A artista plástica Joana da Conceição concebeu o projeto Roda Viva com a participação de sete turmas do ensino básico e secundário do Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor. O resultado do processo criativo traduziu-se na edição de um livro.
Tudo está em contacto com tudo, e uma lenta circulação das matérias e dos sucos permite que todos possam viver muito para além dos limites dos seus corpos. Tudo respira, mas diversamente do mundo aéreo. O sopro dos corpos, aliás, não tem necessidade de passar por pulmões – nem por órgãos: todo o corpo é definido pela sua respiração, o corpo todo é um ponto aberto à circulação da matéria, por dentro e por fora. O organismo é simplesmente a invenção de uma maneira nova de se misturar com o mundo e de permitir que o mundo se misture no seu interior.
Emanuele Coccia
No momento atual estamos fechados no presente, como que entre dois muros, o do passado e o do futuro, e que ameaçam ruir sobre nós. Se por um lado as alterações climáticas nos privam do horizonte longínquo e da expectativa transformadora e positiva que nos habituamos a reconhecer ao futuro, do outro lado, o passado, na figura da História, ameaça-nos como um gigante zangado que não aceita que é, e sempre será, uma visão. A saída não é fácil, mas é possível. Uma ideia é fazer desses muros espelhos, e neles vermos o nosso reflexo, para assim compreendermos que para podermos ser a solução, temos primeiro que nos entender como parte do problema.
É preciso uma mudança estrutural em que todos têm de participar, uma mudança que desafie e transforme a nossa visão do mundo e as convenções culturais que erradamente considerámos como naturais. Precisamos de novos pontos de vida, de novas formas de viver no mundo, viver o mundo, ser o mundo.
Este projeto pretende pensar essa mudança, lançar-se sem medo na liberdade de procurar e experimentar novas formas de refletir e interagir com o mundo.
Foram escolhidos três temas que se consideram fundamentais para esta mudança: o antropocentrismo, o conhecimento situado, e a transiência. Tendo como referência estes três grandes temas, iremos identificar, nos conteúdos programáticos de diferentes disciplinas, subtemas que se enquadram na reflexão pretendida. Esta conjugação com os conteúdos programáticos das disciplinas pretende, por um lado, valorizar os conteúdos lecionados na escola, demonstrando a sua ligação à própria vida dos alunos – conteúdos estes, que inclusive, podem vir a converter-se em ferramentas determinantes na formação de novos pontos de vida dos alunos; enquanto por outro lado, pretende relevar e promover a prática de um pensamento expandido, que dissolva as fronteiras das disciplinas e que crie vínculos entre as diferentes áreas de estudo, e os diferentes alunos, de forma a fomentar uma aproximação holística ao conhecimento e a cooperação entre diferentes indivíduos com vista a um objetivo comum. Os conteúdos tratados por determinado grupo de alunos irão constituir o ponto de partida para a especulação teórica e prática daqueles conceitos por parte de outros grupos de alunos, e assim sucessivamente, formando fluxos de pensamento vivo.
Foram abordados conceitos chave que fundamentam a identidade do ser humano, explorando e reconsiderando os limites, ou as fronteiras, do Eu, usando o nosso próprio corpo e contexto como referência.
Todo este processo, com as suas diferentes etapas, pretende expor os alunos, de forma envolvente, ao processo criativo por detrás da conceção de uma obra de arte.
Antropocentrismo
É necessário questionar o antropocentrismo e a primazia humana na tradição ocidental e no contexto sociocultural actual e procurar integrar o ser humano em sistemas de vida mais amplos e complexos que contemplem o mundo não humano, promovendo desta forma a sensibilização ecológica e abrindo espaço para que novas, e mais justas, formas de existir possam ser exploradas.
Neste projeto queremos evidenciar a interdependência entre o sujeito e o meio, para isso iremos desconstruir conceitos estruturais à nossa visão do mundo, nomeadamente os conceitos de fronteira e de limite.
Conhecimento situado
Desconstruir a lógica de progresso inevitável e indubitável, questionar dogmas culturais fundamentados em representações dominantes da história que herdamos e entender o passado como um terreno sempre aberto à interpretação. Desta forma propõe-se interagir com discursos e representações dominantes e normativos e criar espaços de oposição analíticos e culturais, descobrir conhecimentos subjugados, resgatar histórias alternativas, identificar casos cuja percepção foi amplamente transformada ao longo do tempo.
Transiência
A exploração do conceito de transiência conduz-nos no caminho da reflexão sobre a nossa própria existência. A consciência do carácter transitório da nossa existência e da fugacidade da vida, pode ajudar-nos a compreender-nos a nós próprios enquanto parte integrante de sistemas mais amplos, e consequentemente a reformular a nossa visão do mundo. Pode inclusive, desafiar as nossas convenções antropocêntricas e egocêntricas.
Iremos usar da nossa imaginação e dos nossos sentidos para nos entendermos como parte integrante de um todo, e entendendo os outros organismos como parte de nós.
Joana da Conceição (Rebordões, 1981), vive e trabalha em Lisboa. O seu pensamento e prática desenvolvem-se em pintura e música, e as apresentações públicas do seu trabalho volvem entre as duas.Concluiu a Licenciatura em Artes Plásticas – Pintura em 2004, e o Mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas em 2008, ambos pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Juntamente com André Abel formam desde 2005 a Tropa Macaca, duo de composição eletrónica contemporânea.Foi distinguida com o Prémio Anteciparte Millenium BCP (2005) e vencedora da 5ª Edição da Parceria Atelier-Museu Júlio Pomar/ EGEAC e RU – Residency Unlimited, NY (2020). Bolseira Inov-art no Rio de Janeiro, no Capacete Residências Artísticas (2010-2011), participou nas Residências da ZDB (2011) e na Residência Artística Lagamas promovida pela Cournelius Foundation (2013). Em 2018 integrou Toda Matéria, um coletivo multimedia que se apresentou ao vivo na Galeria Lehman+Silva, no Porto, no Resident Advisor: Lisa na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, e no OUT.FEST, no Barreiro.