O luxo de fazer sentido

Claire Fontaine

“Um dia, ele disse-nos, a mim e à Gallese: “Conheço um grupo de investigadores em Marselha, que está a estudar o modo como os cheiros provocam emoções. Este trabalho poderá permitir provar a existência de neurónios-espelho para a empatia.” “Como?”, perguntámos. “Utilizando cheiros que provocam determinadas emoções e mostrando, ao mesmo tempo, rostos que expressam essas emoções. Assim podemos verificar se as mesmas zonas são ativadas em ambos os casos.” (…) Descobrimos que os mesmos voxel, ou seja, os mesmos pontos nos mapas de ressonância magnética do cérebro, eram ativados quando a emoção era evocada por estímulos naturais (por exemplo, o cheiro de ovos podres) e quando os sujeitos viam – na realidade liam – a mesma emoção, o nojo, no rosto de um desconhecido. Vimos imediatamente que (…) as emoções das outras pessoas não eram compreendidas “cognitivamente”, mas sentidas “diretamente” como sendo nossas.”
G. Rizzolatti, A. Gnoli, In te mi specchio, 2016.

Embora se conheçam as consequências físicas da inanição, bem como os danos corporais permanentes ou transitórios provocados pela falta de comida, temos menos informação sobre os modos como outras privações nos mutilam e transformam irreparavelmente. Viver com dívidas, por exemplo, atrofia a nossa alma. A ansiedade mata a empatia. O medo destrói a dignidade. A pobreza significa, antes de mais, que as pessoas não podem ser determinadas coisas, não podem saber como seria a vida, se não fossem economicamente privadas da sua capacidade de existir. No limite, as pessoas que vivem com necessidades, ao se verem forçadas a retirar a sua liberdade e a sua inteligência emocional do mundo, delapidam o legado da humanidade, erodem a nossa capacidade de uma compreensão mútua. E no deserto dessa ausência, singram o racismo, a crueldade e a indiferença.

Há cinquenta anos, em muitos países ocidentais, rebentou uma revolta de jovens trabalhadores e estudantes que reclamavam por uma vida diferente, em que o amor e a exploração do corpo fossem uma parte importante da nossa existência. Isto significava descolar subjetividades da dívida à sociedade, libertar-se da posição limitativa de serem mera mão-de-obra ou mão-de-obra-futura, de terem de lutar numa guerra ou de obedecer aos seus opressores.

O feminismo começou a dizer, então, – e continua a fazê-lo – que tudo o que sabemos sobre o amor é um conto de fadas patriarcal, contado repetidamente com a única intenção de encantar um status quo inaceitável. O amor ainda tem de ser inventado: o simples facto de a pobreza ainda existir, prova-o.
“Após vários episódios, o cavaleiro, que foi recebido no castelo onde se encontra a sua donzela, declara o seu amor por ela e é repudiado. Durante um longo colóquio (…) o cavaleiro (…) consegue colocar um anel no dedo dela. Quando ela, mais tarde, se dá conta do truque, manda chamar o cavaleiro, zangada, e exige devolver-lhe o anel (…) Recebendo-o de volta, o cavaleiro diz “Muito lhe agradeço;/ O ouro está certamente imaculado,/ visto voltar dessa mão tão bela.”/ Ela sorri, ao pensar que/ o anel regressará ao dedo do cavaleiro;/ mas a ação deste é astuta/ e mais tarde trará ao cavaleiro grande alegria./ Debruça-se sobre o lago,/ com palmo e meio/ de profundidade, e facilmente/ vê na água límpida/o reflexo daquela donzela/ que ele mais amava do que tudo/ no mundo. “Sabei então,” diz ele,/ “que nunca o aceitarei de volta,/ mas à minha doce amiga darei, a quem/ mais amo depois de vossa graça.”/ “Meu Deus!” responde ela, “aqui estamos sós,/ onde a encontrareis tão depressa?”/ “Juro, em breve a vereis,/ a valorosa e nobre criatura que o terá.”/ “Onde está ela?” “Por Deus, ei-la, olhai/ vosso belo reflexo que aguarda./ Para vós,” diz ele, “minha querida amiga!”/ Porque a minha donzela não o quer,/ Vós o recebereis – aceitai.”/ A água agitou-se um pouco,/ quando o anel lá caiu;/ e, quando o reflexo se desfez:/ “Olhai,” disse ele, “minha donzela, agora ela o tem.” G. Agamben, Stanzas, 1993

Em Le Lai de l’Ombre, o poema mais admirado do trovador normando Jean Renart, um cavaleiro, que corteja uma donzela, busca o seu amor espiritual sem, contudo, deixar de idolatrar a sua imagem física. O reflexo da donzela na superfície de um lago acaba por aceitar o anel e o noivado, que a mulher de carne e osso recusara: e vivem felizes para sempre. Quando Renart escreveu estas estrofes, as ruas das cidades francesas estavam apinhadas de corpos de sem-abrigos, as ruas lamacentas do campo estavam infestadas de vagabundos que fugiam de casas vazias e campos estéreis em busca de sobrevivência. A repressão da contraceção e o infanticídio, nesse momento, eram tão intensos que o número de pobres, vagabundos e pedintes atingiu proporções sem precedentes. Em 1179, no seu discurso no segundo Concílio de Latrão, o papa Alexandre III condenou o sistema parasitário de empréstimos que existia então: a mort-gage – que levava as pessoas a perder não só as suas propriedades, como também a utilização e os ganhos dos seus negócios, deixando-os numa situação onde não podiam sequer ter a esperança de voltar a recuperar a sua autonomia financeira. Mas os agiotas continuaram a asfixiar a população, o que levou a epidemias e a uma miséria endémicas. A doença e a falta de comida atingiram Anjou em 1124, a fome dizimou a Aquitânia entre 1161 e 1162, e criou um exército de camponeses desenraizados entre os rios Sena e Escaut em 1197. Mollat escreve o seguinte em Les pauvres au Moyen-Age: “muitos foram forçados por uma necessidade tão cruel, que optaram por um caminho contrário aos seus hábitos, tornando-se criminosos e acabando na forca.” As mesmas pessoas que então morriam de doença e fome, que eram conduzidas ao cadafalso ou queimadas como bruxas, sem que ninguém, na maior parte das vezes, se lembrasse dos seus nomes ou chorasse por elas, poderiam ter mostrado, se colocadas no lugar do cavaleiro, a mesma sensibilidade delicada e, depois de uma discussão acesa, oferecido o seu amor a um reflexo tremeluzente na superfície de um lago transparente.

“Senti verdadeiro arrependimento pela integridade original da qual senti que me distanciara: na desorientação do desejo do eco de outra mulher perdida, ganhei consciência de mim mesma” C. Lonzi, È già politica, 1977

Isso foi provado por investigações recentes: os neurónios-espelho são responsáveis não só pela nossa empatia, mas pela nossa capacidade de sentir coisas que vemos como se essas nos estivessem realmente a acontecer a nós, ou como se fossemos nós a fazê-las. Não é necessário que nos digam que as pessoas estão a sofrer para sentir vontade de as ajudar ao vê-las nessa situação. O motivo que nos impede de fazê-lo é o mesmo que nos desencoraja de pensar, de experimentar coisas novas ou de ser corajosos: não nos podemos dar a esse luxo. Dar sentido a essas situações é apanágio de feministas radicais, abolicionistas penais, filantropos incorruptíveis, médicos em cenário de guerra e repórteres destemidos. Nos outros casos, a economia vence sempre, pequenos cálculos são integrados na nossa capacidade seletiva de nos reconhecermos nos outros, e vivemos em negação da evidência do comunismo. No seu diário, Lonzi escreve uma história perturbadora acerca do tecido social que nos une: “a pessoa que ela fora antes não poderia ter-me ajudado, mas no grupo que formei ela encontrou uma maneira de se tornar ela própria e de me levar a fazer o mesmo. Assim compreendi porque é que tinha de praticar o feminismo: para dar existência à Sara, para que ela me pudesse fazer-me existir.” Podemos continuar a ignorar aquilo que liga o nosso destino ao dos outros, recusar-nos a vê-los como reflexos nossos e negligenciar aquilo que temos em comum, mas ao fazê-lo perdemos a nossa única possibilidade de dar sentido à vida. E fazer sentido tornar-se-á o luxo máximo, aquele a que ninguém terá acesso.
Claire Fontaine, Los Angeles, 9/6/18

Exposição Relacionada

Data
Título
Artistas
Curadoria
Galeria
24.10.2019
– 05.01.2020
Your Money and Your Life
Claire Fontaine
Anna Daneri
Galeria Avenida da Índia