Almost Blue

Maria Trabulo

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As Galerias Municipais apresentam Almost Blue, exposição individual de Maria Trabulo, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, na Galeria da Boavista, continuando, neste espaço, um ciclo de várias exposições individuais de artistas emergentes no contexto da arte contemporânea portuguesa que se iniciou com João Gabriel, Alice dos Reis, e que continuará com Mariana Caló e Francisco Queimadela (Janeiro – Março 2019), Sara Chang Yan (Junho – Setembro 2019) e Adriana Proganó (Setembro – Dezembro 2019).

Mais do que uma canção de Chet Baker que Maria Trabulo ouviu infinitamente no decorrer do final de 2016, enquanto experimentava, no seu ateliê em Viena, as possibilidades de pintar com água do mar sobre tecido, Almost Blue, ou “quase azul” ou “fast Blau”, tem sido uma resposta recorrente quando a artista interroga diferentes pessoas acerca da cor do mar.

Nas palavras da artista, Almost Blue desenrola-se em torno de uma possibilidade de definição da cor do mar, não buscando necessariamente uma conclusão definitiva mas exclamando precisamente as suas diferenças e contrariedades a um consenso universal.
Ir além do azul é pedir aos inquiridos que definam o mar para além da sua aparência formal, procurando alcançar a experiência pessoal de cada um com o mar o ou oceano, e deste modo, assuntos e acontecimentos do foro político e social da história e geopolítica mundial dos nossos dias. A acção, ou ponto de partida, de Maria Trabulo situa-se, assim, em zonas costeiras, onde hajam – por via das fragilidades dos limites estabelecidos – pontos de partida e chegada, fricções políticas e sociais, ou seja, zonas de contacto ou fricção, que servem como dispositivo à artista para criar novas formas de ver e de pensar as relações entre as pessoas e entre as pessoas e o território.

Almost Blue mostra-nos várias obras escultóricas, quase todas inéditas, que surgem de uma extensa investigação e trabalho de Maria Trabulo, realizada desde 2014, sobre uma possibilidade de definição do mar, elaborada a partir de contextos políticos tão diversos como as trágicas migrações no Mediterrâneo, a crise financeira dos últimos anos nos países do Sul da Europa, ou as mais recentes lutas activistas em torno das questões ambientais subjacentes à exploração de petróleo no território marítimo português, nomeadamente na zona de Aljezur.

– Sara Antónia Matos e Pedro Faro, curadores

ALMOST BLUE: notas sobre o projecto escritas por Maria Trabulo
2018

Os Gregos antigos não possuíam uma palavra referente a azul, pelo que Homero se referia à cor do Mar Mediterrâneo e do Mar Egeu como cor de vinho escuro ou cara de vinho (oinos pontos). O passado cultural e linguístico e a experiência pessoal de Homero com o mar influenciaram-no a escolher essas como sendo as palavras que melhor definiriam a cor do mar. “Almost Blue” parte desta presunção para assim traçar o significado do mar numa memória colectiva, através da recolha de relatos pessoais em zonas costeiras.

“Almost Blue” tem início em The Walk is easy with the feet on the Ground, uma obra em formato de jornal que publiquei em 2014 a partir de imagens que recolhi de webcams pertencentes a resorts situados em zonas do Mediterrâneo (Grécia, Itália, Sul de França, Sul de Espanha) com grande afluência migratória oriunda do Norte de África. Nesse período, vivia entre a Áustria e a Alemanha, e tive particular curiosidade pelas webcams desta região. A situação migratória estava longe de ser um assunto de primeira página; ninguém falava no assunto. Em contraste com esta situação, eu vivia na Europa, supostamente na outra margem.

O objectivo das várias webcams instaladas era o de permitir aos hóspedes dos hotéis e resorts consultar o estado do mar e da praia. Os planos de filmagem mostravam sempre uma vista do horizonte, sendo que as câmaras pareciam servir, ao mesmo tempo que propósitos de controlo das condições atmosféricas e do estado do mar, também para prevenir a chegada de barcos com refugiados. Sabe-se de vários casos de embarcações que, naufragando muito perto da costa, largam os seus ocupantes que nadam até à margem e chegam a praias plenas de turistas europeus:
(https://www.google.pt/h?q=migrants+arrive+in+beach&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjfmNKVlMLaAhWJchQKHfl3APgQ_AUICigB&biw=1396&bih=668).

Nunca tinha estado no Mediterrâneo, nem visto esse mar antes. Fui atraída pela paisagem e pelos ângulos de filmagem que as webcams definiam e transmitiam. A cor deste mar variava de câmara para câmara, tornando-se difícil perceber qual era a sua cor exacta: quase azul, ou entre o azul e o verde, diferente da cor do Atlântico Norte que tão bem conhecia.

Um ano após a publicação de The Walk is easy with the feet on the ground fui à Calábria, região no sul de Itália, no âmbito de uma residência artística. Conheci Maristella, uma assistente social que trabalhava no centro Speranza, responsável por acolher jovens refugiados oriundos do Norte de África e da África Subsariana. Tomando conhecimento do meu trabalho, Maristella pediu-me que interagisse com os rapazes acolhidos pelo centro, pensando que isso os poderia ajudar a lidar melhor com a situação em que se encontravam, e com o trauma sofrido pela travessia do Mediterrâneo.

presença se tornasse invasiva ou desconfortável, sobre situações da vida de cada um que fossem mais memoráveis ou felizes. Apresentei-me então como sendo a Maria, uma artista natural de Portugal. Expliquei-lhes, um a um, em que consistia o meu trabalho enquanto artista e falei-lhes da publicação que tinha feito em 2014, e de como naquela altura, ao ver aquelas imagens de webcam, me lembrara de jovens como eles, da sua travessia daquele mar para chegar àquelas margens da Europa. Foi a partir dessas conversas iniciais que chegámos à tentativa de definir a cor do mar, que tanto me intrigara antes. Surgiram conversas e relatos, moderados e possibilitados pela Maristella, que ajudou como tradutora e intermediária, via e-mail, skype, telefone e carta. Aqueles jovens rapazes descreveram o que no seu entendimento pessoal seria a cor do mar que os levara até ali. Surgiram definições tão diversas como: a cor do luar, a cor de um grande peixe, a cor de uma enorme onda negra que quase virou o barco, ou, ainda, por distinção, que na Líbia é negro e em Itália azul, talvez por referência ao início da travessia durante noite e a chegada à costa europeia durante o dia. A luz do dia facilita os resgates em caso de SOS.
Perguntar a cor do mar tornou-se uma forma de desbloquear conversas em situações desconhecidas, possibilitando o iniciar de uma – por vezes fugaz, por vezes duradoura – ligação e entendimento com os que habitam zonas costeiras, que muitas vezes presenciam tensões sociais ou políticas. Esta acção foi entretanto alargada a outros locais como Creta, onde a cor do mar assumiu o espectro cromático da crise económica, e Portugal, onde adquiriu a cor da resistência.

O começo habitual de cada conversa surge, primeiro, com uma reacção de espanto com a pergunta, levando a que normalmente o inquirido aponte para o mar e exclame: “Claro que é azul, não vês?”. Até ao momento em que lhes peço para que observem um pouco melhor e, depois, acabam por me dizer: “É quase azul”. Então a conversa aprofunda.

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No Verão de 2018, numa extensão do projecto original, tendo contactado vários intervenientes envolvidos em questões ambientais, Maria Trabulo deslocou-se a Aljezur, mais precisamente a 25 milhas náuticas ao largo da praia da Arrifana, para realizar uma filmagem de 360º da localização prevista para a instalação da plataforma petrolífera de extracção offshore (furo de Aljezur), actualmente alvo de disputa entre os cidadãos, o governo português e empresas petrolíferas:

“Para além da questão ambiental, o que me motivou acima de tudo a alargar o projecto para o sul de Portugal, foi o facto de a exploração de combustíveis e minerais fósseis no país, e particularmente naquela região, colocar em questão os princípios e direitos democráticos dos cidadãos.

Em Aljezur, a expressão “ir à luta” soa diferente. As palavras guerra, batalha, frente, luta, sofrer, fazer frente, não desistir, derrubar, ecoavam nas conversas e reuniões entre activistas, ambientalistas e políticos. Ali, junto à ponta de Sagres, pensa-se a batalha ou resistência. E contam-me que há dias em que o vento é tão forte que é capaz de levantar as finas partículas de sal da água e da areia, que depois se espalham pela região e cobrem casas, carros, plantações, de pó branco”.

Maria Trabulo

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