Corpo radial

Mariana Caló & Francisco Queimadela

corpo radial galerias municipais capa
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Em 2015, Mariana Caló e Francisco Queimadela criaram uma primeira imagem da “Sala da Memória”, inspirada nas gravuras dos “Teatros de Memória” de Giulio Camillo Delminio (1480-1544) e de Robert Fludd (1574–1637). Ambos os autores se dedicaram a pensar em estruturas físicas que pudessem corresponder, mediante a sua utilização, à arte da memória, conhecida desde a Grécia Antiga pela técnica de criação de imagens mentais, associando coisas a lugares dispostos ao longo de um edifício recriado ou imaginado mentalmente (mnemotécnica).

Para esta exposição, Caló e Queimadela transformam o espaço expositivo em espaço de memória: um volume atmosférico de cor e luz intensas que prepara e propicia um encontro íntimo com as várias peças. À semelhança do que acontece com as imagens nos teatros de memória, estas peças já não correspondem a extracções de impressões do mundo sensível pelos sentidos, pertencendo, antes, ao mundus imaginabilis, do qual expressam ligações mágicas operadas pelos artistas.

Em simultâneo, o corpo, que descobre este espaço, fá-lo desde o interior da sua mente, das suas próprias associações de imagens, encontrando naquelas que vê em seu redor o que os olhos não vêem e que está escondido nas profundezas da mente humana. Para Camillo e Fludd, o teatro da memória continha esta possibilidade oculta, talvez por poder reunir o universo e o homem em todas as suas declinações, gestos, movimentos e palavras, de desvelar os inúmeros caminhos que a mente percorre, dos mais belos e sublimes aos mais terríficos e tenebrosos.

Esta hipótese concretiza-se, ainda, num espaço reminescente dessa primeira gravura: uma peça tridimensional, concebida em específico para a exposição, que envolve o corpo, que a habita por momentos, delicada e intimamente, permitindo-lhe centrar-se em si mesmo, e, simultaneamente, desvelar as memórias que carrega em si, tornando-se em objecto primordial de referência e memória.

Corpo radial expõe essa espiral que o corpo vai tecendo dentro e fora de si e sobre a qual se desdobra nas suas múltiplas metamorfoses e complexas deambulações pela espessura do tempo que atravessa cada imagem em qualquer arte da memória, questionando-se, por último, sobre a sua própria finitude ou intemporalidade.

-Susana Ventura, Curadora

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