O Oco e a Emenda

Paloma Bosquê

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Que era, então, a vida? Era calor, o calor produzido pela instabilidade preservadora da forma; era uma febre da matéria, que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina, insubsistentes pela complicação e pela engenhosidade de sua estrutura. (…) Não era nem matéria nem espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenómeno sustentado pela matéria, tal e qual o arco-íris sobre a queda-d’água, e igual à chama. Mas, se bem não fosse material, era sensual até a volúpia e até o asco, o impudor da natureza tornada irritável e sensível com respeito a si própria, e a forma lasciva do ser.
Thomas Mann (Montanha Mágica)

O Pavilhão Branco recebe O Oco e a Emenda, a primeira exposição individual institucional da artista brasileira Paloma Bosquê.

Bosquê trabalha fundamentalmente a corporeidade de formas e materiais, na sua vertente mais física e concreta, explorando os limites e capacidades do espaço e do corpo. As suas esculturas e intervenções são odes ao processo artístico manual. Cada trabalho investe numa ligação íntima com a essência de cada material e a sua fisicalidade, e neste contexto a artista decide intervir ou não, jogando frequentemente com questões relativas às proporções humanas, às dimensões e ao peso de cada objeto.

Para esta exposição, Paloma Bosquê apresenta um conjunto de 21 novos trabalhos, muito diferentes uns dos outros formalmente, mas cujo denominador comum é a organicidade e a fluidez. O seu processo artístico inicia-se em cada elemento concreto, e numa investigação sobre o seu comportamento perante o espaço e em relação à própria existência. Neste caso é como se o jardim do Museu de Lisboa e o interior do Pavilhão Branco deixassem de ter início e fim, interior e exterior, para ser tornarem um único campo.

Os títulos com que batiza as obras são de prosa simples, mas ao mesmo tempo, carregada de sentido e significado. Seguem a mesma linha de pensamento dos trabalhos, através dos quais a artista atribui por vezes, uma carga simbólica que conecta a sua obra com a natureza e com as forças opostas que a compõem. O corpo é uma alusão consciente, assim como uma relação subtil um tanto erótica entre o corpo do trabalho e o do espectador – produzida por uma vontade de tocar e sentir cada obra.

Na oposição de uma latente leveza transmitida pelos trabalhos está uma influente e forte componente metafísica e uma carga histórica, antropológica e política bastante vincada, não só em cada trabalho mas na prática da artista como um todo.

Nas suas obras, e nesta exposição em particular, sente-se a forte ligação às plantas, a focada afinidade que tem com cada material (prosaico ou refinado) e a falta de pressa com o mundo acelerado que a rodeia. Paloma almeja conscientemente – e alcança – fazer mesmo isso, transformar o tempo que os rodeia, parar o momento para quem olha e vive cada trabalho.

“Das Interações Provisórias” e “Trave #2” são trabalhos onde os conceitos de encaixe e equilíbrio da matéria com o espaço, ganham destaque. Os trabalhos se sustentam em si mesmos.

Em “Galhos”, pequenas esculturas de chão em bronze, é o elemento que ganha novamente relevo, pois tanto carrega em si o peso da história da escultura, como simultaneamente se comporta como elemento da natureza cujo tempo chegou ao fim.

Com “Prumos” o processo é semelhante, no entanto o feltro aqui envolve e sustenta os ovos de cera. O prumo é o que balanceia, alinha. Parte de uma série à qual a artista dá o nome de composições possíveis, “Cruzeiro com Rede” busca a harmonia entre materiais distintos, através de uma relação de peso e apoio, uma espécie de acordo consensual entre cada elemento. Uma tentativa de construir um vocabulário de estruturas simples, inspiradas em processos de construção por vezes um tanto quanto vernacular. “Mergulho” também segue a mesma lógica de contrabalançar materiais distintos segundo negociações justas. Neste trabalho é a matéria em suspensão, e a relação com o espaço e a gravidade, que cria uma tensão e uma relação de peso entre dois elementos. Assim como “Ponte Pênsil e Trampolim” em que se busca o balanço entre cada parte da obra, explorando pontos de apoio. Toda esta série de composições possíveis lidam bastante com a ideia de impermanência, são anti-monumentos.

“Conselheiros” trazem um fator novo, uma espécie de narrativa um pouco mais delineada e baseada em duas influências mais diretas: a estrutura simples dos estandartes de procissão brasileiros (especialmente um presente em Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha – de onde vem, em parte, o título) e o quadrado preto de Malevitch. “Estandarte #2” também faz parte de um léxico de estruturas do corpo de trabalho da artista, neste caso a visão frontal do objeto só revela a sua própria estrutura, como se víssemos através da carne de um corpo o seu esqueleto, a estrutura básica que o sustenta. É apenas circundando o corpo da escultura que o estandarte se deixa perceber.

O trabalho que dá nome à exposição “O Oco e a Emenda” condensa várias das questões que informam a prática artística de Bosquê. É um tear muito fino de fios dourados de lurex. São duas faixas emendadas de forma a criar um plano. A emenda é especialmente interessante pois essa sobreposição engrossa o tecido e o leva mais para o espaço (do desenho para o tridimensional), é novamente uma correspondência de peso e pontos de tensão, mas neste caso dentro do mesmo material. A trama é esgarçada com as mãos, abrindo um rombo, o que torna o trabalho menos diáfano é justamente o oco, o contraste do buraco com o acúmulo de linhas de lurex à sua volta é o que torna a estrutura visível.

Em “Curva Amparada (Chifre)”, o nome do trabalho é a estrutura necessária para que ele exista, o chifre é a curva. É um tarugo de latão cravado num bloco de cera, a cera vira a própria base do trabalho e o objetivo é suspender um elemento visualmente e fisicamente pesado – o chifre de búfalo. O que interessa é a ligação de textura e peso entre chifre, a cera e o latão.

Como se invertesse a ordem das solenidades e reverenciasse um pedaço de matéria que deve ser jogado no lixo, nesse sentido relaciona-se com “Altar Aos Cacos” que é de certo modo um trabalho solene, uma homenagem ao que sobra. A cuia de cera guarda cacos feitos do mesmo material que a própria cuia, a mesma matéria é recetáculo e conteúdo.

Finalmente “Cipoal Com Pedras” é uma instalação inspirada nos vetores de crescimento das plantas num jardim ou na mata. Cada fio feito à mão, assim como a própria estrutura que os sustenta, o emaranhando das tripas pede que se navegue conscientemente, com atenção aos limites do próprio corpo, traz a consciência do espaço, do pé direito e leva em conta a transparência do edifício no encadeamento com o jardim que o circunda. Acaba por ser um desenho no espaço, um ritmo sugerido.

– Luiza Teixeira de Freitas, curadora

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Publicação

Título
Textos de
O Oco e a Emenda
Sara Antónia Matos, Luiza Teixeira de Freitas, Tomás Colaço, Paloma Bosquê