Mirages and Deep Time

Mónica de Miranda

alentejo
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Num momento em que vamos saindo da reclusão do confinamento e avaliamos os benefícios e os danos decorrentes desta suspensão generalizada, a artista Mónica de Miranda apresenta a exposição multimédia Mirages and Deep Time [Miragens e Tempo Profundo] repleta de personagens, figuras encarnadas a partir de fotografias, imagens em movimento e materiais impressos bordados. Estas personagens manifestam-se como forma de intervenção que transporta a sua mensagem sobre a materialização da nova ordem mundial emergente a partir da dissolução das histórias passadas em novas histórias à medida que a atividade humana vai moldando o mundo em evolução. Este dito Antropoceno tem criado múltiplas cronologias e, para a artista Mónica de Miranda, os artefactos do nosso tempo nunca poderão ser reduzidos a suportes, ilustrações e narrativas. Todos estes convergem em Mirages and Deep Time, sendo encarnados através das suas personagens. Dão-se importantes revelações no momento em que estas identidades e narrativas obscuras emergem ostensivamente a partir de metáforas e pistas visuais.

Para aquele que procura, existem princípios óbvios que precisam de ser materializados. Será este mais um falso amanhecer, ou será que já somos suficientemente sábios para avançarmos para uma nova relação uns com os outros? Uma relação que valorize a interdependência e resista à colonização? O fio condutor único de toda a nossa história comum é o da colonização e da exploração. A imagem do viajante sedento perdido num deserto que vê água refletida na areia constitui uma metáfora do que o desespero faz ao discernimento. E o reforço destas ideias encoraja os desorientados a construir fontes no deserto. Como emergir para novas cronologias com uma imaginação moldada, não pelo desespero, mas pela liberdade? Nas ciências naturais, o Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg estabelece os limites da medição da posição e momento das partículas subatómicas. E, na arte e cultura contemporâneas, a compreensão do alcance e dos limites do atual discurso em torno da descolonização e a assimilação da crítica institucional no discurso da arte arriscam-se a frustrar o potencial de formação de um novo paradigma. Monica de Miranda convida-nos a sincopar estes ritmos; ouçamos os jovens e deixemos os mais velhos transmitir a sabedoria do passado e ceder o lugar.

Ao levantar pistas visuais e clichés bem conhecidos, Mirages and Deep Time, de Mónica de Miranda, circunscreve os problemas com tropos da descolonização. Não se trata de uma tarefa desesperançada, mas de uma indagação contínua e persistente que requer hipervigilância e uma compreensão dos limites da história aprendida. Mirages and Deep Time abre espaço aos aspetos espirituais e metafísicos para repensar a história e identidade negras no contexto da história portuguesa. Também promove um diálogo direcionado para a natureza e novas formas de criação de conhecimento ao abordar o maior desafio que o mundo contemporâneo enfrenta: as alterações climáticas na era do Antropoceno.

– Azu Nwagbogu, curador

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