Um livro de colorir

Catarina Nascimento, Daniel Peres e Margarida Rodrigues (Galerias Municipais)

João Vasco Paiva, The Highways Department Colouring Book, 2016 (em curso); livro de artista; capa-dura forrada a tecido, impressão jato de tinta e lápis de cor sobre papel-vegetal; 20,5x14x1,5cm; 246 páginas.

 

 

A obra The Highways Department Colouring Book (2016–) foi um dos pontos de partida para Cut Down the Middle — exposição coletiva apresentada entre abril e junho de 2021 na Galeria Avenida da Índia.

Curiosamente, este livro não se encontrava fisicamente no espaço expositivo. Podíamos apenas vislumbrá-lo a partir da imagem de divulgação da exposição, quer no telão outdoor, quer na web, ou a partir das referências que lhe são feitas no texto da folha de sala.

Na primeira página deste colouring book é citada parte do texto de abertura do filme Fitzcarraldo, de Werner Herzog.[1] Esta epígrafe sintoniza-nos com ideias de incompletude associadas à criação e transformação de um meio-ambiente, de um dado espaço e da sua vivência — problemáticas relevantes para essa epopeia cinematográfica e que também ressoam neste trabalho de João Vasco Paiva. Todo o miolo do livro é depois composto por dezenas de impressões de desenhos esquemáticos disponibilizados online pelo Departamento de Estradas de Hong Kong. João Vasco Paiva descarregou-os, limpou várias das referências escritas que eles continham e compilou-os neste objeto artístico, abrindo-os a outras perspetivas.

Originalmente, estes desenhos técnicos ditam uma construção rígida baseada em regras que impactam o ordenamento do espaço público, a paisagem urbana, a habitação da cidade e a sua organização social. Ao apropriar-se artisticamente destes modelos gráficos, e ao colori-los, João Vasco Paiva dá-lhes uma utilização que podemos ver como irónica face à ideia de rigor científico destes desenhos e ao peso institucional do arquivo oficial de onde provêm. São recursos que ganham agora um novo contexto, em que funcionalidade e objetividade cedem lugar a valores plásticos, poéticos e especulativos.

Falamos de um trabalho que não está concluído e que se vai construindo e preenchendo ao longo do tempo sem agenda ou calendarização específica. O processo vai acontecendo à medida que João Vasco Paiva vai colorindo elementos dos desenhos técnicos que vamos encontrando enquanto folheamos o livro. Trata-se de um ato de colorir que pode aproximar-se do doodling, contrastando com o universo técnico dos desenhos que lhe servem de base. É um gesto que poderá ter, em latência, meditações sobre a arquitetura da cidade contemporânea e as políticas que ela envolve, mas que ocorrerá também como um livre-trânsito para o pensamento ou um desprendido “momento de não pensar em nada”, parafraseando aqui o próprio João.

 

[1]  O texto completo é o seguinte: «Cayahuari Yacu nennen die Waldindianer dieses Land, "das Land in dem Gott mit der Schöpfung nicht fertig wurde". Erst nach dem Verschwinden der Menschen, glauben sie, werde er wiederkehren, um sein Werk zu vollenden.» [trad. PT: «Cayahuari Yacu é o que os povos indígenas da floresta chamam a esta terra, "a terra onde Deus não concluiu a sua criação". Só depois do desaparecimento dos humanos, acreditam eles, é que Deus voltará para completar a sua obra»]

Jornal Relacionado

Data
Título
Autor
29.07.2021
Cut Down The Middle
Dasha Birukova

Exposição Relacionada

Data
Título
Artistas
Curadoria
Galeria
09.04.2021
– 13.06.2021
Cut Down The Middle
João Vasco Paiva, Heman Chong, Ramiro Guerreiro, Ko Sin Tung, Magdalen Wong
Claudia Pestana em diálogo com João Vasco Paiva
Galeria Avenida da Índia