Espelho

Rui Sanches

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A obra de Rui Sanches (Lisboa, 1954) tem vindo a desenvolver-se, ao longo dos últimos 35 anos (a sua primeira exposição individual em Portugal teve lugar em 1984) como uma extensa reflexão em torno de três questões fundamentais: a relação da criação moderna e contemporânea com a história e as diferentes linhagens que se foram definindo, a possibilidade de pensar a questão do ponto de vista do espectador e o recorrente problema da relação da arte com o mundo, seja por processos de re-significação, de relação com o contexto, de citação ou paráfrase de obras referenciais da história da pintura, ou pelo léxico de materiais utilizado.

Rui Sanches, que começou o seu percurso pela pintura, no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, veio a centrar-se na escultura a partir da sua formação no Goldsmiths’ College de Londres (onde estudou entre 1977 e 1980), interesse reafirmado nos dois anos seguintes em que estudou na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, para além de uma prática sistemática e reiterada de desenho. A exposição Espelho está, assim, dividida em dois volantes: aqui, no Torreão Nascente da Cordoaria, é apresentada a sua obra em escultura, enquanto que no Museu Berardo, com curadoria de Sara Antónia Matos, o foco é colocado na sua produção em desenho.

A escultura, para Rui Sanches, reflete as grandes transformações que a arte sofreu no longo e sinuoso caminho da modernidade. Nesse sentido, o seu trabalho escultórico merece ser compreendido como uma extensa reflexão sobre os problemas da escultura ou, mais genericamente, sobre as transformações da estatuária em escultura e desta em tridimensionalidade ou ainda desta última em ambiente que marcaram o último século e meio.

Com a sua formação realizada entre o final da década de 1970 e o início do decénio seguinte, Rui Sanches desenvolveu um corpo de trabalho que espelha uma dualidade: por um lado, as suas influências situam-se na arte do seu tempo, nomeadamente nas vanguardas, mas por outro, a descontinuidade em relação à história da arte confronta-se com a continuidade de temáticas e problemas de representação. A questão mais relevante para uma abordagem atual da obra de Sanches, é que o reencontro com a história é estruturante, sobretudo porque essa história da arte é sobretudo uma história das imagens artísticas, ancorada, pelo menos no seu início, na história da pintura.

A exposição encontra-se estruturada da seguinte forma: iniciando-se com três obras recentes (e uma das quais especificamente concebida para esta ocasião) é proposto um mergulho no seu trabalho da década de 1980, nomeadamente através das esculturas que parafraseiam, a três dimensões, pinturas de Poussin e David, desconstruindo-as. São aqui também apresentadas obras do início do percurso de Sanches, inéditas até agora em Portugal. Essa lógica é continuada na primeira sala do piso superior. Na sala seguinte é colocado um foco sobre o recurso a uma categoria específica da história da estatuária, o busto – e a sua relação com o retrato. Por fim, na última sala, o corpo, o toque e o caráter háptico da escultura conduzem a deambulação do espectador.

Entre o caráter orgânico e a desconstrução, o uso de materiais “pobres” e industriais e a manufactura, entre a referência a modelos da história da arte e a pesquisa abstracta, a exposição pretende, assim, dar conta da complexidade – e também da grande coerência – do percurso de Rui Sanches.

A sua obra é, portanto, um espelho da escultura e da relação desta com a imagem e nesta reflexão é investido um processo de resignificação que nos convoca como o seu outro através de uma consciência sempre presente dos mecanismos da exposição e os dispositivos perceptivos, fenomenológicos e estéticos das linhagens artísticas. Por isso é um espelho.

– Delfim Sardo, Curador

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Programa Público

Data
Título
Com/de
Categoria
Local
20191019
19.10.2019
Encontro “Espelho”
Rui Sanches e Manuel Aires Mateus
Visita Guiada
Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
20191116
16.11.2019
Encontro “Espelho”
Rui Sanches e Maria Filomena Molder
Visita Guiada
Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
20191214
14.12.2019
Encontro “Espelho”
Rui Sanches e Bruno Marchand
Visita Guiada
Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
20190929
29.09.2019
Visita guiada com Rui Sanches e Delfim Sardo
Rui Sanches, Delfim Sardo
Visita Guiada
Torreão Nascente da Cordoaria Nacional

Jornal

Data
Título
Autor
05.05.2020
Entrevista no âmbito da exposição “Espelho”
Pedro Gonçalves (Galerias Municipais), Rui Sanches

Publicação

Título
Textos de
Espelho
Delfim Sardo, Sara Antónia Matos e Richard Deacon