Homo Kosmos (cough, cough)

Tiago Borges & Yonamine

Homo Kosmos cough cough Tiago Borges and Yonamine

Homo Kosmos (cough cough), de Tiago Borges e Yonamine, dá continuidade ao trajeto colaborativo dos artistas, partindo da sua obra anterior em forma de diamante, AfroUFO, apresentada em São Paulo (2014). AfroUFO foi feita expondo o suor e as cicatrizes daqueles que sempre foram ignorados pela história. Uma história que ainda não «sarou» quaisquer feridas e que continua a perpetuar a injustiça e o racismo até aos dias de hoje. AfroUFO conjurou o apelo de Lee Scratch Perry à consciencialização, justiça e piedade,1 representando a possibilidade simultânea de resistência, manifestação e escape em direção às distopias e utopias do continente africano e a um futuro estabelecido no seio das estéticas e ansiedades do universo pós-Internet.

Um ciclo de vida e quase sete anos depois, as mentalidades parecem ter mudado e os ânimos parecem mais sombrios. Na sequência da propagação global da Covid-19, damos por nós a emergir de um confinamento vivido por aqueles que puderam dar-se a esse luxo. Porém, no caso dos artistas, o confinamento foi uma situação imposta já durante a sua infância, em Angola. A Guerra Civil de Angola eclodiu em 1975, pouco depois de a pacífica Revolução dos Cravos ter despertado Portugal da ditadura do Estado Novo e quase exatamente 400 anos depois de os portugueses terem estabelecido a sua primeira colónia no território, em 1575. Esta guerra civil duraria mais de 20 anos, até 2002, pelo que grande parte da sua vida quotidiana decorreu num estado permanente de alerta. Ideias atualmente correntes de recolher obrigatório e de violência policial evocam a letra de Bob Marley para a canção Burnin’ And Lootin’ de 1973: «This morning I woke up in a curfew, Oh, God, I was a prisoner, too, yeah!, Could not recognize the faces standing over me, They were all dressed in uniforms of brutality, eh!»2

Para Homo Kosmos (cough cough), a exposição apresentada na Galeria da Avenida da Índia, Tiago Borges e Yonamine produziram novas obras numa tentativa de criar psicosferas de cura, abrindo caminhos para um outro cosmos com uma nova história. Os artistas trabalham com a ideia de potência que traduz a possibilidade em realidade. Um ambiente iluminado a luz negra situa o visitante num espaço que lembra um laboratório. O público é recebido por uma rocha que reflete a realidade, passada e presente, em múltiplas superfícies. A rocha coloca-nos em relação com o planeta Terra, explorado pela humanidade, mas também representa uma plataforma de lançamento de ideias e um espelho para reflexão. As suas diferentes peles confrontam o visitante com uma visão irónica, crítica e universal dos vetores tecno-evolucionários. Estes vetores falam-nos da aceleração da vida que nos força a procurar apoios tecnológicos. Quanto mais estamos conectados, mais solitários ficamos.

Com Homo Kosmos (cough cough), Tiago Borges e Yonamine abordam a tecnologia enquanto arquétipo espiritual, a velocidade inumana que nos é imposta pelo capitalismo em aceleração. Um motor – ou automatismo tecno-financeiro, tecno-linguístico e tecno-informacional – que consome energia e deixa para trás um rastro de resíduos e poluição decorrentes de ações de investimento, produção e consumo: ações que não possamos mais dominar democraticamente, mas com as quais seremos confrontados quando os nossos empregos se tiverem tornado supérfluos.

Ainda assim, Homo Kosmos (cough cough) é também um convite à compreensão das distâncias que nos separam da natureza. Na tentativa de compreendermos as nossas origens, operamos num estado algo onírico, debatendo-nos com a mística da reparação ou com o regresso a uma suposta «normalidade» que poderá nunca vir a materializar-se. «Devemos transformar a impotência numa linha de escape do universo da competição»,3 afirma Bifo Berardi, na esperança – tal como Guattari – de que «um novo cosmos possa emergir da hipersensibilidade caótica.»4 Na galeria, um conjunto de peças composto por esculturas, sombras, imagens em movimento e som evoca a noção de uma Gesamtkunstwerk integral.

Assim, Homo Kosmos (cough cough) partilha afinidades com o Intensivismo fundado em 1948, em Mato Grosso, que «criava uma sobreposição de imagens como forma de atingir a intensidade».5 É este tipo de intensidade que interessa a Borges e Yonamine. Não há nada de mais repulsivo que a insanidade de uma eventual possibilidade poder surgir desde que esperemos tempo suficiente. As suas imagens, apropriadas da natureza e das ruas do mundo e criadas a partir de uma esfera imaginativa, oscilam entre a defesa e o ataque, a loucura e o medo construtivista do século XXI.

Homo Kosmos (cough cough) convida figuras como você a ajudar na invenção de uma nova banda sonora para realidades futuras. Uma era «neo-humana», na qual o racismo e a discriminação foram ultrapassados, os ideais humanistas e a solidariedade são algo de tangível, e o céu está ao alcance de todos: Estrela Negra é uma estrela na astrocena do imaginário africano.

– Tobi Maier, curador

1.Em Go Down Evil, faixa do álbum The Orbserver in the Star House, dos The Orb, lançado em agosto de 2012 pela editora Cooking Vinyl / The End Records.
2.«Esta manhã acordei ao toque de recolher, meu deus, também eu prisioneiro! Não reconhecia os rostos dos que me olhavam de cima, todos vestidos em uniformes de brutalidade.»
3.Berardi Bifo, Franco Futurability: The Age of Impotence and the Horizon of Possibility, Londres: Verso, 2017, p.94.
4.ibid., p.29.
5. Wlademir Dias-Pino em «Intensified reading, expanded writing (a conversation with Wlademir Dias-Pino on intensivism, concrete poetry, process/poem and the visual encyclopedia)», OEI #66 Process/poem, Estocolmo, 2014, p.145.

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