Prospecto

André Guedes

Catálogo da exposição Prospecto. Princípio, Meio e Ultimação, de André Guedes, que esteve aberta ao público na galeria Pavilhão Branco no início de 2017. Intitulado Prospecto, este projeto editorial congrega um conjunto de diálogos e textos de autores que contribuíram para a reflexão e trabalho de André Guedes, nomeadamente William Morris, E. M. de Melo e Castro, Fiama Hasse Pais Brandão, Domingos Vaz e Richard Sennett, entre outros. Edição partilhada entre as Galerias Municipais e o artista, com design de Ana Baliza e o apoio da Fundación Botin.

“O tempo livre, na sua dimensão social e política, dentro e fora da fábrica: como foi, como é, e como poderá ser? Não só o dos que trabalham na indústria, mas em todas as unidades produtivas que fazem – ou fizeram – parte do processo de desindustrialização que se projecta desde o último quartel do séc. XX até hoje.
Este inclui, inevitavelmente, um “outro” tipo de tempo livre não desejado: o do desemprego e da precariedade dos contratos de trabalho, reflexo da alteração dos meios e processos produtivos. O tempo livre será, por isso, também resultado destes factores, e de condições históricas, sociais, culturais e de classe; sendo entendido, quase sempre, com oposto de trabalho, e, no entanto, inevitavelmente dele dependente. Falar de tempo livre, é por isso, indestrinçável de falar de trabalho.”
–André Guedes

“Assim a nossa fábrica, além de fornecer bens úteis à comunidade, irá proporcionar aos seus próprios trabalhadores uma carga horária leve, e um trabalho de espécie não opressiva, educação na infância e juventude. Uma ocupação séria, momentos divertidos de descontração, e mais tempo de descanso para o lazer dos trabalhadores, bem como a beleza das áreas envolventes, e o poder de produzir beleza, os quais serão seguramente reivindicados por aqueles que têm tempo livre, educação e uma ocupação séria.”
–William Morris

“O espectador dentro e fora do Pavilhão assume duas perceções e registos diferentes: dentro da sala, atua como um corpo que deambula e se relaciona com as peças a partir de uma proximidade material; no exterior, corresponde a um olho-câmara que estabelece com o espaço uma visão cinematográfica. Transferindo-nos para a esfera artística e política de Morris e do seu desejo de estabelecer um espaço comum e indissolúvel entre a produção material e o usufruto estético, as categorias e os modos estanques da arte antecipam já nesse momento um processo de desativação para realizar novas configurações que, bem sabemos, não começaram a libertar-se senão a partir da segunda metade do século passado. Nesta perspetiva, a primeira Cena de Prospecto afirma-se como um espaço intersticial que amplia arquitetura, escultura e proto-cinema, expandindo e redefinindo cada uma dessas categorias para representar um território “outro”.”
–Juan Nieves

“Estas considerações sobre a função do design na sociedade e sobre a integração sociológica das possibilidades e limitações da tecnologia da produção dos têxteis poderão, muito em breve, vir a ter ainda mais razão e acuidade que até aqui. Somos levados a pensar, assim, perante a crise de energia e o problema do petróleo, desencadeado nos últimos meses, com proveito obvio para as potências não-europeias.”
–E.M. de Melo e Castro

“O campesinato e o operariado não exigiram ainda com vitalidade
o conhecimento, o prazer do conhecimento, o prazer do prazer.”
–Fiama Hasse Pais Brandão

“A Covilhã constituiu-se no contexto do país como uma cidade enclave industrial, como um “ilhéu da industrialização” situado no interior montanhoso (Vilaverde Cabral, 1988, 179) e, para utilizarmos ainda outra noção expressiva, como cidade-fábrica, com uma imagem emblemática determinada e modelada em estreita associação com a indústria dos lanifícios que, desde tempos recuados, moldou o tempo e o espaço da cidade.”
–Domingos Vaz

“Tal como acontece com os rituais, o triangulo social é uma relação social que as pessoas estabelecem entre si. Na Oficina dos artífices, esta relação tripla é muitas vezes experimentada fisicamente, de forma não-verbal: os gestos do corpo ocupam o lugar das palavras para demonstrar autoridade, confiança e cooperação. Para fazer com que os gestos corporais comuniquem, são necessárias aptidões, como o controlo muscular, mas o gesto também socialmente relevante por outra razão: o gesto físico transmite uma sensação informal às relações sociais. Os sentimentos viscerais também surgem quando gesticulamos, informalmente com palavras.”
–Richard Sennet

“Amanhã paramos a produção, numa contradição direta ao dogma outrora dominante que diz que a sede de produção deve secar o trabalhador, obrigando o local de trabalho a despedaçar-se, ficando areia. Ao contrário, defendemos que, ao reduzir a produção a zero, surgirá a nossa solidariedade, fluida como um jardim. O tempo chegou àquele ápice quando reconhecemos a necessidade da fábrica acima de tudo, e caímos para trás na história; um tempo monumental como nunca mais voltaremos a ver.”
–Nathan Jones

“Os dois textos seguintes foram escritos a quatro mãos e em simultâneo, numa metodologia cruzada e simétrica. Como se fabricassem dois tecidos, Rui Lopes e Emília Margarida Marques urdiram cada um uma fala inicial (uma teia) a partir das suas distintas posições de interlocução (design têxtil; antropologia do trabalho e da técnica), compuseram depois uma trama dirigida à teia proposta pelo interlocutor, finalmente, reagiram à trana que era proposta, assim iniciando uma conversa.”
–Rui Lopes e Emília Margarida Marques

“André Guedes convidou-me para escrever um texto-diálogo a partir de um momento concreto do ciclo Prospecto, a Cena III, essencialmente constituída pelo filme Planalto/Circulo Aberto Ritmo Liberto (…) À cumplicidade com o André, afetei a cumplicidade com Fernando Matos Silva, cineasta. (…) Em casa de Fernando, conversamos sobre vários temas assuntos curiosidades, interrogações. Reescrevi esta conversa a partir de um conjunto de excertos selecionados (…) seguindo uma vontade dos seus participantes em conversarem.”
–Luísa Veloso e Fernando Matos Silva

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