com o mar, as ‘descobertas’ e a relação de Lagos com D. Sebastião, “que um dia chegará numa manhã de nevoeiro”, penso ser curioso o uso de pedras empilhadas, rodeando um barco num mar de Buganvílias. Estas pedras desgastas e recolhidas entre as marés poderão ser um ponto de orientação, um tipo diferente de mariola?

VG: Todo este enquadramento é a minha  visão da grande riqueza do território Algarvio. Nele menciono: a Terra dura queimada pelo Sol, o Mar imenso que tudo leva e tudo traz, a musicalidade de um mundo distante, e a generosidade fresca dos Jardins.

EA: Lagos tem esta relação histórica com D. Sebastião e com outros mitos nacionais que perduram nos dias de hoje através do turismo. O uso do olho fenício que simboliza o bom presságio nas pequenas embarcações de pesca portuguesas nos logótipos do Atelier VER e da Loja/Galeria Terra à Vista na Marina de Lagos remetem também para esse lugar de mitos, história e de viagem. Como se iniciou esse caminho de abrir dois espaços culturais que pudessem ser tanto um local de encontro entre diferentes artistas, arte, e de pessoas que visitam Lagos e querem levar um souvenir?

VG: Iniciei este caminho com o Atelier VER, na aldeia de Espiche, correu bem, e mais tarde lancei-me então para a Loja/Galeria Terra à Vista, na Marina de Lagos, já com um projeto mais alargado e mais ambicioso. O meu interesse com a criação destes dois espaços, ao longo de 20 anos, foi proporcionar aos Artistas independentes um local onde pudessem ser vistos, daí a utilização do belo símbolo Fenício. A existência destes espaços de exposição permanente criou a oportunidade para artistas contemporâneos de campos diversos venderem as suas peças, estas eram produzidas sem qualquer condicionamento e de acordo com os seus percursos. Trabalhava-se durante o tempo tranquilo de inverno, e mais tarde, as peças eram apresentadas para serem vendidas na época de grande afluência ao Algarve.  Mostrar e vender de uma forma mais direta o trabalho foi o objetivo! Asseguravam assim os artistas a sua liberdade criativa e autonomia financeira.             

EA: Tanto o Atelier VER como a Loja/Galeria Terra à Vista foram espaços de trabalho, de exposição de diferentes artistas contemporâneos de campos diversos e locais de venda, proporcionando autonomia financeira e dispensando agentes intermediários. A venda de peças (arte, artesanato, souvenirs) a turistas acabou por ser uma fonte extra de rendimento para muitos dos artistas que residiam e residem no Algarve. Esta exposição aprofunda essa dualidade e relação entre estes supostos “dois mundos”: o turismo e a arte. Na sua atividade artística, como lida com o encontro ou desencontro entre estes dois universos: a arte e as “lembranças para turistas”?

VG: Vejo as “lembranças para turistas” nos produtos de produção em série, made in China, esses, nunca tiveram lugar nestes espaços de objetos de Arte, onde as peças eram únicas, fruto de um trabalho criativo, com a consciência e a alma possível a cada um. Tal como o trabalho individual ou coletivo dos músicos que se podem exprimir de várias formas, entre o folclore, o popular, a música erudita, também no artesanato e nas artes visuais o mundo desses artistas é diversificado, podendo ser mais trabalhado, mais refletido, mais espontâneo, mais ligeiro… campos diversos, mas não menos verdadeiros.

Exposição Relacionada

Data
Título
Artistas
Curadoria
Galeria
14.04.2022
– 21.08.2022
This is a Bar… ou Praia de Banhos – Joaquim Bravo, Turismo e o Algarve
Joaquim Bravo e Álvaro Lapa, António da Cunha Telles, António Palolo, BRANA, Cristina Motta, João Cutileiro, Jorge Mealha, José Miranda Justo, Maria Altina Martins, Patrícia Almeida, Peter Jones, Rosa Jones, Vera Gonçalves, Xana, Zé Ventura
Diogo Pinto
Pavilhão Branco