Pavilhão Branco

Nudez – Uma Invariante

Artistas Pedro Morais
Curadoria Óscar Faria
Inauguração 27/01/2018 00:00
Data De 28/01/2018 a 01/04/2018
Folha de Sala

Este coração posto a nu
Na esfera da literatura monástica é conhecida a lenda de “Mestre Eckhart e o menino nu”. Trata-se de um breve diálogo entre uma criança e o filósofo medieval renano, porventura escrito por um seu discípulo ou seguidor. Nesse texto, de carácter alegórico, narra-se um encontro onde o místico dominicano e personagem mais nova encontram no acto de despojamento, na nudez, a via para a revelação da essência contida no coração: a pobreza enquanto virtude crucial da existência. É através dessa despossessão, através da qual nos acercamos do nada, que somos confrontados com o facto da vida e da morte se equivalerem na sua suprema importância. Não devemos, pois, desperdiçar o nosso tempo:
“O Mestre levou o menino à sua cela e disse:
– Podes levar a roupa que quiseres.
– Mas, assim já não seria rei!
E desapareceu
O menino era Deus em pessoa, e viera para se divertir com ele.”
“Nudez – uma invariante” é não só o título da exposição de Pedro Morais, mas também o nome de um projecto inédito, agora revelado. Esta obra, que ocupa o primeiro piso do Pavilhão Branco, é dedicada quer a Leonardo da Vinci, para quem a pintura é “cosa mentale”, quer a Marcel Duchamp, que projectou essa ideia para uma quarta dimensão. Há um terceiro nome que percorre esta mostra, o japonês Hogen Yamahata, mestre zen contemporâneo, do qual se escuta a voz a recitar um texto fundamental daquela escola: o “Sutra do Coração”, onde, a determinada altura se lê: “(…) tudo, todos os fenómenos têm por natureza o vazio; não são nem produzidos nem destruídos, nem impuros nem imaculados, nem crescentes nem decrescentes.”
NUDEZ – UMA INVARIANTE
Pedro Morais
curadoria Óscar Faria
Através desta obra, Pedro Morais propõe uma reflexão acerca do carácter impermanente da existência, servindo-se, para isso, da pintura. Podemos nomear mesmo este trabalho como uma instalação pictórica, onde as cores primárias e complementares se espelham, num constante movimento de velaturas – o “sfumato”, tão utilizado por Leonardo –, que nos convidam a descobrir um espaço pleno de simbolismo, onde podemos encontrar essa passagem da virgem a noiva, protagonizada pela figura da maternidade. L.H.O.O.Q. [“Elle a chaud au cul”], como inscreveria, em 1919, Duchamp, depois de pintado o bigode, numa reprodução da “Mona Lisa”.
A exposição inclui ainda, no rés-do-chão, uma série de maquetas, com as respectivas caixas, e trabalhos recentes de Pedro Morais, sendo ainda apresentadas as duas primeiras “células” realizadas pelo artista em 1986. Podemos assim confrontar-nos com um percurso de uma rara consistência na arte portuguesa das últimas décadas: uma obra de um rigor atroz, onde confluem elementos de diferentes tradições: a mística renana medieval, a alquimia, o zen, a pintura enquanto “coisa mental”, de Leonardo a Duchamp, passando por Dacosta, os espaços solitários de Raymond Roussel, ou a prática em ateliês livres – de arquitectura, de pintura, de experimentação –, não só enquanto aprendiz, mas também como professor.
Nesse face-a-face onde qualquer falha deixa entrar a luz, quando a poeira assenta no chão, ou as nuvens atravessam o céu, tudo pode acontecer: uma corrente de ar, um espirro, a aparição de uma chama, o som da água a correr, o brilho dos pirilampos, as douradas sementes sobre terra azul, uma lâmina que surge de uma parede e Ah! As papoilas. Basta estar sentado para que o acontecimento, a nudez, se produza:
“Para além do mental nada existe. As flores nascem e morrem – como é simples a noite clara.” (Pedro Morais)
Quase uma retrospectiva de bolso, esta exposição é para transportar para casa, levando connosco este coração aqui e agora, uma vez mais, posto a nu.

Óscar Faria

 

[ENG]

This heart laid bare
The legend of “Meister Eckhart and the naked boy” is well-known within monastic literature. It is a brief dialogue between a child and the medieval Rhenish philosopher, perhaps written by a disciple or follower. The allegory tells the story of an encounter in which the Dominican mystic and the young child find, in the act of renouncement, in nakedness, the way to the revelation of the essence of the heart: poverty as a fundamental virtue of existence. It is through this renouncement, by which we come closer to nothingness, that we are confronted with the fact that life and death are of equally supreme importance. We should not, therefore, waste
our time:
– The Meister took the boy to his monastery cell and said,
“You may take whichever clothes you wish.”
“But then I would be king no longer!”
answered the boy before disappearing.
The boy was God himself, having come to entertain Himself with the Meister.
“Nudez – uma invariante” [Nakedness – an invariant] is not only the title of Pedro Morais’ exhibition, but also the name of a project being revealed for the first time. This work, which occupies the first floor of the Pavilhão Branco, is dedicated both to Leonardo da Vinci, for whom painting is “cosa mentale” [something mental], and to Marcel Duchamp, who projected this idea to a fourth dimension. A third name running through this exhibition is Hogen Yamahata, a contemporary Zen master from Japan whose voice is heard reciting one of the central texts of that school, the “Heart Sutra”, including the following passage: “(…)all dharmas are marked with emptiness; they are neither produced nor destroyed, neither defiled nor immaculate, neither increasing nor decreasing.”
NUDEZ – UMA INVARIANTE
Pedro Morais
curadoria Óscar Faria
Through this work, Pedro Morais uses painting to offer a reflection on the impermanent character of existence. This work might even be called a pictorial installation, in which primary and complementary colours are mirrored in a constant shifting of tones – the “sfumato” so favoured by Leonardo – inviting us to discover a space replete with symbolism in which we witness the passage from virgin to bride, with a central role for the figure of motherhood. L.H.O.O.Q. [“Elle a chaud au cul”], as written by Duchamp in 1919 after painting his moustache on a reproduction of the Mona Lisa.
The exhibition on the ground floor also includes a series of models with their respective boxes, together with recent works by Pedro Morais and the first two “cells” made by the artist in 1986. Viewers are thus able to experience a trajectory of rare consistency in the Portuguese art of recent decades, a work of brutal exactness in which elements of different traditions converge, including medieval Rhenish mysticism, alchemy, Zen, painting as “cosa mentale”; from Leonardo to Duchamp via Dacosta and the solitary spaces of Raymond Roussel or practice in independent workshops – architecture, painting, experimentation – not only as an apprentice but also as a teacher.
This face-to-face encounter in which any crack lets the light get in, when dust settles on the ground or clouds cross the sky, anything can happen: a stream of air, a sneeze, the appearance of a flame, the sound of running water, the glow of fireflies, golden seeds on blue earth, a blade that emerges from a wall and – of course! – the poppies. It is enough to be seated for the event, for the nakedness, to happen:
“Beyond the mind, exists nothing. Flowers are born and die – as simple as the clear night.” (Pedro Morais)
As an almost pocket-sized retrospective, this exhibition immediately transports us home, together with the heart that is, once again, laid bare.

Biografia

Pedro Morais (Lisboa, 1944)
Frequentou os cursos de Pintura da Escola António Arroio e da Escola de Belas-Artes de Lisboa, e a École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, Paris. Residiu em Paris de 1965 até 1977, tendo sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em 1967-1968. De regresso a Portugal, em 1977 foi professor na Escola António Arroio. Entre 1979 e 1994 foi o responsável pela experiência pedagógica “Atelier livre AT.RE”. É, desde 1984, responsável pela programação da Galeria Lino António. Entre 1975 e 1976 anulou a sua produção artística e dados biográficos anteriores (1964-1976), nas realizações LETTRE OU FENETRE A SEPT AMIS – AUREVOIR PEDRO MORAIS – projectos e textos (Paris, 1975) e TU EST…, Duplo Triângulo – desenho, pintura e objectos (Paris, 1976). Tem vindo a apresentar, desde 1982, diversas realizações e projectos.

Óscar Faria (Porto, 1966)
Crítico de arte, ensaísta. Doutorando em História de Arte Contemporânea – Universidade Nova de Lisboa, onde prepara uma tese acerca da obra de Álvaro Lapa. Nos últimos anos tem vindo a desenvolver trabalho curatorial não só no Sismógrafo (Porto) mas também na Fundação de Serralves e na Culturgest. Entre 1992 e 2011 foi jornalista e crítico do jornal Público. Director artístico da galeria Quadrado Azul (2012-2013) e Bolseiro da American Center Foundation (2008). Em 2004 e 2005 editou o programa Magazine Artes (RTP 2), actividade da qual resultaram cerca de 100 programas. Autor do documentário “A Segunda Casa” (RTP 2, 2005) acerca da obra de Helena Almeida.
Colaborou com várias publicações nacionais e internacionais, como Purple Prose, Camara Austria, Concreta, Jornal dos Arquitectos, Flauta de Luz, Confidências para o Exílio, etc.
Escreveu inúmeros ensaios, entre os quais se podem destacar aqueles acerca dos trabalhos de Rui Baião, Hernâni Reis Baptista, Vasco Barata, Artur Barrio, Gil Heitor Cortesão, Luis Paulo Costa, José Pedro Croft, Paulo da Costa Domingos, Priscila Fernandes, Renato Ferrão, Felix Gonzalez-Torres, Heinz Peter Knes, Álvaro Lapa, Pedro Morais, Paulo Nozolino, Rui Nunes, Bruno Pacheco, João Queiroz, Sebastião Resende, Thierry Simões, Francisco Tropa, Pedro Sousa Vieira e Danh Võ.

 

[ENG]

Pedro Morais (Lisbon, 1944)
He attended courses in Painting at Escola António Arroio and Escola de Belas-Artes de Lisboa, in Lisbon, and École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, Paris. He lived in Paris between 1965 and 1977, and was recipient of a grant from the Calouste Gulbenkian Foundation from 1967 to 1968. Back in Portugal, in 1977 he taught at Escola António Arroio, in Lisbon. Between 1979 and 1994 he led the educational project “Atelier livre AT.RE”. Since 1984 he has been responsible for the programming of Lino António Gallery. Between 1975 and 1976 he annulled all of his previous art production and biographical information (1964-1976) in the actions LETTRE OU FENETRE A SEPT AMIS – AUREVOIR PEDRO MORAIS – projectos e textos [Letter or Window to Seven Friends – Goodbye Pedro Morais – projects and texts] (Paris, 1975) and TU EST…, Duplo Triângulo – desenho, pintura e objectos [YOU ARE…, Double Triangle – drawings, paintings and objects] (Paris, 1976). Since 1982 he has presented several creations and projects.

Óscar Faria (Porto, 1966)
Art critic and essayist. He is currently pursuing a doctorate in Contemporary Art History at Universidade Nova de Lisboa with a thesis about the work of Álvaro Lapa. In recent years he has served as curator at Sismógrafo (Porto), Fundação de Serralves and Culturgest. From 1992 to 2011 he was a journalist and critic at the newspaper Público. He was a grantee of the American Center Foundation in 2008 and, from 2012 to 2013, the artistic director of Galeria Quadrado Azul. His work as editor of the television programme Magazine Artes (RTP 2) in 2004 and 2005 resulted in the production of approximately 100 programmes. He is the creator of the documentary “A Segunda Casa” [The Second House] (RTP 2, 2005) about the work of Helena Almeida.
He has collaborated with several national and international publications, including Purple Prose, Camara Austria, Concreta, Jornal dos Arquitectos, Flauta de Luz and Confidências para o Exílio.
He has written numerous essays, among which some highlights include those about the works of Rui Baião, Hernâni Reis Baptista, Vasco Barata, Artur Barrio, Gil Heitor Cortesão, Luis Paulo Costa, José Pedro Croft, Paulo da Costa Domingos, Priscila Fernandes, Renato Ferrão, Felix Gonzalez-Torres, Heinz Peter Knes,
Álvaro Lapa, Pedro Morais, Paulo Nozolino, Rui Nunes, Bruno Pacheco, João Queiroz, Sebastião Resende, Thierry Simões, Francisco Tropa, Pedro Sousa Vieira and Danh Võ.

 

Visita Guiada

JORNADA
24 Março (10h – 12h / 15h – 17h)
Para ser visto: em torno da obra de Pedro Morais

No âmbito da exposição “Nudez – uma invariante” irá realizar-se, a 24 de Março, uma jornada de um dia destinada a aprofundar o conhecimento da obra de Pedro Morais. “Para ser visto”, título do encontro, irá reunir uma série de nomes que se cruzaram com o artista, quer através da escrita e da curadoria, quer em lugares onde receberam os seus ensinamentos.
Dividida em duas partes, a jornada procurará reflectir, por um lado, sobre o ensino de Pedro Morais, ministrado na António Arroio, em Lisboa, onde não só fundou o mítico “atelier livre”, mas também programou a Galeria Lino António, e, por outro, acerca do seu percurso artístico, incidindo especialmente nas exposições realizadas no Museu Nacional de Arte Antiga e no Museu de Arte Contemporânea de Serralves.
“Para ser visto”, organizado por Óscar Faria em colaboração com as Galerias Municipais da EGEAC, conta com a participação de Rui Calçada Bastos, João Fernandes, Tomás Maia, Edgar Massul, Pedro Morais, José Luís Porfírio, Marta Soares e Francisco Tropa.
10h ao 12h | Pedro Morais, Óscar Faria, Rui Calçada Bastos, Edgar Massul,
Marta Soares e Francisco Tropa
15h às 17h | Pedro Morais, Óscar Faria, João Fernandes, Tomás Maia,
José Luís Porfírio

 

ONE-DAY EVENT
24 March (10am – 12pm / 3pm – 5pm)
To be seen: around the work of Pedro Morais

As part of the exhibition “Nudez – uma invariante” [Nakedness – an invariant], a one-day event will be held on 24 March to deepen knowledge of Pedro Morais’ work. “To be seen”, the title of the event, will bring together a number of people associated with the artist either through their writing, curation or in the context of the artist’s teaching.
The first half of the event will seek to reflect on Pedro Morais’ teaching at the António Arroio art school in Lisbon, where he not only founded the mythical “open workshop” but also programmed the Lino António Gallery. The second half of the event will focus on his artistic career, especially on his exhibitions at the National Museum of Ancient Art and the Serralves Museum of Contemporary Art.
“To be seen”, organised by Óscar Faria in collaboration with the Municipal Galleries of the EGEAC, also features the participation of Rui Calçada Bastos, João Fernandes, Tomás Maia, Edgar Massul, Pedro Morais, José Luís Porfírio, Marta Soares and Francisco Tropa.
10am to 12pm | Pedro Morais, Óscar Faria, Rui Calçada Bastos, Edgar Massul, Marta Soares and Francisco Tropa
3pm to 5pm | Pedro Morais, Óscar Faria, João Fernandes, Tomás Maia,
José Luís Porfírio