Ni le soleil ni la mort

João Louro

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Destruir a linguagem, fazer explodir a imagem
Escavamos um túmulo no ar
para não se estar lá apertado
— Paul Celan

A exposição Ni le soleil ni la mort [“nem o sol nem a morte”, em francês] é a apresentação inaugural de um longo processo de investigação sobre a primeira das grandes guerras mundiais, momento definidor da esquizofrenia destrutiva que se parece ter constituído desde então como um dos princípios fundadores do mundo contemporâneo.

Este projecto, que João Louro vem lenta e meticulosamente construindo nos últimos anos, marca uma transformação no próprio processo criativo do artista, distinguindo-se daquela que reconhecemos como a sua marca autoral. Recuando ao momento histórico em que coincidem, como duas faces ou versões de uma mesma história, a emergência da Primeira Guerra Mundial e do projecto vanguardista, o artista procura o cordão umbilical da nossa herança cultural.

Quando, no dia 5 de fevereiro de 1916, o Cabaret Voltaire foi fundado por um conjunto de artistas, poetas, performers e activistas políticos, que se reuniram sob a estranha palavra-aliteração de ressonância infantil e primitiva, DADA, iniciava-se aí uma das aventuras artístico-políticas mais radicais, cuja acção viria, como sabemos, a transfigurar o exercício artístico tal como o conhecíamos.

De facto, DADA perdura nas nossas cabeças como um daqueles corpos que, vencendo a inércia, nunca param de balouçar. Tal como os surrealistas, seus herdeiros directos, os dadaístas trabalharam mais sobre os sortilégios da linguagem do que sobre as variações formais ou de estilo — a ética sobre a estética.

Um dos traços mais distintivos da semântica de DADA foi a forma como destruiu a linguagem convencional — a mesma que provocou as dissensões que conduziram à insanidade da guerra — através de uma colagem de fragmentos, vocábulos, sons e motivos oriundos de diferentes lugares que resulta numa espécie de sincretismo primitivo e original.

Libertar as pulsões do inconsciente para recuperar a inocência da infância e a origem primitiva pré-linguística do homem, era uma das formas possíveis de neutralizar a devastação do projecto humanista nascido na Grécia Antiga e que nos campos lamacentos e entrincheirados via, sob infigurável mortandade e desolação, o começo do seu fim.

E hoje, num mundo cujo destino anunciado nos faz olhar para os momentos em que a insanidade colectiva conduziu a humanidade ao abismo, os artistas parecem ter redescoberto a energia, as forças e a potência criativa transfiguradora e regeneradora dos seus antepassados dadaístas.

A guerra é um tema estranho e excêntrico à arte contemporânea. Recuperando um conjunto inaudito de imagens, textos, depoimentos escritos ou visuais, projectos poéticos e/ou filosóficos, João Louro produz um conjunto de obras a um tempo sombrias e luminosas, em que contrapõe imagens, reflexões e figurações do teatro de guerra com registos visuais e sonoros das dissonâncias e desconstruções performativas dos dadaístas, contra-modelo colectivo político-poético erigido em reacção ao insano ardor beligerante.

A exposição, dividida em dois modos — Figuratio, no piso de baixo, e Atmosphaerae, no piso superior —, reúne desenho, pintura, escultura, fotografia, texto e documentação, organizando-os numa montagem que opera por aproximações e disjunções, rimas, ecos e fragmentos, semelhança, alteridade e estranheza.
Acolhe igualmente objectos de outro tempo e de outros lugares, de excepcional qualidade, que aqui simbolizam forças mágico-religiosas — um Cristo medieval, oriundo da colecção do Museu do Caramulo, e um conjunto de máscaras Pende, povo africano oriundo do Congo que figurava as doenças para as esconjurar, provenientes da colecção de arte africana de José de Guimarães.

As máscaras Pende, muito próximas das figurações-deformações de Pablo Picasso ou de Francis Bacon, por exemplo, remetem por um lado para a forma como o projecto dadaísta se abriu à influência de outras culturas, nomeadamente e em grande medida a africana, e criam, por outro, uma perturbante aproximação aos rostos desfigurados em consequência da Primeira Guerra Mundial.

A efígie de Cristo crucificado era uma presença frequente em altares improvisados, vizinha de trincheiras e latrinas, trazendo o possível conforto espiritual a homens que, de um lado e outro das barricadas e das ideologias, não vislumbravam outro horizonte que o do incomensurável sofrimento e da morte.

Religião, magia, poesia, simetria, informe, memória, são forças diversas que João Louro convoca para sondar e tornar imanente o sofrimento e a destruição e a forma como, ainda assim, a condição humana faz perdurar a vontade de não se extinguir.

– Nuno Faria, Curador

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Programa Público

Data
Título
Com/de
Categoria
Local
20190903
03.09.2019
“vanguarda”
João Louro e Nuno Faria
Conversa
Pavilhão Branco