Under the Ground

Sara Castelo Branco e Hugo de Almeida Pinho

under the ground MATO
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Através de uma concepção do mundo separada da linearidade do tempo histórico, o conceito “deep time” foi formulado no século XVIII por James Hutton, que definiu que a temporalidade da terra não era configurada através de uma progressão sequencial, mas como um ciclo dinâmico de fluxos estratificados em várias temporalidades. As escavações ao interior da terra constituem assim uma espécie de viagem temporal ao passado, mas também uma forma de previsão das alterações futuras do planeta. Estas escalas geológicas tornaram-se portanto essenciais no entendimento de conceitos como o antropoceno ou o tecnoceno – que referem um período terrestre em que as actividades humanas têm um impacto global no funcionamento dos ecossistemas do planeta: em que o tempo profundo geológico é corrompido pelo tempo da conveniência humana. Neste contexto, Jean-Luc Nancy afirmou que hoje se vive um processo de “suplementação” e “suplantação”: a tecnologia integra matéria-prima da natureza nos seus dispositivos tecnológicos, ao mesmo tempo que essa mesma tecnologia transforma e esgota os recursos naturais para os seus próprios fins. Desta forma, a matéria geológica tornou-se hoje pertinente para compreender a nossa circunstância tecnológica, mas sobretudo para visibilizar determinados custos laborais, sociais e ecológicos implícitos nestas práticas pretensamente virtuais e imateriais.

Under the Ground propõe apresentar um conjunto de obras de diferentes temporalidades, imagéticas e geografias – que vão do Gana, às ilhas do Pacifico, à Grécia, ao Japão, à Antártica, à América do Norte ou ao deserto do Saara – e que, divididas por três sessões, procuram revelar questões centrais para uma compreensão alargada sobre a temporalidade profunda da terra, e a sua relação crítica com os tempos contemporâneos da economia e da tecnologia. A primeira sessão apresenta um conjunto de filmes que reflectem sobre a ligação entre a história do planeta e a história criada pela humanidade, tratando temas como a materialidade da tecnologia, a ecologia, a mineralogia ou o espiritismo indígena. A segunda sessão apresenta um conjunto de filmes que convocam uma dimensão distópica sobre as consequências da exploração da terra, projectando uma temporalidade futura e apocalíptica – seja através de perspectivas ligadas ao eco-feminismo e à mão-de-obra feminina, à transformação corporal e paisagística, ou, ao ponto de vista das cosmologias indígenas. Por fim, a terceira sessão propõe um conjunto de filmes que trabalham sobre tensões telúricas, ancestrais e sensoriais, dialogando o tempo profundo geológico da Terra com as capacidades técnicas do filme. Under the Ground pretende portanto apresentar um conjunto de obras que, sem hierarquias epistémicas, convoca um olhar para o passado ou para o futuro de forma a compreender o presente – algo que escava afim de perceber as urgências da contemporaneidade e criar uma arqueologia mais benéfica para o futuro.


Sessão 1

Data: 17/07/2020
Horário: 21h

Lettres du Voyant (2013, 40’)
Louis Henderson (UK)

Ultimate Substance (2012, 34’)
Anja Kirschner & David Panos (DE/GR-US)

Europium (2014, 21’)
Lisa Rave (DE)

Faux Départ (2015, 22’43’’)
Yto Barrada (MA)


Sessão 2

Data: 18/07/2020
Horário: 21h

Subconscious Society, a Feature (2014, 40’)
Rosa Barba (DE / US)

Uranium Hex (1987, 11’)
Sandra Lahire (UK)

The Mermaids, or Aiden in Wonderland (2018, 26’29’’)
Karrabing Film Collective (AUS)

Nauru – Notes from a Cretaceous World (2010, 14’50’’)
Nicholas Mangan (AUS)

Subatlantic (2015, 11’24’’)
Ursula Biemann (SWZ)

Sessão 3

Data: 19/07/2020
Horário: 21h

The Second Journey (To Uluru) (1981, 74’)
Arthur e Corinne Cantrill (AUS)

The Song of Stone (1963, 24’30’’)
Toshio Matsumoto (JP)

No Shooting Stars (2016, 14’25’’)
Basim Magdy (EGY)

Hand Held Day (1974, 6’)
– projeção de película em 16mm
Gary Beydler (US)

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