Cinema, Mesas-Redondas e Debates, “O Legado das Relações Culturais entre África, a União Soviética e os Países da sua Área de Influência durante a Guerra Fria”

A EGEAC – Galerias Municipais/AFRICA.CONT apresenta o programa RED AFRICA e o ciclo O Legado das Relações Culturais entre África, a União Soviética e os Países da sua Área de Influência durante a Guerra Fria, no Cinema São Jorge, em Lisboa, nos dias 20 e 21 de Fevereiro.

Pensado como complemento e contraponto à exposição Things Fall Apart que se apresenta na Galeria Avenida da Índia até 12 de março, o ciclo de filmes e os debates que o acompanham no Cinema São Jorge pretendem alargar, contextualizar, e, sobretudo, promover um debate local sobre os temas da exposição e da publicação dela decorrente.

Incluindo perspetivas que transcendem, mas se encontram associadas às lutas pela independência dos territórios africanos sob domínio colonial português e à relação íntima entre descolonização e democratização em Portugal, o ciclo de cinema pretende oferecer a possibilidade de se revisitar ou descobrir um conjunto de filmes que abordam de modo mais ou menos explícito as temáticas da exposição.

A exposição Things Fall Apart foi originalmente apresentada na fundação Calvert22 (Londres) em janeiro de 2016. Desenvolveu-se a partir de um seminário e foi alimentada por um grupo de discussão focado nas questões da solidariedade socialista, reunindo investigadores particularmente interessados nesta área (Polly Savage, Ros Gray, Nadine Siegert), na sua maioria a trabalhar em Londres. Adicionalmente, convidámos Milica Tomic para discutir a perspetiva jugoslava. Um programa de debates, eventos e visualizações de filmes em torno do fio condutor Red Africa (África Vermelha) foi organizado como parte da exposição. Este formato foi aprofundado por Nadine Siegert quando a exposição viajou para a Iwalewahaus em Bayreuth, na Alemanha. Aqui, o programa foi organizado com a colaboração de académicos da Academia de Estudos Africanos de Bayreuth e relacionado com a sua investigação sobre a iconografia da revolução e utopia socialista.

A exposição e o programa paralelo foram concebidos de modo a procurar incluir uma contribuição local em cada espaço de apresentação, de modo que na iteração alemã foram acrescentados dois artistas à exposição, além de uma reflexão sobre a relação da Alemanha de Leste com África. Na iteração de Lisboa, esperamos aprofundar a reflexão sobre o trabalho de artistas ligados aos espaços de língua (oficial) portuguesa, bem como explorar o legado pós-colonial em Portugal, dando especial atenção aos aspetos artísticos.

A publicação Red Africa, Affective Communities and the Cold War foi pensada como uma forma de apresentar o trabalho dos investigadores que contribuíram para as discussões em Londres e apresentações subsequentes. Na presente temporada de debates e apresentações de filmes no Cinema São Jorge, gostaria que nos focássemos, em particular, na noção de «comunidade afetiva». Ou seja, aquilo que nos liga enquanto curadores, artistas e investigadores é um investimento emocional no legado do comunismo e do socialismo em África.

-Mark Nash

Programa 20 de fevereiro:

11h – Visita à exposição THINGS FALL APART, Galeria Avenida da Índia, com Mark Nash

15h – Octobre (36’) / Rostov-Luanda (58’)

17h – Mesa-redonda: Red Africa, o Livro, A Exposição:

O painel reúne artistas e outros intervenientes que contribuíram quer para a exposição Things Fall Apart, quer para a publicação Red Africa, Affective Communities and the Cold War, a fim de proporcionar uma reflexão sobre o legado das relações culturais entre África, a União Soviética e os países da sua área de influência durante a Guerra Fria.

Participantes: Ana Balona de Oliveira, Ângela Ferreira, Nadine Siegert, Polly Savage
Moderador: Mark Nash
Sessão em inglês

19h – Black Sun (97’)

21h30: Teza (139’)

Filmes:

Octobre (1993, 36’) França
Realizador: Abderrahmane Sissako
Argumento: Abderrahmane Sissako, Gheorghy Rerberg
Produção: EJVA (Moscovo), La Sept Arte, ATRIASCOP
Montagem: Galina Galouchkina
Imagem: Gheorghy Rerberg
Som Larissa Choutova
Com: Irina Apeksimova, Wilson Biyaya
Legendado em inglês

Sinopse: O segundo filme de Sissako, feito quando era estudante na VGIK, a escola de cinema de Moscovo, é sobre a relação entre Ira, uma jovem mulher russa que trabalha num hospital, e Idrissa, um estudante africano em Moscovo. O filme segue as personagens nas suas vidas diárias, as experiências de racismo casual dos vizinhos, a cultura musical vibrante africana no metro e encontros arbitrários da vida cotidiana. Filmado num estilo semi-vérité, o filme reflete o humor um pouco desesperado das suas personagens: a partida iminente de Idrissa para a África aproxima-se e Ira decide esconder a sua gravidez.

Rostov-Luanda (1997, 58’) Angola, França, Alemanha, Mauritânia
Realizador: Abderrahmane Sissako
Produção: Morgane Films (Bélgica), Movimento Production, RTBF, ZDF
Montagem Claudio Martinez
Imagem Jacques Besse
Som: Paolo de Jesus, Jean-Jacques Quinet
Música: Man’ré
Legendado em inglês

Sinopse: Rostov-Luanda documenta a visita de Sissako a Angola na década de 1990, quando regressou ao país para tentar encontrar o seu amigo Baribanga. Quando chega, descobre um país e um povo completamente deslocado e desmoralizado por quase vinte anos de guerra entre as forças comunistas (particularmente cubanas) endossando o governo existente, a Organização do Povo do Sudeste da África (SWAPO) e a União Nacional da Independência Total de Angola (UNITA), esta apoiada por uma África do Sul que estava ao mesmo tempo envolvida na guerra da independência na vizinha Namíbia. A Guerra Fria tornou-se uma guerra quente em Angola e Rostov-Luanda narra o desencanto e o pessimismo que Sissako encontra tanto dentro dele como no país como um todo, um contraste dramático com o utopismo que a independência angolana representou para todo o continente.

Black Sun (Chyornoye solntse, 1970, 97’) URSS
Realizador: Aleksey Speshnev
Argumento: K.Kiselev, A.Speshnev
Produção: Belarusfilm
Imagem: Yuri Marukhin
Música: Lev Solin
Com: Ambroise Mbia, Nikolay Grinko, Gemma Firsova, Amponsah Sampson, Bob Tsymba, Rein Aren
Legendado em inglês

Sinopse: Drama histórico soviético sobre o destino trágico do primeiro-ministro congolês, Patrice Lumumba, o filme é criado como as memórias de duas pessoas que foram vítimas de intrigas políticas: o primeiro-ministro do país africano ficcional, Robert Musombe, e o assessor da ONU, Sr. Burt. Os eventos seguem em grande parte a crise do Congo nos anos 1960.

Teza (2008, 139’) Etiópia, Alemanha, França
Realizador: Haile Gerima
Produção: Negod Gwad Production
Montagem: Loren Hankin, Haile Gerima
Imagem: Mario Masini
Som: Stephan Konken, Umbe Adan
Música: Vijay Iyer, Jorga Mesfin
Com: Nebiyu Baye , Ludi Boeken , Takelech Beyene , Aaron Arefe , Mengistu Zelalem , Teje Tesfahun
Legendado em inglês

Sinopse: Etiópia, 1990. Anberber voltou para a sua aldeia com uma perna ausente e a cabeça cheia de fantasmas. Depois de emigrar na década de 1970 para estudar medicina na Alemanha, onde encontrou um racismo generalizado, deixando para trás uma Etiópia imperial sob domínio de Haile Selassie, Anberber regressa e encontra um estado socialista sob Menghistu Haile Mariam. O seu sonho é agora cuidar do seu povo, que sofre a dupla aflição da fome e dos regimes totalitários. Voltar permite-lhe fazer o balanço do caos político e social existente na sua terra natal. Por pouco evita ser linchado e busca refúgio na aldeia natal. Dentro de uma cabana, diante do fogo, percebe quão impotente é diante do colapso dos valores humanos.

Programa 21 de fevereiro:

11h – Mesa-redonda: Cinema, Utopia, Propaganda:

O painel tem como objetivo fomentar um debate sobre o papel do cinema no contexto das independências africanas, considerando, por um lado, o seu potencial emancipador e, por outro, os riscos de ser reduzido a um instrumento de propaganda.

Participantes: Alexander Markov, Margarida Cardoso, Raquel Schefer
Moderadora: Maria do Carmo Piçarra
Sessão em inglês

15h – O Regresso de Amílcar Cabral (31’) /African Rhythms (50’)

17h – Mesa-redonda: África, Socialismo, Guerra Fria:

O painel pretende contextualizar as relações entre as independências nacionais, as solidariedades socialistas, as comunidades afetivas e a guerra fria, a partir de experiências concretas e histórias de vida.

Participantes: José́ António Fernandes Dias, Júlio de Almeida “Jujú”, Luis Carlos Patraquim, Mamadou Ba, Manuel Alegre, Ondjaki
Moderadoras: Lívia Apa, Manuela Ribeiro Sanches
Sessão em português

21h30 – Mueda, Memória e Massacre (75’)

Filmes:

O Regresso de Amílcar Cabral (1976 31’) Guiné-Bissau, Guiné, Suécia
Realizadores: Sana Na N’Hada, Flora Gomes, José́ Cubumba, Djalma Fettermann, Josefina Crato Legendado em inglês

Sinopse: O Regresso de Amílcar Cabral é um filme coletivo que hoje é considerado a primeira produção realizada pelos cineastas guineenses após a libertação do colonialismo português em 1974. O filme documenta a transferência dos restos mortais de Amílcar Cabral, de Conacri (onde foi assassinado em janeiro 1973) para Bissau, em 1976. A cobertura intrigante do evento solene, gravações de canções guineenses e imagens de arquivo de Cabral durante a guerra de guerrilha criam uma homenagem a um excelente pensador político e lutador pela liberdade. De acordo com Sana Na N’Hada, o objetivo original do filme era pedir à diáspora guineense que voltasse à nação recém-libertada. Logo depois da estreia em 1976, o filme parece ter sido exibido em todo o mundo, mas até recentemente era um dos poucos vestígios da produção coletiva de filmes na Guiné-Bissau que ocasionalmente poderia ser encontrada em registos oficiais. A convocação do lamento neste filme é um gesto que provoca uma multiplicidade de retornos.

African Rhythms (1966, 50’) URSS
Realizadores: Irina Venjer, Leonid Makhnach
Legendado em francês

Sinopse: A canção que é cantada na alegre cidade verde de Dakar foi ouvida pela primeira vez na capital da República do Senegal no Primeiro Festival Mundial das Artes Negras, em 1966. Participaram delegados de 37 países do mundo. Pela primeira vez, culturas fraternas reuniram-se em grande escala em Dakar.

Mueda, Memória e Massacre (1979, 75’) Moçambique
Realizador: Ruy Guerra
Argumento: Calisto dos Lagos, Ruy Guerra
Produção: INC Moçambique
Montagem: Ruy Guerra
Imagem: Fernando Silva, Ruy Guerra
Som: Valente Diamonde, Gabriel Mondlane, Carlos Silva
Com: Filipe Gunoguacala, Romão Canapocuela, Mauricio Machimbuco, Baltazar Nchilema
Em colaboração com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
Legendado em português

Sinopse: Considerada a primeira longa-metragem de ficção da República Popular de Moçambique, o filme é, numa primeira leitura, uma recriação histórica dos acontecimentos de Mueda, onde a 16 de junho de 1960 soldados portugueses abriram fogo sobre uma manifestação, acabando por matar centenas de pessoas. O massacre é considerado como um dos fatores que espoletaram a luta anticolonial em Moçambique.

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Exposição Relacionada

Data
Título
Artistas
Curadoria
Galeria
07.12.2016
– 13.03.2017
RED AFRICA – Things Fall Apart
Alexander Markov, Ângela Ferreira, Burt Caesar, Filipa César, Isaac Julien, Jo Ractliffe, Kiluanji Kia Henda, Milica Tomić, Onejoon Che, Paulo Kapela, Museu da História Jugoslava, Travelling Communiqué, Tonel, Tshibumba Kanda-Matulu, Yevgeniy Fiks
Mark Nash
Galeria Avenida da Índia