Sobre a primeira actuação de Expanding Concert (2019-2023) de Mattin

Bárbara Silva

“Alguna Pregunta?”. Assim começa a primeira de cinco actuações de Expanding Concert (2019-2023) do artista Mattin, de Bilbao, actualmente a viver em Berlin. Mattin tem um trabalho multifacetado, mediado pelo ruído e pela improvisação. Esses são os ingredientes principais das suas obras que, muitas vezes, tocam questões próprias de fenómenos como gentrificação das cidades e alienação individual ou colectiva, de uma maneira subjectiva e intangível.

Depois de uns minutos de silêncio e de olhares tímidos guiados por algum nervosismo, alguém faz a primeira pergunta ao artista: “How old are you?”. Mattin estava em pé, encostado a uma das paredes que delimita o espaço rectangular da Galeria Boavista, que tem cerca de 100 m2. À sua volta, também encostado à parede, estava o público expectante, curioso por perceber como se iria desenrolar aquela actuação. Mattin rodou ligeiramente o corpo, em direcção à voz que acabava de ouvir, e responde: “quarenta y dos”. Minutos depois, e com os olhos postos no telemóvel, o artista lança uma segunda pergunta: “No tenéis la sensación de que cada vez nos tenemos que vender más, a nosotros mismos?”. Depois de uns segundos de silêncio, alguém reage: “Sim, para divulgar o que fazemos… E será que podíamos viver sem as redes sociais, hoje? Voltar atrás?”.

No hay vuelta atrás” — responde Mattin.

Mattin estava curioso por conhecer a personalidade do público. As perguntas, as respostas, o diálogo e a postura das pessoas presentes eram a única matéria que lhe interessava. Nos primeiros vinte minutos o silêncio foi o protagonista deste encontro que, raramente, era interrompido por uma pergunta ou por um comentário do artista ou do público. Um silêncio que todos queriam ver quebrado, mas ninguém tinha coragem para contrariar. E então, comecei a imaginar como seria se o Expanding Concert de Mattin estivesse a acontecer num país da América do Sul? No Brasil, por exemplo. Ou mesmo aqui ao lado? Em Espanha. Como seria a reação do público? Colocariam mais perguntas? Iriam interagir mais? Ou estariam, como nós, encostados à parede, a sorrir timidamente à espera que algo acontecesse?

De repente alguém sugere colocar uma música. Talvez pensando que seria uma boa maneira de quebrar o gelo, de desanuviar o silêncio provocado pela timidez. Mas, o artista não concorda, e lança o prenúncio do tema que o inquieta e lhe interessa abordar, colocando a questão: “En cuatro años, como pensan que será este barrio, esta ciudad?”. É então que, finalmente, várias pessoas do público começam a trocar impressões: “Com mais gente!”; “Mais turistas. Menos residentes”; “Os preços serão mais caros”; “As pessoas vão começar a ir viver para o campo”; “Claro, é um lugar mais calmo, mais económico, com melhor qualidade de vida, cada habitante pode ter a sua horta, contactar com a natureza…”.

Parece que este é um tema que interessa à maior parte das pessoas presentes. É o tema que incomoda quem mora na cidade de Lisboa e assistiu a um processo de gentrificação repentina, onde os espaços são pensados para os visitantes, e não para os habitantes, que mal conseguem pagar os preços altos das rendas. Pessoas que sempre moraram na cidade, mas agora estão cansadas e começam a ir para o campo. Seguindo o meu pensamento lanço uma pergunta: “Mas, afinal, se o campo é assim tão bom, porque não vivemos no campo? O que é que a cidade tem que nos atrai?”. Alguém responde: O comércio. O que faz a cidade, historicamente, é o comércio. É um sítio onde se faz dinheiro”. “Só isso?!” — ouve-se em tom de protesto. “Sim, nós já não somos cidadãos, somos consumidores”. As opiniões começam a divergir: “Não. Não é só o comércio. Também são as possibilidades que as cidades oferecem. A cultura, a socialização, a troca de experiência. O problema é que Lisboa se tornou um produto. Um produto para os turistas”. Fez-se silêncio. Um momento que Mattin aproveita para colocar outra questão em jeito de provocação: “Tengo una sugerencia: aquellos que piensan que las cosas mejorarán en cuatro años, por favor quédense aquí. Los que piensan que será peor, vengan conmigo. Yo creo que será peor”.

Algumas pessoas afastam-se da parede e começam a seguir o artista que se dirige para uma divisão mais pequena da galeria. Forma-se o grupo dos “pessimistas”, no qual eu me inseri, e que, curiosamente, era menor do que o grupo dos optimistas. A conversa ganha um tom político. Fazem-se prenúncios sobre o colapso da Europa, afirma-se, com muita convicção, que os princípios de Igualdade, Fraternidade e Liberdade vão deixar de existir e que, sem eles, a Europa não vai sobreviver. Debatemos sobre a instabilidade do mundo e a sua falta de fundamento. Criticamos Portugal, um país que não está a produzir conhecimento nem cultura, e só se preocupa em produzir produtos para turistas — “pastéis de nata”, como alguém sugere. Concordamos que estamos num turning-point, que o modelo actual é insustentável, e que algo vai acontecer. Éramos cinco pessimistas a especular sobre o colapso do mundo. “Será que somos la última generación de artistas no artificiales? Somos los últimos romanticos?”, pergunta Mattin.

Nesse momento, alguém entra na pequena divisão e oferece cerveja. Celebramos o aparecimento de algo que nos afasta de pensamentos catastróficos, e dirigimo-nos para o espaço onde estava o grupo dos optimistas que, curiosamente, conversavam de maneira efusiva. Talvez porque não tinham a presença do artista como mediador.

Estavam descontraídos, embalados pela música, que alguém se lembrou de pôr a tocar no telemóvel. Todos falavam, cantavam e riam ao mesmo tempo.

Depois de 50 minutos, a descontração começava a tomar conta do espaço. Nem o próprio artista conseguia ter voz no meio de tanto ruído. Por vezes havia um momento de silêncio, como se o público se lembrasse, de repente, que estava num “acto artístico”. Mas a informalidade já estava instalada e, depois de baixarem a intensidade da luz, que incomodava, alguém sugere que seria um bom momento para ouvir música, e incentiva os participantes a cantar temas dos seus países de origem (cerca de metade do público presente não era português). A maioria pega nos seus telefones móveis e começa a escolher músicas que, de alguma maneira, representavam as diferentes culturas e lugares ali presentes. Lembro-me que começamos por escutar um tema da Albânia, Oj zogo jelek me vija, depois alguém cantou Ode to Joy em alemão. O artista escolheu um tema basco para que todos ouvissem e cantassem juntos. Ouvimos também vários clássicos portugueses, entre eles Navegar, Navegar de Fausto Bordalo Dias. Talvez fosse esse o desejo de todos os que estávamos ali: navegar. Ir sem rumo certo. Descobrir outro lugar. Lisboa, definitivamente, parecia ser uma cidade incómoda para a maioria dos presentes. Uma cidade, como alguém comentou, que tinha vendido a sua alma aos turistas.

Qual a intenção desta performance, que promoveu o encontro inusitado entre pessoas que não se conhecem, mas sabem que têm de interagir umas com as outras para que tudo isto faça sentido? Talvez Mattin quisesse testar a capacidade que as pessoas — ainda — têm em se comunicar “ao vivo” umas com as outras. Se ainda são capazes de partilhar ideias, emoções, inquietações. Talvez estivesse interessado em provar que, apesar de vivermos num mundo planificado pelas redes sociais e pelas imagens excessivas, insignificantes e não hierarquizadas, que nos chegam, em avalanche, mediadas pela internet, ainda temos a habilidade de exteriorizar as nossas emoções e ideias na presença de outros. Algo que tem vindo a ser aniquilado pela comunicação em massa, pelas imagens facilitadas pelo entretenimento, que saturam e suprimem os nossos sentidos e emoções, e assim, “libertam” o espectador da sua responsabilidade de reflectir e de imaginar. Como afirma Franco Bifo Berardi: “A sensibilidade está em risco na transformação actual da linguagem, na transformação actual da comunicação, porque o ciclo de comunicação no nosso tempo, na era das tecnologias digitais, está cada vez mais transformado na ligação e na transferência de signos digitais. Como pode um organismo sensível distinguir o significado ambíguo de um signo não verbal num ambiente digital?[1]

Actualmente parece que sentimos apenas com um dos nosso sentidos: a visão. Mattin activou colectivamente a audição, o olfacto, o tacto, e mesmo o paladar. Eles são fundamentais para compreendermos o mundo e são necessários para uma vida plena. Precisamos de uma nova sintonia desvinculada dos milhões de estímulos nervosos que recebemos e a que somos instigados a responder diariamente, para voltar a encontrar o nosso corpo social, e o caminho na névoa da ambiguidade[2]. Mas, o que é o corpo social? Como ele se manifesta, na era das tecnologias digitais? Talvez seja a resposta a essas perguntas que Mattin pretende encontrar ao realizar este conjunto de cinco performances, que têm o nome de Expanding Concert.

Sem público, esta performance não existiria, não poderia acontecer. Não estamos a falar de performance no sentido que teve nas últimas décadas do séc. XX, que levava a limites impensáveis o corpo humano. Também não se trata do corpo expressivo, matriz das artes performativas, como o teatro. Nem mesmo do corpo que é, ao mesmo tempo, sujeito e obra da performance, onde o artista é a matéria-prima sobre a qual trabalha, e a obra que dá aos outros se esgota no instante fugaz do seu próprio aparecer. Estamos a falar sobre uma performance onde a matéria é o encontro e a troca de palavras, de silêncios, de emoções, de expressões e de ideias.

Que questões Mattin e o público colocariam agora, depois de uma Primavera marcada por uma pandemia mundial, que nos levou a mais de dois meses de confinamento? Vamos descobrir na próxima e segunda edição do Expanding Concert de Mattin, em 2020.

 

[A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.]

 

[1] Conferência de Franco "Bifo" Berardi, Poetry and Chaos, realizada no Teatro do Bairro, em Lisboa, 12 de Outubro de 2019.

[2] Idem.