Galeria Avenida da Índia

Urban Now: City Life in Congo

Artistas Sammy Baloji / Filip de Boeck
Curadoria Devrim Bayar
Inauguração 23/03/2018 18:00
Data De 24/03/2018 a 17/06/2018
Folha de Sala

Nas discussões em curso sobre a natureza da cidade africana, arquitetos, planeadores urbanos, sociólogos, antropólogos e demógrafos dedicam particular atenção às formas construídas e às infraestruturas materiais da cidade. A arquitetura tornou-se uma questão central no discurso ocidental e em reflexões mais abrangentes sobre como planear, construir, sanitizar e transformar o lugar urbano e os seus espaços públicos. Espelhando esse discurso, a arquitetura começou igualmente a desempenhar um papel cada vez mais importante nas tentativas de dar conta das especificidades da paisagem urbana africana, e de imaginar novos paradigmas urbanos para a cidade africana do futuro. Muito frequentemente, estes novos futuros urbanos manifestam-se sob a forma de painéis e anúncios publicitários. Através de uma exibição estética da modernização como espetáculo, inspirada nos modelos urbanos do Dubai e de outros efervescentes centros urbanos recentes do Sul Global, estas imagens alimentam novos sonhos e esperanças, apesar de as cidades que propõem invariavelmente originarem novas geografias de exclusão, assumindo frequentemente a forma de condomínios fechados e de cidades-satélite de luxo concebidas para uma (hipotética) classe média-alta local.

Em acentuado contraste com estas recodificações neoliberais das modernidades colonialistas mais antigas, a infraestrutura atual de Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo (RDC), apresenta uma natureza muito diferente. O património edificado colonial encontra-se amplamente degradado. O seu funcionamento é pontuado por constantes colapsos, e a cidade encontra-se repleta de fragmentos desconexos de infraestruturas, promessas, lembranças e ecos de uma modernidade anterior que continua a existir numa forma estilhaçada, sem o seu conteúdo material e conceptual original. Estes fragmentos inscrevem-se noutros ritmos históricos e temporalidades, em estratos totalmente diferentes das redes de infraestruturas e sociais. Infraestruturas materiais em declínio e uma economia da escassez delimitam fisicamente, no presente, os limites do possível na cidade, mas, simultaneamente, geram também outras possibilidades e permitem a criação de novos espaços sociais, nos quais a rutura e a exclusão são contornadas e ultrapassadas.

A exposição reflete sobre estas diversas narrativas da construção do lugar urbano, oferecendo um estudo visual de algo que desafia a narração verbal: as paisagens afetivas e os estados de espírito da cidade. Como tal, a exposição tem em conta as mudanças na forma como as cidades e os territórios são imaginados por diferentes tipos de pessoas na atual RDC.

A exploração etnográfica, fotográfica e fílmica da paisagem citadina que o artista visual Sammy Baloji e o antropólogo Filip De Boeck propõem oferece uma investigação sobre as características do «buraco». Atualmente, a noção de buraco (libulu em Lingala, a língua franca de grandes áreas do Congo) pode ser entendida como capturando plenamente a essência da qualidade material da cidade congolesa, definindo a forma genérica da infraestrutura urbana pós-colonial do Congo. De facto, a superfície da cidade congolesa encontra-se marcada por inúmeras fissuras, ao mesmo tempo que imparáveis pontos de erosão engolem constantemente o tecido urbano. De igual modo, a superfície da paisagem congolesa encontra-se desfigurada pelos buracos das minas artesanais e pelas aberturas das (frequentemente não identificadas) sepulturas. Na verdade, o conceito de «buraco» tornou-se uma espécie de meta-conceito, utilizado para refletir sobre a degradação material das infraestruturas modernistas coloniais da cidade, e para retrabalhar os fechamentos e a qualidade frequentemente sombria da vida social que sucedeu à ruína material da cidade colonial.
Esta exposição reflete, então, sobre as questões relacionadas com a forma como este «retrabalho» está a acontecer, e como este buraco pós-colonial é preenchido na experiência das populações urbanas congolesas. Que possíveis respostas propõe o Congo urbano relativamente ao desafio colocado pelo buraco? Se a cidade se transformou num buraco, como pode este buraco ser «iluminado», de forma a tornar-se algo que permita viver, e viver em conjunto, na cidade? Para os autores desta exposição, a noção de vida em conjunto só pode existir onde o buraco, o seu sistema, não se encontra completamente formado e ainda não foi fechado, dado que a vida em comum implica sempre uma contestação do modo como um órgão social, um coletivo, se completa a si próprio – trata-se de um processo que nunca se encontra completamente fechado, recapitulado, ou totalmente idêntico a si próprio.

Sendo as solidariedades da família, das relações e da vizinhança frequentemente esticadas até ao limite, e procurando as populações, por vezes desesperadamente, uma experiência viável de vida em conjunto, os autores desta exposição tentam identificar quais são as novas formas emergentes, e como podem essas novas formas ser compreendidas. Aquilo que é então investigado são os fechamentos e as aberturas através dos quais esta vida em comum na cidade é possibilitada ou tornada impossível. Neste sentido, a exposição pode ser lida como uma tentativa de descobrir onde e como as pessoas remedeiam em conjunto as suas faltas e perdas, e suturam as irregularidades, as falhas e os buracos da cidade. A utilização do verbo suturar sugere, neste contexto, a possibilidade de fechar feridas, de gerar realinhamentos e de abrir alternativas, apontando igualmente para a irrupção espacial e temporal de novos tipos de criatividade e de novas formas de interatividade e convivialidade.

Baloji e De Boeck investigam estas falhas e suturas através de um conjunto de pontos de acupuntura urbana, ou seja, de investigações de locais específicos no interior (e muitas vezes no exterior) da cidade de Kinshasa – edifícios particulares, locais e campos de horticultura na cidade, cemitérios específicos, montanhas, fissuras, novas extensões da cidade, entre outros –, nos quais espetam a sua agulha analítica, de modo a compreender o que está a acontecer em todos estes lugares que formam nós importantes no interior da cidade, embora por vezes apenas materialmente visíveis de uma forma muito ténue. Estes locais são aqueles onde a cidade se liga e se desliga, onde movimentos e espessamentos de bens, pessoas e públicos se geram, e as várias linhas e conexões entre eles se tornam visíveis.

A Torre
Um dos marcos inaugurais da arquitetura urbana colonial belga em Leopoldville (atualmente Kinshasa) foi a torre Forescom. Construída em 1946, foi o primeiro arranha-céus da cidade, e um dos primeiros edifícios altos da África Central. Apontando para o céu, apontava igualmente para o futuro. Ao materializar e tornar tangíveis novas ideias de futuros possíveis, a torre emblematicamente traduzia, de forma material e visual, as ideologias colonialistas do progresso e da modernidade.
Atualmente, um contraste gritante com a Torre Forescom pode ser encontrado no município de Limete. Concebida e realizada pelo «Docteur», o seu proprietário e um homem que se apresenta a si próprio como «doutor em aeronáutica e em medicina espacial», esta torre ainda inacabada encontra-se em construção desde 2003, sem a participação de quaisquer arquitetos profissionais. Esta torre pós-colonial desafia o edifício Forescom de 1946 e tudo aquilo que este representava na altura, ao mesmo tempo que ilustra as várias formas através das quais a herança colonialista continua atualmente a ser reformulada e reorganizada. O vídeo apresentado nesta exposição, intitulado A Torre: Uma Utopia Concreta, oferece uma visita guiada desta notável torre pelo «Docteur».

O Edifício OCPT
O Cielux OCPT (Office Congolais de Poste et Télécommunication), coloquialmente conhecido como «o Edifício» (le Bâtiment), localiza-se no bairro de Sans Fil («Wireless» ou «Sem fios»), no populoso município de Masina, a este do centro colonial da cidade. O local do Cielux foi construído em meados dos anos 1950 como um dos muitos ramos da estação de correios principal do centro da baixa do município de Gombe. Um grande edifício modernista, em forma de L, situado num vasto recinto murado, este acolhia uma secção da rádio nacional e funcionava como uma estação de transmissão de comunicações telefónicas internacionais e de telégrafo (daí o nome do bairro, «Wireless»). Quando cumpria esta finalidade, o Edifício ligava literalmente Leopoldville (atualmente Kinshasa) ao mundo exterior, apesar de o local se situar fora da cidade na altura da sua construção. Atualmente, o Edifício é ocupado por diversas famílias, totalizando mais de 300 pessoas, cuja maior parte se encontra ainda oficialmente empregada no OCPT. Na verdade, o Ministro das Telecomunicações autorizou alguns dos seus empregados a mudarem-se para o Edifício, como um adiantamento pelos salários em atraso ou como um tipo de provisão de pensão para empregados aposentados.

O Cemitério
O cemitério de Kintambo é um dos mais antigos e maiores cemitérios de Kinshasa. Ao longo dos anos, a cidade tem progressivamente invadido o cemitério, e aglomerados de construções informais têm proliferado à sua volta. Um desses aglomerados é Camp Luka, também conhecido como «o Estado», onde os vivos e os mortos convivem em grande proximidade. Apesar de o cemitério ter sido oficialmente encerrado pelas autoridades urbanas e abandonado no final da década de 1980, os habitantes de Camp Luka e de outras áreas de Kinshasa continuam a ir lá enterrar os seus mortos.

A Cité du Fleuve e os Jardins Vegetais do Lago Malebo
Desde o fim do período colonial, o sul do lago Malebo – uma expansão da parte baixa do rio Congo entre a República Democrática do Congo e a República do Congo – tem vindo a transformar-se, de forma continuada, numa vasta zona agrícola. Nos anos 1980, uma empresa agrícola da Coreia do Sul começou aí a desenvolver culturas de arroz, porém, esse projeto foi abandonado na sequência da pilhagem generalizada que atingiu Kinshasa em 1991 e 1993. Após a empresa coreana ter abandonado a zona, os habitantes locais rapidamente ocuparam os campos de arroz, começando a expandi-los, frequentemente utilizando pás ou as próprias mãos para preencher e cultivar as margens do lago. Uma grande parte deste vasto espaço agrícola terá agora de dar lugar ao desenvolvimento de uma nova cidade-satélite, a Cité du Fleuve, um desenvolvimento privado iniciado em 2008. Construída sobre duas ilhas artificiais criadas no lago Malebo, a Cité du Fleuve terá uma área de 6 km2, e incluirá mais de 200 vivendas e 10 000 apartamentos de luxo, 10 000 escritórios, uma marina, escolas, cinemas, restaurantes, e salas de conferências. Será ligada ao resto de Kinshasa através de duas pontes e de uma estrada rodoviária. Autossuficiente ao nível do abastecimento de água e de eletricidade, a Cité du Fleuve é promovida pela oferta aos potenciais compradores de um estilo de vida luxuoso e títulos de propriedade seguros.

Maquete da Cidade de Kinkole
A cidade de Kinkole é uma das últimas zonas inteiramente planeadas de Kinshasa. O plano foi parcialmente implementado no final dos anos 1960 e no início da década de 1970. Atualmente, a maquete acumula pó num corredor da câmara municipal de Nsele.

Líderes Territoriais
Líderes territoriais controlam ainda amplas extensões de terreno, particularmente nas áreas mais rurais da província de Kinshasa, a sudoeste da cidade nos distritos urbanos de Lukunga, Funa e Mont Hamba, e a este no distrito urbano de Tshangu, bem como no Bateke Plateau. Na periferia este de Kinshasa, ao longo do lago Malebo – uma expansão da parte baixa do rio Congo entre a República Democrática do Congo e a República do Congo –, importantes líderes Teke e Banfunu têm reinado sobre as mesmas vastas áreas de território que os seus antepassados controlavam quando o jornalista e explorador colonial galês Henry Stanley chegou à região e a começou a explorar, na década de 1870. Não é por acaso que estas áreas da cidade são aquelas que se encontram atualmente em expansão. Neste processo de rápido crescimento urbano, estes líderes territoriais desempenham um papel decisivo, embora a sua função administrativa muitas vezes não seja reconhecida pelas instituições estatais. É simplesmente impossível para um indivíduo, para uma empresa imobiliária ou para um investidor industrial obter uma porção de terreno sem primeiro negociar com eles.

Fungurume / Pungulume
A cidade de Fungurume situa-se na província de Katanga, entre os vastos centros mineiros de Kolwezi e Likasi. Local de origem do povo Sanga, Fungurume encontra-se rodeada por colinas e montanhas que constituem um dos maiores depósitos mundiais de cobre e de cobalto. Estes recursos minerais continuam ainda em grande parte por explorar. As populações envolveram-se sempre na exploração mineira artesanal e, na época pré-colonial, a área era um centro muito importante na rede do comércio continental do cobre. A exploração mineira de superfície industrial e de larga escala é mais recente. Em meados da década de 1990, durante os últimos anos do reinado do Presidente Mobutu Sese Seko, o grupo canadiano-sueco Lundin obteve direitos de concessão do governo para a exploração da maior parte das montanhas ao redor de Fungurume, uma área de 1500 km2, mas foi só a partir de 2006, e de uma mudança importante na estrutura acionista da empresa, que o consórcio Tenke Fungurume Mining iniciou a atividade na mina a céu aberto e instalações de processamento de minério. Entre 2009 e 2015, o consórcio explorava múltiplos depósitos ao longo da área da concessão. A empresa começou igualmente a planear a construção de uma cidade inteiramente nova, um aeroporto, campos de trabalho para os empregados, vastas unidades de processamento, e um conjunto de outras instalações industriais. A construção desta nova infraestrutura implicaria ainda a relocalização de cerca de 15 000 habitantes Sanga, incluindo o chefe Sanga, Mpala Swanage Pascal Musenge. No entanto, em maio de 2016, o consórcio Tenke Fugurume Mining mudou inesperadamente de mãos, quando a China Molybdenum adquiriu as ações do grupo americano Freeport-McMoran por 2,6 mil milhões de dólares. Neste momento, não há garantia de que a China Molybdenum vá implementar este novo projeto de infraestrutura.

 

 

[ENG]

In ongoing discussions about the nature of the African city, architects, urban planners, sociologists, anthropologists and demographers, devote a lot of attention to the built form and to the city’s material infrastructure. Architecture has become a central issue in western discourse and in wider reflections on how to plan, engineer, sanitize and transform the urban site and its public spaces. Mirroring that discourse, architecture has also started to occupy an increasingly important place in attempts to come to terms with the specificities of the African urbanscape and to imagine new urban paradigms for the African city of the future. Very often these new urban futures manifest themselves in the form of billboards and advertisements. Through an aesthetic display of modernization as spectacle, inspired by urban models from Dubai and other recent urban hotspots from the Global South, these images foster new dreams and hopes, even though the cities they propose invariably give rise to new geographies of exclusion, as they often take the form of gated communities and luxury satellite towns for a (hypothetical) local upper middle class.
In sharp contrast with these neoliberal re-codings of earlier colonialist modernities, the current infrastructure of Kinshasa, the capital of the Democratic Republic of Congo (DRC), is of a rather different kind. The built colonial legacy has largely fallen into disrepair. Its functioning is punctuated by constant breakdown, and the city is replete with disconnected infrastructural fragments, figments, reminders and echoes of a former modernity that continues to exist in a shattered form but without its original the material and conceptual content. These fragments are embedded in other historical rhythms and temporalities, in totally different layers of infrastructure and social networks. Failing material infrastructures and an economy of scarcity now physically delineate the limits of the possible in the city, but simultaneously they also generate other possibilities and enable the creation of new social spaces whereby breakdown and exclusion are bypassed and overcome.
The exhibition reflects on these diverse narratives of urban place-making. It offers a visual study of things that defy verbal narration: the city’s affective landscapes and moods. As such, the exhibition considers changes in how cities and territories are imagined by different kinds of people in the DRC today.
The ethnographic, photographic, and filmic exploration of the cityscape that visual artist Sammy Baloji and anthropologist Filip De Boeck propose, offers an investigation into the qualities of the ‘hole’. Today, the notion of the hole (libulu in Lingala, the lingua franca in large parts of Congo) could be said to fully capture the essence of the Congolese city’s material quality. It defines the generic form of Congo’s postcolonial urban infrastructure. Indeed, the surface of the Congolese city is pockmarked with potholes, while unstoppable erosion points constantly eat away at the urban tissue. Similarly, the surface of the Congolese landscape is disfigured by artisanal mining holes and the holes of (often unmarked) graves. In fact, the concept of the ‘hole’ has become a kind of metaconcept that people use to reflect upon the material degradation of the city’s colonial modernist infrastructure and to rework the closures and often dismal quality of the social life that has followed the material ruination of the colonial city.

What this exhibition reflects upon, then, are the questions of how this ‘reworking’ is taking place and how this postcolonial hole is being filled in the experience of Congolese urban residents. What possible answers does urban Congo propose in response to the challenge posed by the hole? If the city has transformed into a hole, how can this hole be ‘illuminated’ to become something that enables living, and living together in the city? For the makers of this exhibition, the notion of living together can only exist where the whole, the assemblage, is not fully formed and is not yet closed. For, living together always implies a contestation about how a social body, a collective, completes itself – it is a process that is never completely closed, summed up, or fully identical with itself.
As family, kinship, and neighbourhood solidarities are often stretched to the limit, and residents search sometimes desperately for a viable experience of being together, the makers of this exhibition try to trace what new forms are emerging, and how to understand these new forms. What is investigated here are the closures and openings through which this living together in the city is made possible or rendered impossible. In this sense, the exhibition can be read as an attempt to discover where and how people stitch their lacks and losses together and suture the folds, gaps, and holes of the city. Sutures here suggest the possibility of closing wounds, generating realignments and opening up alternatives, thereby also pointing to new kinds of creativity with (spatial and temporal) beginnings, and new forms of interactivity and conviviality.
Baloji and De Boeck investigate these gaps and sutures by means of a number of urban acupuncture points, in other words, investigations of specific sites within (and often beyond) the city of Kinshasa – particular buildings, horticultural sites and fields in the city, specific graveyards, mountains, potholes, new city extensions, and so on – into which they stick their analytical needle in order to understand what is happening in all of these places that form important, though sometimes barely materially visible, nodes within the city. These sites are where the city switches on and off, where quickenings and thickenings of goods, people, and publics are generated and the various lines and connections between them become visible.

The Tower
One of the early landmarks of Belgian colonial urban architecture in Leopoldville (now Kinshasa) was the Forescom tower. Built in 1946, it was city’s first skyscraper, and one of the first high rise buildings in Central Africa. Pointing towards the sky, it also pointed to the future. It embodied and made tangible new ideas of possible futures, and as such the tower materially translated emblematically visualised colonialist ideologies of progress and modernity.
Today, a stark contrast to the Forescom Tower can be found in the municipality of Limete. Conceived, realized, and owned by the “Docteur,” a man who introduces himself as a “doctor in aeronautics and spatial medicine,” this still unfinished tower has been under construction since 2003, without the help of professional architects. This postcolonial tower challenges the 1946 Forescom building and everything it exemplified at the time, while illustrating the various ways in which the colonialist legacy continues to be reformulated and reassembled today. The video featured in this exhibition, titled The Tower: A Concrete Utopia, offers a guided tour of this remarkable tower by the “Docteur.”

The OCPT Building
Cielux OCPT (Office Congolais de Poste et Télécommunication), colloquially known as ‘the Building’ (le Bâtiment), is located in the neighbourhood of Sans Fil (‘Wireless’), in the populous municipality of Masina, east of the colonial heart of the city. The Cielux site was constructed in the mid-1950s as one of many branches of the major post office in the central downtown municipality of Gombe. A grand modernist, L-shaped building situated in a large walled compound, it housed a section of the national radio and functioned as an outgoing relay station for international telephone and telegraph communications (hence the neighbourhood’s name, ‘Wireless’). When it served this purpose, the Building literally connected Leopoldville (now Kinshasa) to the outside world, even though the site lay outside the city at the time of its construction. Today, the Building is occupied by several families, totalling more than 300 people. Most of them are still officially employed by the OCPT. In fact, the Ministry of Telecommunications has allowed some of its employees to move into the Building, as an advance for unpaid salaries or as a type of pension provision for retiring employees.

The Cemetery
The cemetery of Kintambo is one of the oldest and largest cemeteries of Kinshasa. Over the years, the city has increasingly invaded the cemetery, and informal settlements have sprung up alongside it. One of these settlements is Camp Luka, also known as ‘the State’. Here, the living and dead exist in close proximity. Although the cemetery was officially closed by urban authorities and abandoned in the late 1980s, the people from Camp Luka and other areas in Kinshasa continue to go there to bury their dead.

La Cité du Fleuve and the Vegetable Gardens of the Malebo Pool
Since the end of the colonial period, the south of Malebo Pool’s – a lake-like expansion of the lower Congo River between the Democratic Republic of Congo and the Republic of the Congo – has steadily transformed into a vast agricultural zone. In the 1980s, a South Korean agricultural company started to develop rice paddies there, but this project was abandoned after the widespread looting that hit Kinshasa in 1991 and 1993. After the Korean company left, local residents quickly moved in to occupy the rice fields. Before long, they started to expand them, often using shovels or bare hands to fill in and reclaim the pool’s marshes.
A large portion of this vast agricultural space will now have to make way for the development of a new satellite city, the Cité du Fleuve, a private development that started in 2008. Built on two artificially created islands in the Malebo Pool, the Cité du Fleuve will be 6 kms2 in size, and include over 200 villas and 10,000 luxury apartments, 10,000 offices, a marina, schools, cinemas, restaurants, and conference rooms. It will be connected to the rest of Kinshasa by two bridges and a transit road. Self-sufficient in water and electricity supply, the Cité du Fleuve is promoted as offering potential buyers a luxurious lifestyle and secure land titles.

Maquette of Kinkole City
Kinkole City is one of the last fully planned zones of Kinshasa. The plan was partly implemented in the late 1960s and early 1970s. Today the maquette gathers dust in a corridor of the municipal house of Nsele.

Land Chiefs
Land chiefs still control large tracts of land, particularly in the more rural parts of Kinshasa province to the southwest of the city in the urban districts of Lukunga, Funa, and Mont Hamba, and to the east in the urban district of Tshangu as well as on the Bateke Plateau. In Kinshasa’s eastern periphery along the Malebo Pool – a lake-like expansion of the lower Congo River between the Democratic Republic of Congo and the Republic of the Congo – important Teke and Banfunu chiefs have been reigning over the same vast areas of land that their ancestors had controlled when Welsh journalist and colonial explorer Henry Stanley arrived and started exploring the region in the 1870s. It is no coincidence that these areas of the city are the ones now undergoing expansion. In this process of rapid urban growth, these land chiefs play a decisive role, even though their administrative function is often not recognized by state institutions. It is simply impossible for an individual, a real estate company, or an industrial investor to obtain a piece of land without first negotiations with them.

Fungurume / Pungulume
The town of Fungurume is in the province of Katanga, between the large mining centres of Kolwezi and Likasi. Home to the Sanga people, Fungurume is surrounded by hills and mountains that form one of the world’s largest copper and cobalt deposits. These mineral resources still remain largely unexploited. People have always engaged in artisanal mining here, and in pre-colonial times, the area was a major centre in a continental copper trading network. Large-scale industrial surface mining is more recent. In the mid-1990s, during the final years of President Mobutu Sese Seko’s reign, the Canadian-Swedish Lundin Group obtained concessionary rights from the government to mine most of the mountains around Fungurume, an area of 1500 kms², but it was not until 2006 and a major change in the holding company’s ownership structure that Tenke Fungurume Mining consortium started up its open-pit and oxide ore processing facilities. Between 2009 and 2015, the consortium was mining multiple deposits concession-wide. The company also started to plan for the construction of a whole new city, an airport, labor camps for the workers, large processing plants, and a number of other industrial facilities. The construction of this new infrastructure would necessitate the further relocation of some 15,000 local Sanga residents, including the Sanga chief, Mpala Swanage Pascal Musenge. In May 2016, however, the Tenke Fungurume Mining consortium unexpectedly changed hands, when China Molybdenum bought the shares of the American group Freeport-McMoran for $2.6 billion. It is not certain at this point whether China Molybdenum will implement the new infrastructure project.

 

 

Biografia

Sammy Baloji (n. 1978, República Democrática do Congo, vive e trabalha em Lubumbashi e Bruxelas). A etnografia, a arquitetura e o urbanismo são focos temáticos chave da prática artística de Baloji, que reúne fotografias, vídeos e documentos de arquivo relacionados com a história colonial. A sua leitura do passado congolês é uma forma de analisar a atual identidade africana, através do prisma dos diferentes sistemas políticos que a nossa sociedade experimentou. Em 2010, Baloji fundou a organização sem fins lucrativos Picha (‘Imagem’ em Swahili) como parte de uma iniciativa coletiva, que organiza a Bienal Rencontres Picha em Lubumbashi e apoia o desenvolvimento de práticas artísticas locais. Baloji esteve presente em inúmeras exposições individuais e coletivas em todo o mundo. Em 2015, o seu trabalho foi apresentado na 13ª Bienal de Lyon, “La Vie Moderne”, com curadoria de Ralph Rugoff; na 56ª Exposição Internacional da Bienal de Veneza, “All the World’s Future’s”, com curadoria de Okwui Enwezor e na “Personne et les autres”, com curadoria de Katrina Gregos, para o Pavilhão belga na Bienal de Veneza. Recebeu vários prémios, incluindo o Chevalier des Arts et des Lettres (2016), Smithsonian Artist Research Fellowship (2015) e o 2014 Rolex Mentor e Protégé Arts Initiative Award, em parceria com Olafur Eliasson.

Filip De Boeck (n. 1961, Bélgica, vive e trabalha em Bruxelas). Como coordenador de investigação do Instituto de Pesquisa Antropológica em África da Universidade de Leuven, o professor Filip De Boeck está ativamente envolvido no ensino, promoção, coordenação e supervisão da pesquisa sobre e em África. Desde 1987, realizou extensas pesquisas de campo em comunidades rurais e urbanas na R. D. Congo (ex-Zaire), começando em comunidades rurais na província de Bandundu (1987-1995), seguindo-se pesquisas de longo prazo em Kinshasa e outras cidades secundárias, como Kikwit (de 1995 até hoje). Os seus interesses teóricos atuais incluem subjetividades de crise locais, memória pós-colonial, juventude e política de cultura e a transformação do espaço privado e público no contexto urbano africano. De Boeck publicou extensivamente sobre esses tópicos. Em 2004, juntamente com o arquiteto e crítico Koen Van Synghel, organizou uma exposição, “Kinshasa: The Imaginary City”, para a 9ª Bienal Internacional de Arquitetura em Veneza. Esta exposição recebeu o Leão de Ouro para a melhor instalação. Em 2010, estreou “Cemetery State”, um documentário de 70 minutos que examina a política de morte da juventude urbana num cemitério de Kinshasa.

Devrim Bayar (b. 1980, Bélgica, vive e trabalha em Bruxelas). É curadora do WIELS Contemporary Art Center, onde organizou as exposições individuais de Pierre Leguillon, Helena Almeida, Daan van Golden (retrospetiva), Thomas Bayrle (retrospetiva), Allen Ruppersberg, Robert Heinecken, além de coletivas como “Something Stronger Than Me”, explorando desenvolvimentos recentes em práticas artísticas colaborativas, ou “Un-Scene”, com foco na cena emergente da arte visual da Bélgica. Atualmente está a fazer a curadoria da exposição retrospetiva de René Daniëls, “Fragments from a Unfinished Novel”, bem como uma pesquisa sobre a carreira do artista belga Benoît Platéus. Em 2016, coorganizou o festival Indiscipline, no Palais de Tokyo, apresentando a cena artística emergente das artes visuais e performativas de Bruxelas. Bayar é a fundadora da plataforma editorial e de curadoria Le Salon, dedicada à cena artística de Bruxelas.

A exposição é acompanhada pela seguinte publicação:
Filip De Boeck and Sammy Baloji, Suturing the City. Living Together in Congo’s Urban Worlds. London: Autograph ABP, 2016.
Esta exposição foi originalmente organizada pelo WIELS Contemporary Art Centre de Bruxelas. A itinerância da exposição é apresentada pelas Galerias Municipais/EGEAC de Lisboa, em colaboração com a Open Society Foundations (Nova Iorque) e The Power Plant (Toronto).

 

[ENG]

BIOGRAPHIES

Sammy Baloji (b. 1978, Democratic Republic of Congo; lives and works in Lubumbashi and Brussels). Ethnography, architecture and urbanism are key thematic focuses of Baloji’s artistic practice, which brings together photography, video, and archival documents relating to colonial history. His reading of the Congolese past is a way of analysing African identity today, through the prism of the different political systems that our society has experienced. In 2010, Baloji founded the Picha (‘Image’ in Swahili) non-profit organization as part of a collective initiative, which organizes the Rencontres Picha Biennial in Lubumbashi and supports the development of local artistic practices. Baloji was featured in numerous solo and group exhibitions worldwide. In 2015, his work was presented in the 13th Biennale de Lyon “La Vie Moderne” curated by Ralph Rugoff; the 56th International Exhibition of the Venice Biennale “All the World’s Future’s” curated by Okwui Enwezor, and “Personne et les autres”, curated by Katrina Gregos, for the Belgian Pavilion at the Venice Biennale. He has been the recipient of numerous awards including, Chevalier des Arts et des Lettres (2016), the Smithsonian Artist Research Fellowship (2015) and the 2014 Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative award, partnering with Olafur Eliasson.

Filip De Boeck (b. 1961, Belgium; lives and works in Brussels). As the research coordinator of the Institute for Anthropological Research in Africa at the University of Leuven, Professor Filip De Boeck is actively involved in teaching, promoting, coordinating and supervising research in and on Africa. Since 1987 he has conducted extensive field research in both rural and urban communities in D.R. Congo (ex-Zaire), starting with years of research in rural communities in the province of Bandundu (1987-1995), followed by long-term research in Kinshasa and other secondary cities such as Kikwit (1995-present). His current theoretical interests include local subjectivities of crisis, postcolonial memory, youth and the politics of culture, and the transformation of private and public space in the urban context in Africa. He has published extensively on these topics. In 2004, together with architect and critic Koen Van Synghel, De Boeck curated an exhibition, “Kinshasa: The Imaginary City”, for the ninth International Architecture Biennial in Venice. This exhibition was awarded a Golden Lion for best installation. In 2010 De Boeck released “Cemetery State”, a 70 minute long documentary film which examines urban youth’s politics of death in a Kinshasa graveyard.

Devrim Bayar (b. 1980, Belgium; lives and works in Brussels). Devrim Bayar is curator at WIELS Contemporary Art Centre, where she organized the solo exhibitions of Pierre Leguillon, Helena Almeida, Daan van Golden (retrospective), Thomas Bayrle (retrospective), Allen Ruppersberg, Robert Heinecken, as well as group shows such as “Something Stronger Than Me”, exploring recent developments in collaborative art practices, or “Un-Scene”, focusing on the emerging visual art scene of Belgium. Devrim Bayar is currently curating the René Daniëls’s retrospective exhibition “Fragments from an Unfinished Novel”, and a mid-career survey of the Belgian artist Benoît Platéus. In 2016 she co-curated the festival Indiscipline at Palais de Tokyo presenting the emerging visual and performing art scene of Brussels. She is the founder of the editorial and curatorial platform Le Salon dedicated to the Brussels art scene.

The exhibition is accompanied by the following publication:
Filip De Boeck and Sammy Baloji, Suturing the City. Living Together in Congo’s Urban Worlds. London: Autograph ABP, 2016.
The WIELS Contemporary Art Centre in Brussels originally organized this exhibition. Galerias Municipais/EGEAC in Lisbon presents the exhibition tour, in collaboration with the Open Society Foundations (New York) and The Power Plant (Toronto).