As Galerias Municipais e o Atelier-Museu Júlio Pomar convidaram o artista João Penalva a realizar uma peça para a entrada de alguns dos espaços de Arte Contemporânea da EGEAC – Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, Galeria da Boavista, Galeria Quadrum, Pavilhão Branco e Atelier Museu Júlio Pomar, no âmbito do projeto anual «Uma Obra em Seis Partes», iniciado em 2024, pelos curadores Sara Antónia Matos e Pedro Faro.
Em 2026, este projeto realiza-se no âmbito do projeto expositivo que Culturgest, Galerias Municipais e Cinemateca organizam em torno da obra do artista, razão pela qual, este ano, se acrescenta à habitual lista de espaços o átrio da Culturgest, instituição onde o visitante poderá ver, ainda, a exposição “Personagens e Intérpretes”.
A obra que João Penalva criou para este projeto desenvolve-se em seis andamentos, exigindo uma deslocação do espectador pela cidade de Lisboa para a sua total experiência, reconstrução e apreensão. As seis partes coincidem com senhas de diferentes cores, as quais, uma vez reunidas no envelope que é dado com a primeira, darão acesso ao puzzle: ao entregar o envelope com este conjunto completo, o espectador terá direito a uma caixa com a obra completa num dos seis lugares visitados.
É uma obra, cuja posse, apesar de democrática, implica percorrer vários labirintos: o do mapa de instruções – contido nesta folha de sala –, da cidade e dos seus lugares mais e menos recônditos, mais e menos privados; os enredos das senhas recolhidas, caixas, envelopes, marcas e siglas neles gravadas, para depois – eventualmente no conforto da casa e do serão noturno – se estender à feitura e encaixe das peças, à descoberta da imagem nelas inscrita.
Com “Um Puzzle Familiar”, título da obra, João Penalva insta-nos a repensar a ideia de imagem, através das suas pequenas partes, fragmentos, possibilidades narrativas, num jogo onde o olhar, a observação, a montagem e a resolução (ou não) se revelam fundamentais e valorizadas como centrais da experiência artística. Relembrando Hermann Broch na obra A Morte de Virgílio,
“quase parecia impossível, ainda mais, parecia quase inadmissível, que a nossa realidade mais real, que alcançamos por último, se limite a ser uma simples imagem que se recorda! Contudo abençoada pela imagem e pela imagem amaldiçoada é a vida humana; só em imagens ela consegue captar-se a si própria, impossíveis de desterrar são as imagens, estão em nós desde os primórdios dos rebanhos, são anteriores e mais fortes do que o nosso pensar, estão na intemporalidade, encerram em si passado e presente, são dupla recordação de sonhos e são mais poderosas do que nós”.
Um “puzzle” é um jogo de paciência, um “quebra-cabeças” ou situação enigmática, composto por fragmentos recortados, por vezes com formatos desiguais, que se devem combinar ou ajustar para se conseguir formar uma imagem. Partindo da deformação, do fragmento, da possibilidade de reformação, Penalva interpela-nos. Sabemos que, tal como refere Barthes em Mitologias, “qualquer objeto do mundo pode passar de uma existência fechada, muda, a um estado oral, aberto à apropriação da sociedade”, ou seja, que “certos objetos tornam-se momentaneamente presa da fala mítica”.
Que imagem é esta que João Penalva nos pede para reconstruir, reperformar, regenerar, restituir, reestruturar? Que pedaços são estes? Que desafio mítico é que nos propõe? O que pode um fragmento? Talvez, valha a pena citar a conhecida frase de Godard: “Ce n’est pas une image juste, c’est juste une image”.
Caberá ao público – a todos nós – a tarefa de ideologizar ou de poetizar?
– 28.06.2026