Falso Sol, Falsos Olhos

Elisa Pône

Como uma Luva
Vídeo 4:3, preto e branco, 10’27’’

Para a sua primeira exposição individual em Portugal, a artista Elisa Pône, baseada em Lisboa, concebeu um projeto original para a Galeria Quadrum que se centra na história e nas qualidades físicas da galeria. Desde a sua criação, em 1973, e até 1995, a Galeria Quadrum foi considerada como “um laboratório de arte experimental portuguesa”, título que lhe foi atribuído pela sua fundadora, a artista e colecionadora Dulce D’Agro (1915-2011). Graças à sua rede, Dulce D’Agro deu um contributo fundamental para a divulgação do trabalho de toda uma geração de artistas que beneficiou das credenciais internacionais da Galeria Quadrum.

Elisa Pône revive a dimensão experimental da Galeria Quadrum, aplicando a história em vários níveis paradigmáticos através do cruzamento da linguagem arquitectónica com os sinais da memória. Falso Sol Falsos Olhos constitui-se como uma oportunidade para os visitantes embarcarem numa viagem que não se limita aos objetos em exposição, sendo antes guiada por uma experiência interativa multidimensional com a sensibilidade de cada visitante.

A proposição arquitectónica quase inalterada da Galeria Quadrum funciona como uma vitrina aberta que oferece diversos pontos de vista através de múltiplos jogos sensoriais instalados pela artista. Combinando os materiais que são a sua imagem de marca, como o fumo e o som, com novas incursões estéticas, Elisa Pône liga um conjunto de obras de arte com intervenções cujos efeitos interferem no funcionamento tradicional da galeria.

Como uma Luva (2020) é uma obra a ser experienciada remotamente. Produzido em homenagem a Dulce D’Agro, o vídeo encontra-se disponível online durante o tempo de duração da exposição. A obra mostra-nos um perito em segurança que realiza uma avaliação do espaço da galeria, verificando janelas, alarmes e detetores. Este acaba por desaparecer na sua própria demonstração, engolido pelo fumo emitido pelo sistema de segurança em exposição. O fumo espesso preenche o espaço, revelando o seu volume. Simultaneamente vídeo e escultura efémera, esta peça testa a capacidade de percepção do espetador e questiona as condições da experiência humana na era do distanciamento social. Através da narrativa do perito em segurança, a Galeria Quadrum transforma-se num lugar de projeção fictícia: o discurso de segurança muda o registo e enfatiza as qualidades potenciais do espaço. A demonstração de conhecimentos especializados torna-se metáfora do valor acrescentado do espaço, onde ar e fumo se tornam noutra coisa.
A obra Blurry Shades (2020) é visível a partir do exterior da galeria, consistindo numa série de intervenções com bombas de fumo nas janelas da galeria. O seu espectro de cores perturba a relação entre a luz natural e a luz artificial. Memory Flood (2020) é um conjunto de obras de luz e som acompanhadas por um volume escultórico destinado a percorrer o espaço da galeria. Visível durante o dia e também à noite, para lá do horário de abertura da galeria, um robô luminoso varre o espaço com os seus raios estranhamente desarticulados. A sequência programada dos seus feixes de luz é perturbada por uma série de detetores que ativam os movimentos do robô de acordo com variações de luminosidade, temperatura e humidade.

Falso Sol Falsos Olhos apresenta também uma série de esculturas de orelhas presas aos pilares da galeria. Conchas de cerâmica que abrigam altifalantes, estas orelhas emitem uma ficção sonora dos pássaros que atravessam os espaços verdes à frente e atrás do edifício, bem como dos ventos. Embora estes elementos naturais preencham o espaço através do som, também se materializam numa escultura de base que atravessa a galeria de ambos os lados, destacando a intenção dos arquitetos de facilitar correntes de ar. O fluxo de ar impõe a sua presença, formando uma estrutura de suporte que convida o visitante a apreciar pontos de vista no interior da galeria e em direção à sua paisagem exterior.

Por fim, as escadas defronte da entrada para a galeria há muito que acolhem a escultura antropomórfica Composição (c. 1989) de Teresa Quirino (1920-2013), uma artista portuguesa que ocupou durante muito tempo um atelier nos Coruchéus. Ao deslocar a posição da obra dentro da galeria, Elisa Pône proporciona uma plataforma renovada para a obra Composição, a qual será restaurada por um conservador profissional no decorrer da exposição. Duas luzes sincronizadas sinalizam os locais desta transferência de um local para outro, contribuindo assim para a experiência sensorial em vários níveis proporcionada por Falso Sol Falsos Olhos.

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