Underground Cinemas & Towering Radios

Ângela Ferreira

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We wander between the towering and the bottomless.
Robert Smithson, A Cinematic Atopia, 1971

Underground Cinemas & Towering Radios reúne um conjunto de obras através das quais Ângela Ferreira (Moçambique, 1958) tem investigado, celebrado e problematizado as utopias descolonizadoras e revolucionárias do período eufórico de construção nacional em Moçambique, entre a independência em 1975 e o início da guerra civil em 1977. Na linha do pensamento de Frantz Fanon, Amílcar Cabral e Samora Machel, Ferreira examina o papel da cultura, nomeadamente do cinema e da rádio, na construção da nação e nas dinâmicas de colaboração internacionalista, em contexto de Guerra Fria e de luta anti‐apartheid na África do Sul. Presta homenagem a este momento histórico através de uma prática investigativa e arquivística que recorre à escultura, ao vídeo, ao som, à fotografia, à serigrafia e ao desenho para revelar imagens e sons deste período que permanecem frequentemente esquecidos. As homenagens de Ferreira sob a forma de modelos e estudos para monumentos, normalmente incluindo várias versões, retêm uma qualidade de incompletude, abertura, mobilidade e desejo – mesmo quando se trata de instalações de grandes dimensões que passaram da experimentação do desenho e da maquete ao acabamento da escultura final. Estes arquivos e cartografias de revolução são monumentos em revolução (incompleta). A utopia moçambicana do período pós-independência, os seus esforços comunitários, internacionalistas e de bases para descolonizar a produção e a distribuição de imagens, e o impacto das suas ondas (de rádio) na luta anti‐apartheid regressam dos seus futuros passados para indagar o presente.

Várias vozes de múltiplos tempos e lugares juntam‐se num diálogo polifónico em torno das noções de utopia e revolução. O construtivismo russo de Model for Monument to the Third International (1920) de Vladimir Tatlin e dos quiosques agit‐prop, móveis e multifuncionais, desenhados por Gustav Klucis no quinto aniversário da revolução de Outubro em 1922, assim como as atopias cinemáticas dos cinemas ‘underground’ para cavernas e minas abandonadas desenhadas por Robert Smithson nos anos setenta encontram‐se em trânsito. Emergem em estruturas escultóricas onde assistimos ao nascimento das utopias políticas e cinemáticas da revolução moçambicana: a fundação do Instituto Nacional de Cinema (INC) e a produção da série de actualidades cinematográficas Kuxa Kanema, exibida pelo país em cinemas ambulantes; as actividades das ‘câmaras políticas’ (Political Cameras [For Mozambique Series], 2011) dos jovens cineastas treinados nos workshops de super 8 que Jean Rouch, Jacques D’Arthuys e a sua equipa foram convidados a desenvolver pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM) em 1976‐1977; e o projecto para um novo modelo de televisão – Nord contre Sud ou Naissance (de l’image) d’une nation (1977–1978) – apresentado por Jean‐Luc Godard e Anne‐Marie Miéville a convite do governo moçambicano, mas subsequentemente rejeitado. Makwayela (1977) de Rouch e D’Arthuys, retratando a dança tradicional dos mineiros moçambicanos regressados da África do Sul, e Mozambique (Hard Rain Concert, Fort Collins, Colorado, 1976), onde Bob Dylan celebra uma liberdade moçambicana de sol e mar, constituem a banda sonora e visual que a pequena torre‐écran construtivista de For Mozambique (Model No. 1 for screen‐tribune‐kiosk celebrating a post‐independence utopia) (2009) ‘emite’ do interior da galeria, numa alternância que evoca e problematiza diferentes visões e experiências de revolução. Stone Free de Jimi Hendrix – outro hino hedonista assinalando os sentidos múltiplos e até contraditórios de revolução, libertação e liberdade – surge legível em vez de audível, em concerto ‘underground’ para mina abandonada. De Kaapse Sonnette/Cape Sonnets (Tamayo) (2014), a alta torre de rádio no exterior – inspirada na que surge a emitir do interior de Moçambique nas imagens de arquivo do documentário de Margarida Cardoso Kuxa Kanema: O Nascimento do Cinema, 2003 –, chega‐nos a homenagem sonora à poesia anti‐apartheid, escrita em Afrikaans, de Peter Blum (1925‐1990).

Tal como Manthia Diawara ‘inverteu’, ao mesmo tempo que homenageou, a obra de Jean Rouch – o ‘pai’ do cinema etnográfico e do cinéma verité – no seu filme Rouch in Reverse (1995), assim também Ferreira apresenta ‘homenagens invertidas’ tanto ao cinema de Rouch (Studies for monuments to Jean Rouch’s Super 8 film workshop in Mozambique, 2011‐2012), como ao trabalho etnográfico e fílmico que Jorge e Margot Dias, o chamado ‘pai’ da antropologia portuguesa e a sua esposa cineasta, realizaram em Moçambique (Studies for viewing cabinets for Margot and Jorge Dias, 2013; A Tendency to Forget, 2015).

Os cinemas‐caverna e as salas de projecção ‘underground’ de Smithson atravessam as obras em exibição de diversas formas. Paralelamente aos concertos ‘stone free’ de Hendrix nas minas abandonadas das Chislehurst Caves em Londres nos anos sessenta, examina‐se o ‘underground’ mineiro em contexto sul‐africano para proveito britânico, através da história do diamante Cullinan, descoberto na África do Sul em 1905 e integrado nas Jóias da Coroa Britânica. Investiga‐se igualmente o ‘underground’ heterodoxo das filmagens e das projecções ao ar livre levadas a cabo pelos jovens cineastas moçambicanos em zonas rurais, e das actividades paralelas de aproveitamento de recursos naturais, desenvolvidas em silos agrícolas no campus da UEM, fora do controlo quer de Rouch, quer da ortodoxia partidária. Por último, revela‐se o cariz clandestino e ‘underground’ dos relatórios confidenciais sobre as movimentações anti‐coloniais que Jorge Dias enviava para o Ministério do Ultramar, ao mesmo tempo que desenvolvia o seu trabalho de campo no Norte de Moçambique.

Do mesmo modo que as atopias cinemáticas de Smithson, os desenhos para quiosques agit‐prop de Klucis, o Model de Tatlin, o projecto de Godard e Miéville e as actividades dos cineastas de super 8 não foram plenamente concretizados, mas continuam a produzir efeitos no presente, os desenhos de Ferreira para esculturas que nunca foram construídas constituem espaços em aberto para futuridades possíveis.

No seu conjunto, Underground Cinemas & Towering Radios evoca a memória das lutas de libertação contra o colonialismo português e das utopias revolucionárias e descolonizadoras que se lhes seguiram, incluindo o papel agenciador que a produção cultural nelas assumiu, numa perspectiva transnacional e trans‐histórica, sem esquecer as contradições e o que ficou por cumprir.

– Ana Balona de Oliveira, curadora

*Por opção da autora, o texto não foi escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

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Programa Público

Data
Título
Com/de
Categoria
Local
20161022
22.10.2016
Lançamento do catálogo e conversa em torno da exposição “Underground Cinemas & Towering Radios”
Ângela Ferreira, Ana Balona de Oliveira
Conversa
Galeria Avenida da Índia

Publicação

Título
Textos de
Underground Cinemas & Towering Radios
Ana Balona de Oliveira