Galeria Boavista

Pálpembrana

Alice dos Reis
Artistas Alice dos Reis
Curadoria Sara Antónia Matos / Pedro Faro
Data De 01/08/2018 a 23/09/2018
Sobre a exposição

As Galerias Municipais apresentam a primeira exposição individual de Alice dos Reis, Pálpembrana, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, na Galeria da Boavista, continuando, neste espaço, um ciclo de várias exposições individuais de artistas emergentes no contexto da arte contemporânea portuguesa. Este ciclo começou com João Gabriel, no início de 2018, e continuará, depois de Alice dos Reis, com Maria Trabulo (Outubro – Dezembro 2018), Mariana Caló e Francisco Queimadela (Janeiro – Março 2019) e Sara Chang Yan (Junho – Setembro 2019).

Esta exposição de Alice dos Reis, onde se mostram várias esculturas, instalações e dois filmes, surge na linha de investigação e reflexão que a artista desenvolveu recentemente na sua tese de mestrado, “Slimy Fillings”, realizada na Holanda, e que é disponibilizada na exposição através de um booklet. Nessa investigação, a artista elabora sobre a crescente afirmação da estética do ‘cute’ – em português seria ‘fofinho’ ou ‘adorável’ -, na semiótica ocidental contemporânea. A tese de Alice dos Reis, bem como o trabalho que apresenta, procura analisar a relação entre o ‘cute’, ou coisas consideradas ‘cute’, com ideias de poder e opressão, investigando, deste modo, a intersecção da estética com as novas tecnologias, com as interacções online, com as políticas de género, a vigilância e o trabalho, propondo o ‘cuteness’, em última análise, como uma estética radical. Em grande medida, Alice dos Reis parte, conceptualmente, de um pensamento que procura actualizar a teoria estética em torno de novas categorias – alternativas às tradicionais análises do belo e do sublime -, que se relacionam com as actividades sociais, os objectos e produtos gerados pelo capitalismo tardio, que saturam o seu universo cultural – ver Our Aesthetic Categories. Zany, Cute, Interesting, de Sianne Ngai. Afecto e emoção, linguagem e comunicação, intimidade e atenção atravessam o modo como olhamos para a História, a trivialidade, o estilo, e o juízo que fazemos sobre as coisas. O filme Mood Keep, obra central desta exposição, é realizado em torno da figura do Axolotle mexicano (Ambystoma mexicanum), “batráquio urodelo neoténico, nativo do México, que pode atingir cerca de 30 centímetros de comprimento e apresenta três pares de brânquias externas situados nas zonas laterais da cabeça, sendo notável pela grande capacidade de regeneração de tecidos orgânicos”1. É muito ameaçada pelo comércio ilegal de espécies exóticas e pela constante destruição do seu habitat, pela cada vez maior ocupação humana, onde se destaca, por exemplo, a fatal drenagem do lago Xochimilco pelos colonos espanhóis, no século XVI. Com qualidades regenerativas muito particulares, o Axolotle não completa a metamorfose, sendo por isso, uma salamandra com aspecto larvar mesmo no estado adulto (neotenia). A pele do Axolotle é escura, muitas vezes com manchas. Os indivíduos albinos são comuns. É uma espécie exclusivamente aquática durante todo o seu ciclo de vida. Devido à sua grande capacidade de regeneração dos tecidos, esta espécie foi amplamente criada em cativeiro, sobretudo para a investigação científica.

O filme Mood Keep reflecte sobre as intersecções entre a história pós-colonial do Axolotle, a sua forma e existência biológica única – quase sobrenatural – e a sua recente popularidade online, sendo aqui considerada como uma das criaturas mais fofas do mundo. Para lá da sua aparência fofa, são ferozes predadores e, se deixados em espaços contidos com uma densidade populacional elevada, canibalizam-se uns aos outros. A figura do AxoIotle, segundo a artista, espoleta, assim, ideias de alteridade e práticas não patriarcais de empatia e de parentesco entre seres humanos e não-humanos. Na narrativa deste filme, estas criaturas fofas comunicam entre si através de ondas wi-fi e assistem a filmes de animação gerada digitalmente de forma telepática. Quase cego, o Axolotle só é capaz de discernir sombras de luz, sendo que o permanente brilho de tungsténio, nos aquários onde é criado, é desagradável e perturbador para as suas capacidades de comunicação. Colectivamente, nestes cativeiros, os Axolotles decidem desenvolver pálpebras, optando por fechar os olhos indefinidamente como forma de recuperar o poder sobre os seus corpos e de incentivar a comunicação empática de uns com os outros.

O título da exposição, Pálpembrana, é um jogo, por aglutinação, entre as palavras “pálpebra” e “membrana”. Uma das origens etimológicas da palavra portuguesa pálpebra provém do verbo em latim palpare, que significa “tocar” ou “bater docemente”. Anatomicamente, a pálpebra do olho é considerada uma membrana. Para membrana, os dicionários oferecem o seguinte significado: “camada fina de tecido que recobre uma superfície, divide um espaço ou órgão ou une estruturas adjacentes”. No filme Mood Keep, os Axolotles – criaturas revestidas de membranas – desenvolvem membranas-pálpebras que lhes permitem fechar os olhos.

Outras peças apresentadas na exposição, em látex – cuja textura poderia ser considerada “membranar” – e em acrílico, dialogam e brincam com a ideia e figura da pálpebra: é uma pálpebra ou um smile (emoticon)? Alice dos Reis procura relacionar este conjunto de ideias com a dimensão do olhar (gaze), e com o âmbito do ‘cute’, do toque e da carícia: palpare.

Podemos, finalmente, pensar a “pálpembrana” como a estrutura slimy, gelatinosa informe, que permite a relação entre todas estas coisas, que as aglutina, cobre, toca e as distribui de forma perturbadoramente divertida, idiossincrática e não convencional. “A ‘pálpembrana’ é como as formas em teia que se começam a ver quando fechamos os olhos à luz” – refere Alice dos Reis, que problematiza, deste modo, a função da arte na era da globalização digital, investindo sobre os seus actuais modos de contemplação e de produção, ao expor os paradoxos do estatuto da arte no seio de um contexto de globalização, tendo em conta as suas diferentes modalidades económicas, políticas, visuais e culturais. Pode a arte pensar aquilo que é giro, bizarro/estranho e divertido?

1 axolotle in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2018. [consult. 2018-07-06 10:56:32]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/axolotle

* Os textos não foram escritos segundo o Acordo Ortográfico

Biografia

Alice dos Reis (Lisboa, 1995) vive e trabalha em Amesterdão. Em 2018, completou o mestrado em Belas Artes no Instituto Sandberg, em Amesterdão, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

O seu trabalho, maioritariamente em filme, tem sido mostrado em vários museus e plataformas culturais em Portugal e na Europa, entre os quais: MAAT (PT), Centro Cultural de Belém (PT), EYE Filmmuseum (NL), Spektrum – Art Technology Community (DE), Rua das Gaivotas6 (PT), no projecto Old School, Galeria Zé dos Bois (PT) e Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas (PT).