Passado

2018

Inner 8000er

João Marçal
Artistas João Marçal
Curadoria Sara Antónia Matos / Pedro Faro
Data De 01/08/2018 a 30/09/2018
Folha de Sala

As Galerias Municipais apresentam a exposição individual de João Marçal, “INNER 8000er”, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, no Pavilhão Branco, dando continuidade a uma programação que procura dar a conhecer o trabalho de artistas com um percurso já consolidado no âmbito da arte contemporânea.

A exposição “INNER 8000er”, de João Marçal, mostra uma seleção de pinturas, de vários formatos, realizadas ao longo de vários anos, algumas recentes e inéditas.

Expondo o mundo como um lugar de imagens estereotipadas, que se repetem de um modo quase mecânico e circular, nomeadamente logótipos e padrões, sem significados aparentes ou funções autênticas, o artista manipula e desconstrói essas imagens – ampliando-as, fragmentando-as, tornando-as abstratas através da sua pintura e fazendo delas desafios ópticos que se impõem ao olhar. Formas, composições e imagens abstratas, cada uma das suas obras implica um extraordinário desafio em busca de pistas iconográficas, quase no limite poético do absurdo, onde muitas vezes a arte tem algo a dizer, a acrescentar e a dar a ver.

Para esta exposição, no Pavilhão Branco, João Marçal escolheu o título “INNER 8000er”. No planeta Terra, existem 14 montanhas com mais de oito mil metros de altitude – as “Eight-thousanders” –, todas localizadas nos Himalaias e no Karakoran, na Ásia. Escalá-las é um feito conseguido por muito poucos, porque montanhas com mais de 8.000 metros de altitude estão situadas acima daquilo que é designado como limite vertical, ou seja, o limite até onde um ser humano pode sobreviver. A escassez de oxigénio aliada às baixas temperaturas, a ventos fortes e a dificuldades técnicas fazem com que ascensões deste tipo tenham uma taxa de sucesso muito reduzida e percentagens de fatalidade elevadas. Acima dos 8.000 metros, a vida é limitada a pouco, a pouco tempo, e poucos conseguem chegar ao cume de todas estas montanhas.

Um dos eixos dos últimos trabalhos de João Marçal é, justamente, o seu crescente interesse por alpinismo e montanhismo de altitudes extremas (himalaísmo) – admiração que se reflecte na sua obra através da comparação que o artista estabelece entre a figura do alpinista e a do artista. A estas duas figuras são comuns a entrega ao desconhecido, a perseguição de um objetivo que não tem propriamente uma função palpável ou um limite concreto: o desejo de chegar onde é difícil, onde supostamente não podemos ou devemos estar, de desafiar o que existe. A metáfora «montanha» tem sido de facto materializada por este artista, nomeadamente em séries anteriores, que cruzam referências da pintura e nomes do alpinismo. Para além dessas correspondências, o título «INNER 8000er» aponta para uma associação directa entre a ideia de escalada e pintura. Segundo o próprio artista «há sempre uma camada em todos os meus trabalhos que remete para um pensamento sobre a própria pintura, quase como uma análise genética do próprio medium, sempre presente, intrínseca a toda a prática.»

Para Marçal, a ideia de uma montanha interior de 8000 metros, ou seja, no âmago de um ser humano, implica um «choque de dimensões». Apesar de «sermos complexos e enormes no nosso interior», os maiores picos dos Himalaias nunca caberiam fisicamente dentro de uma pessoa. Assim, pode dizer-se que esta analogia é de ordem simbólica, psicológica e conceptual – oferecendo ao artista um desafio de ordem epistemológica e pictural.

– De que modo pode um artista traduzir na sua obra esta busca vertiginosa sobre as possibilidades e impossibilidades da pintura?

«Um dos pontos sobre o qual tenho refletido e insistido muito ultimamente é sobre o(s) espaço(s) da pintura, o momento em que esta deixa de ser um objeto físico no lugar que ocupa e passa a ser um espaço noutro lugar, outra coisa, outras coisas. Nós também estamos “presos” a uma evidência física (corpo/coisa) que nos influencia as experiências e o rumo, mas somos sempre muito mais do que isso, estamos sempre noutros sítios.»

A pintura tem também a sua espécie de «Inner 8000er».

Biografia

João Marçal (Coruche, 1980), atualmente vive e trabalha em Lisboa.

É licenciado em Pintura (2004) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Em 2008, obtém o grau de Mestre em Práticas Artísticas Contemporâneas, pela mesma Faculdade.

Desde 2003 apresenta regularmente a sua obra em exposições individuais e coletivas, em contexto nacional e internacional. Das últimas exposições individuais destacam-se: Remote, Caribbeing House, Brooklyn (EUA), 2017; IVRE com Jérémy Pajeanc, Ar Sólido, Lisboa, 2017; Lhotse Summit, Octroi, Tours (FR), 2015; Quarto, Galeria Braça Brandão, Lisboa, 2015; Goin’ Blind, Parkour, Lisboa, 2014; We’re All Alone, Galeria Adhoc, Vigo (ES), 2013; D.ª Maria Amélia, Galeria Nuno Centeno, Porto, 2012. Colaborou em mostras coletivas e desenvolveu projetos individuais para espaços independentes como: Salão Olímpico, PêSSEGOpráSEMANA, IN-TRANSIT, Laboratório das Artes, Mad Woman In The Attic, Espaço Campanhã, Espaço Avenida, Maus Hábitos, A Certain Lack of Coherence, Espaço Mira, Parkour e Sismógrafo.

Em 2017, o Atelier-Museu Júlio Pomar/ EGEAC, em parceria com a RU – Residency Unlimited, NY, selecionaram João Marçal para realizar uma residência na instituição nova-iorquina.

Em 2005, com o pseudónimo Marçal dos Campos, inicia um projeto na área da produção musical, que desenvolve paralelamente à atividade como artista plástico.

Entre outras, a sua obra está representada na Colecção Núcleo de Arte Contemporânea da CML.