Escutar as Águas – Obras da Coleção Schneider e de Artistas Portugueses

Akmar, Benoît Billotte, Fernando Calhau, Alberto Carneiro, Yves Chaudouët, Etienne Cliquet, Laurent Faulon, Antoine Gonin, Elizaveta Konovalova, Mehdi Meddaci, Gustavo Millon, Carlos Nogueira, Benoît Pype, Ângelo de Sousa, Francisco Tropa

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Coincidência de opostos: recurso vital e motivo de conflitos mortais; lugar de viagem esperançosa e cemitério vergonhoso de abandonados; ameaça natural ao homem e irremediavelmente ameaçada por ele; símbolo de vida e de morte; imagem do tempo que passa, escapando-nos, e da eterna fonte original, útero maternal…

É sobre este estatuto paradoxal das águas que a exposição “Escutar as Águas” se debruça. Cruzam-se obras da Coleção François Schneider (França), que definiu a água como tema, com obras de artistas portugueses e com filmes, documentos, livros e objetos que nos permitem aproximar da complexidade do elemento e da atualidade do seu impacto político.

Esta exposição é uma proposta a que não permaneçamos na margem, num alheamento falsamente seguro, mas que nos lancemos na corrente, conscientes de que estamos já embarcados. Há uma sabedoria e força plástica na água que é preciso escutar. Na água, ou melhor, nas águas: porque é na pluralidade de formas e estados que ela se manifesta – e essa é já uma lição.

Na Galeria do Torreão Nascente da Cordoaria Nacional a exposição divide-se pelos dois pisos respetivamente. Apresentando-se por núcleos temáticos. No piso zero encontramos a exposição dividida pelos seguintes temas:

– Da origem:

Nos mitos fundadores de várias civilizações, a água surge como a origem da vida: como a causa ou o lugar do seu aparecimento, como sémen ou útero maternal.

Na mitologia grega, Afrodite – deusa do amor, da sexualidade, da beleza – nasceu quando Cronos cortou os órgãos genitais de Urano e arremessou-os no mar; da espuma (aphros) ergueu-se Afrodite. Noutro mito, conta-se que Dânae foi enclausurada pelo pai num lugar escondido do mundo, para que não se cumprisse a profecia do oráculo que lhe revelou que ele seria morto pelo seu neto. Dânae, mesmo presa e solitária, será fecundada pela chuva dourada enviada por Zeus, que se apaixonou por ela.

Estes mitos revelam a relação ancestral entre a sexualidade, a fecundidade e a água: ela é fonte, o líquido amniótico, a origem do mundo.

– Da Plasticidade:

A rigidez e a inflexibilidade são o oposto da vida – que exige a plasticidade, o incessante movimento.

A água molda o mundo, e é moldada por ele. É essa dupla aceção de plasticidade, a capacidade de moldar e de ser moldado, que encontramos nestes núcleos, e que a água nos ensina – se a soubermos escutar. A água vai formando, com paciência e persistência, o território, alterando os leitos, as margens e a forma da costa marítima – água mole em pedra dura…

A água é informe. Flui: separa-se, irradia, bifurca, abre caminhos onde antes não existiam, forma imagens, cria desenhos e apaga outros. Dá origem a formas de vida inesperadas. É a potência, a vida que se dispersa e reúne e adapta, em perpétuo movimento.

A água sabe dançar.

O piso superior da galeria tem como tema:

– Do tempo:

“Ladrão cristalino” foi uma expressão usada na época barroca para definir o tempo, e compará-lo ao rio que corre, à vida que passa e nos é roubada.

Se o tempo é como o movimento permanente das ondas do mar, a suspensão desse movimento assume uma estranheza próxima daquilo que definimos como eternidade. Sem princípio nem fim.

Nestes núcleos, as obras permitem perceber o tempo de várias formas: o tempo como movimento universal, repetição e alteração; o tempo suspenso, que se assemelha à eternidade; e o tempo como viagem em direção ao futuro – futuro que é o tempo primordial, a partir do qual os outros, passado e presente, são compreendidos.

Estamos já embarcados!

– Paulo Pires do Vale, curador

A Fundação François Schneider
Fundação filantrópica, criada em 2000 e reconhecida como utilidade pública em 2005, a Fundação François Schneider persegue um compromisso duplo com a educação e a cultura. Através da distribuição de bolsas permite que jovens frequentem o ensino superior e apoia artistas contemporâneos no desenvolvimento de suas carreiras. Localizada na vila de Wattwiller, em França, incentiva a criação através de várias iniciativas dedicadas ao tema da água, incluindo um concurso internacional, a aquisição de obras para a sua coleção e a organização de exposições temáticas no seu centro de arte contemporânea. A sua atividade é ainda complementada por publicações, empréstimos, exposições itinerantes e um programa para jovens artistas de escolas ao longo do Reno.

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Programa Público

Data
Título
Com/de
Categoria
Local
20180707
07.07.2018
Visita guiada por Paulo Pires do Vale – Escutar as Águas
Paulo Pires do Vale
Visita Guiada
Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
20180721
21.07.2018
Visita guiada por Sara Barriga Brighenti – Escutar as Águas
Sara Barriga Brighenti
Visita Guiada
Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
20180908
08.09.2018
Visita guiada por Paulo Pires do Vale – Escutar as Águas
Paulo Pires do Vale
Visita Guiada
Torreão Nascente da Cordoaria Nacional